CAPÍTULO 4: O DESTINO CRUEL DE UM MAGO DO CAOSO quarto das meninas estava silencioso. Todas as crianças estavam dormindo, meninas em suas camas beliches e meninos com seus colchões no chão. Já era tarde de noite, madrugada. Os gêmeos estavam em um sono profundo. Os dois estavam dormindo agarrados um no outro. Mesmo brigados, parece que havia um instinto neles que os faziam se aproximar independente de seus sentimentos. Yugiki estava com seu rostinho pressionado no de seu irmão, dormindo sem distúrbios. Mas de repente, o menino ouve gritos estridentes de desespero. Yugiki acorda subitamente e assustado, sentado no seu colchão, ele olha ao seu redor e vê uma cena de horror acontecendo em sua frente. Bocas pontiagudas surgiram debaixo dos colchões e camas das meninas e meninos e começaram a abocanhar as crianças e mastigá—las impiedosamente. Yugiki estava com seus olhos arregalados e boquinha aberta de horror. Ele olhou para o seu gêmeo que ainda estava dormindo tranquilamente, como se nada tivesse acontecendo. — YUGI! YUGI! — Yugiki grita em desespero pelo seu gêmeo o balançando com sua mão. — ACORDA YUGI VAMOS EMBORA DAQUI! Mas não adiantava, o menino não acordava e permanecia imóvel e dormindo tranquilo com a chupeta em sua boca enquanto as crianças do quarto continuavam sendo devoradas vivas pelas bocarras que abriram em seus colchões. Yugiki pode ouvir os gritos de desespero e o som da pele das crianças sendo dilaceradas enquanto eram comidas vivas. Ele pôs a mão em seus ouvidos e fechou seus olhos. Seu corpo todo estava tremendo e ele chorava de desespero e medo. Até que Yugiki ouve um estrondo alto vindo da porta do quarto que bateu com força na parede, revelando uma figura sinistra, ou será que eram duas figuras? Yugiki não conseguia saber. A figura tinha duas cabeças, a cabeça direita tinha olhos que brilhavam em um vermelho intenso, a esquerda brilhava em uma luz branca. Ele não conseguia enxergar os rostos da figura nem o seu corpo direito, seu corpo estava consumido em uma escuridão envolta de uma luz vermelha que brilhava cardiacamente. — Vossa Alteza… — eles falaram. — Finalmente te encontramos… Oh, Príncipe dos Príncipes… nós vos suplicamos… acordem! — Parece que eram duas vozes de meninos falando juntos em perfeita sincronia. — Q—quem… quem são vocês?! — Yugiki pergunta olhando para a figura amedrontado. — Nós sentimos o seu amoroso poder… mesmo tão distantes de ti… adorá—los é a nossa alegria! Nosso único propósito em nossas vidas! É o que nos motiva a viver… — QUEM SÃO VOCÊS?! — Yugiki grita do fundo de seus pulmões. — Agora vão! Acordem… despertem seus poderes! Tragam terror aos impuros… destrua os nossos inimigos! …Vossa… alteza… A silhueta da figura desbota lentamente até desaparecer por completo, deixando apenas a luz escarlate cardíaca passando pela entrada do quarto. — Espera! — Yugiki grita e se levanta, mas ele começa a sentir uma dor de cabeça intensa que o faz cair de joelhos no chão. A mente do menino é transportada a um campo de batalha. Ele está em pé e envolto de corpos ensanguentados e mutilados de meninos mortos no chão enquanto ele ouvia uma risada gutural ecoando em sua mente. O céu era vermelho sangue e bocas sorridentes com dentes pontiagudos rasgavam os céus. Yugiki ouviu o grito de desespero de meninos e crianças ecoando em sua mente. Ele ouviu gritos de batalha, tintilar de espadas e disparos de armas e canhões, tudo ao mesmo tempo. Sua mente era bombardeada em um teatro de horrores em que ele não conseguia escapar. O menino olha por todo o seu arredores e só vê morte. Mas ele vê uma figura virada de costas em pé no amontoado de corpos assim como ele. Era um menino nu, sua pele e cabelos eram brancos como a neve, assim como Yugiki. Seu corpo estava todo ensanguentado. Mas sem nenhuma ferida. Estava claro que aquele sangue não era do menino e sim de outros. Yugiki sabia quem era, só existia outra pessoa igual a ele nesse mundo. — YUGIIIIIIII! — Yugiki grita. — Me ajuda… eu estou com medo! Yugi vira lentamente seu rosto, olhando sob seus ombros para Yugiki. Ele tinha um sorriso macabro em seu rosto, seus dentes pontiagudos estavam manchados de sangue e seus olhos eram negros envolta de uma íris que brilhava vermelho. — Y—Yugi… — Yugiki diz com a voz tremendo, dando um passo para trás se afastando dele. — O que… aconteceu com você?! O menino não diz nada. Apenas olha para Yugiki com um sorriso sinistro e vira completamente para sua direção, apontando sua mão direita e seu dedo indicador em direção ao seu gêmeo. Uma luz vermelha surge da ponta de seu dedo e um raio é disparado dele em direção a Yugiki, atingindo seu peito em cheio. — AAAAAAAAAAH! — Yugiki grita em desespero. Yugiki percebe que ele está de volta no quarto das meninas do orfanato e senta no colchão. As meninas que estavam no quarto já acordadas olham para o menino e riem de sua cara. Algumas olham com desprezo para ele, sabendo que ele se assustou com um pesadelo. O menino não prestou atenção nas zombarias das meninas, ao invés disso, ele olhou rapidamente para Yugi que estava coçando seus olhinhos com seus dedos. — Aaah… Yugiki. Por que cê tá gritando essa hora? — diz Yugi com a chupeta em sua boca. — Yugi! — Yugiki põe a mão nos ombros de seu gêmeo e depois o abraça. — Você tá bem! Tá tudo bem! — Yugiki diz com a voz tremendo. — Pera! — Yugiki diz e desfaz o abraço olhando sério para Yugi. — Esqueci que to brigado com você! — ele diz fazendo biquinho. — Hã… tá bom. Yugiki olha nos olhos de seu gêmeo. — Yugi… eu tive um pesadelo horrível! Sonhei que todo mundo era comido por bocas e depois veio um menino de duas cabeças falando um monte de coisa estranha e depois me levaram para um lugar cheio de corpos e depois você tava lá pelado e com olhos vermelhos! Você tava muito sinistro e você… — Que que eu fiz? — Me machucou com um raio! — Yugiki disse. — Igual o que o Rudano fez… — ele completou sussurrando. Yugi arregalou os olhos espantado. — E—eu fiz isso? — Yugiki acenou com a cabeça. — Ah, me desculpa, Yugiki. — Acho bom se desculpar mesmo, bobão! — Hã? Ei! Não foi eu! Você deve ter sonhado com demônios, Yugiki. — Que? Nada a ver. — Tem tudo a ver! É só você virar cristão e abandonar esses deuses pagãos que você nunca mais vai ter pesadelos! — Yugi diz sorrindo. — Eu nunca vou ser cristão, Yugi! — Eu tenho certeza que Deus vai tocar seu coração. Assim como tocou o meu. p> — Bleh! — Yugiki diz virando seu rosto com uma cara de nojo para o lado. — Ei, meninos. — eles ouviram uma voz de menina. Quando eles viraram, era Manoela junto com Isabel e Angela, as três meninas que conversaram com Yugi ontem a noite. — O que vocês tão falando? — Nada da sua conta! Cuida da sua vida. — Yugiki diz. — Ah, o seu irmão é chato! — diz Isabel. Ela mostra a língua pra ele. — Vem com a gente, Gabriel. Vamos tomar café juntos. — Manoela diz sorrindo. — Ah… não dá, eu tenho que esperar pelo Rudano. — Yugi diz. — “Ru” quem? — Manoela pergunta. — Meu primo. Ele deve tá vindo ver a gente. — Tá bom, depois a gente se vê aqui de novo, tá, Gabriel? Eu quero que você faça um negócio pra gente. — Hã… tá bom, eu faço sim. — Yugi diz sorrindo. Manoela retribui com um sorriso e vai embora junto com o resto das meninas. Yugiki olhou franzindo para seu irmão. — Você tá dando muita atenção pra essas garotas! — Elas são legais, Yugiki. — Sei não… eu não confio nelas! — Yugiki retira o cobertor de suas pernas e vê que o seu colchão estava molhado. O menino arregala os olhos e seu rosto fica corado de vergonha. Ele fez xixi no colchão. — Yugiii… — Yugiki diz com a voz tremendo. — Eu fiz xixi na cama!— Hã?! Ah, não, Yugiki! E agora?! — Sei lá! — Yugiki diz. — Foi tudo culpa sua! Você não tinha que me machucar no pesadelo! — Eu já disse que não foi eu! — M—mas… foi tudo tão real… eu… — Yugiki diz choramingando. — Eu tô todo mijado… mas sinto mais cheiro de sangue do que de xixi! — Meninos… — eles ouvem uma voz, diante deles, era Rudano os fitando. Ele finalmente chegou ao quarto das meninas. As outras meninas estavam olhando para Rudano. Elas não estavam acostumadas a ter um homem em seus quartos e sentiam que seu espaço estava sendo invadido. Mas foram ordens da Senhora Junmi colocar os meninos para dormir no prédio das meninas. O prédio dos meninos está ficando perigoso demais para permanecer. Os meninos se levantam e correm em direção ao jovem e o abraçam juntos. — Rudi! — os dois dizem em uníssono. Os gêmeos perceberam que havia algo diferente em Rudano. Sua pele estava pálida e seus olhos azuis estavam com veias vermelhas brotando de sua esclera. — Rudi, você tá mais branco. — Yugi observou. — O que aconteceu com seus olhos? — perguntou Yugiki. — Bom dia… — ele diz. — Eu to passando muito tempo sem pegar sol, deve ser por isso. — Rudano dá uma risadinha. — Como foi a noite de vocês? — Rudano perguntou sorrindo. Ele colocou as duas mãos nos cabelos dos gêmeos os acariciando. — Foi legal. Eu conheci umas meninas legais ontem de noite. — disse Yugi. — Você sempre me desobedecendo, Yugi… estou desapontado. — Mas elas… Yugi é interrompido por Rudano. — Sem mais! Se você quer ser um impuro fique a vontade, mas não arraste a mim ou a seu irmão nisso. — O menino fica cabisbaixo. Yugiki olha com um sorriso travesso para Yugi e mostra a língua para ele. — Rudano… eu tive um pesadelo muito ruim! — Yugiki diz olhando para Rudano. — É mesmo? — Rudano pergunta curioso. — E como foi, Yugiki? Yugiki explica para Rudano o que aconteceu. Ele fala sobre as camas devorando as crianças, sobre o menino de duas cabeças, sobre o campo de batalha cheio de corpos e como Yugi estava tão diferente indo até ao ponto de machucar Yugiki. Rudano olhou sério para Yugiki, com seus olhos um pouco arregalados, era como se ele tivesse tomado um choque. Rudano sentiu um calafrio percorrendo seu corpo. Ele fica sem falar por um tempo e voltou seus olhar para o nada, perdido em seus pensamentos. “Um menino de duas cabeças? Não é possível… será que são…”, ele pensou. — Rudano! — Yugiki chama atenção. — Alô, o que foi?! — Ah… desculpe, eu tava só pensando. — Rudano diz, ele depois dá uma risada. — Você tem uma imaginação muito rica, Yugiki! Isso é bom, muito bom… — ele diz sorrindo e dando carinho em seu cabelo. — Não foi nada bom, Rudi! Eu fiquei com muito medo! E eu… — Yugiki fica corado de vergonha. — Fiz xixi na cama. — O que a gente faz, Rudano? — Yugi perguntou. — É, e agora? — perguntou Yugiki. Rudano dá um suspiro de cansaço. — Vocês realmente não conseguem pensar em nenhuma solução sem mim, né? É só virar o colchão para o outro lado! — Ah… é. — Yugi diz. — Lerdão! — diz Yugiki com um sorriso de deboche. — Ei! Você também não sabia que fazer! E você é um bebê mijão, Yugiki! — diz Yugi. — Não sou! Foi tudo culpa sua! — Chega, meninos! — Rudano diz. — Vou dar banho em vocês e depois dar o vermelhinho. Mas antes disso… tenho um presente para dar a vocês. — O que é?! — os gêmeos perguntam em uníssono com um sorriso largo em seus rostinhos. — Tchãrã! — Rudano mostra a palma de suas duas mãos estendidas com um doce revestido em um plástico vermelho. — Eu trouxe chocolate para vocês! — Os gêmeos olham desapontados para Rudano. — Mas Rudi… a gente não pode comer nada. — Yugi disse entristecido. — A gente só pode beber aquela porcaria de vermelhinho! — Yugiki diz revoltado. — Não, meninos! Esse doce é diferente. Ele é… feito com uma substância diferente, sabe? ério? — Yugiki pergunta. — Sim! Vocês podem comer ele, que não vão passar mal, eu prometo. — Ah… mas e se eu vomitar que nem da última vez que tentei comer frango? — Yugi diz. — Não, não vai acontecer nada de errado com vocês. Confiem em mim. — Rudano diz e entrega o chocolate na mãozinha dos gêmeos. Os meninos olham um para o outro com o chocolate em suas mãos. Eles desembrulham o doce de seu revestimento e sentem a textura lisa do chocolate. Yugiki é o primeiro a levar o chocolate até seu rostinho, cheirando ele. Tinha cheiro de chocolate normal, mas era a primeira vez que o menino havia cheirado um doce em sua vida. Ele coloca sua língua para fora e ela toca no doce. Yugiki sente um gosto típico de chocolate. Depois ele abocanha o doce e começa a mastigar com seus dentes pontiagudos. A primeira degustação, Yugiki sentiu um gosto de chocolate, mas depois foi—se transformando em outros sabores aleatórios a cada mordida. Caramelo, doce de leite e depois um gosto azedo que marcou sua boca. O menino faz uma expressão de quem chupou limão para seu irmão, mas depois ele acena com a cabeça sorrindo para Yugi, acenando que ele podia comer que nem ele. Yugi põe o chocolate em sua boca e o mastiga com seus dentes pontiagudos. Ele sente uma explosão de sabores, indo do chocolate ao morango, mas também um sabor bem amargo que o faz lacrimejar seus olhinhos, mas depois o sabor se transforma para um doce de côco. O menino sorri para Rudano enquanto mastigava os doces. — E então, gostaram? — Rudano perguntou sorrindo. Os gêmeos abraçam o jovem mais uma vez. Desta vez bem apertado. Seus olhinhos estavam lacrimejados e gotinhas de lágrimas caíam sob seus rostinhos. — Obrigado, Rudi… — os gêmeos dizem em uníssono com a voz tremendo. Rudano põe a mão no cabelo dos dois e os acaricia. — De nada meninos. Vocês sabem que faço tudo por vocês, né? — Eles acenam com a cabecinha, concordando com o jovem. Era a primeira vez na vida que os gêmeos sentiram algum outro gosto que não fosse o metálico de seus “vermelhinhos”. O chocolate que Rudano entregou a eles era um chocolate especial para meninos especiais como os gêmeos Kyogami. Era na verdade, um chocolate feito com magia do caos e carregado de radiação caótica. Qualquer outra pessoa que fosse comer este chocolate estaria engolindo uma bombinha de radiação caótica capaz de provocar mutações severas. Mas Rudano sabia que os gêmeos não sofreriam isso, afinal eles eram meninos “especiais”. — Rudano, da onde você pegou esse chocolate? — perguntou Yugiki. — Ah… é segredinho. — Rudano deu risadinhas. Ele deu um tapinha no bumbum dos gêmeos e os afastou dele. — Muito bem, bora logo tomar banho. Temos que lavar esse teu pintinho molhado de xixi, Yugiki. — O menino fica corado e acompanha Rudano junto com seu irmão para os banheiros. Durante seu caminhar pelos corredores do prédio das meninas, os gêmeos percebem a diferença entre o prédio das meninas e o prédio dos meninos. O prédio das meninas era bem mais cuidado, limpo e mantido do que o prédio dos meninos, diferença essa que Rudano já havia percebido. — Ei, Rudano, por que as coisas aqui são tão limpas? — Yugiki pergunta. — Porque a Senhora Junmi gosta mais de meninas que meninos, respondido? — Rudano disse. Talvez Rudano estivesse sendo injusto com a Senhora Junmi, afinal, ela foi a que deu as ordens de evacuar o prédio dos meninos para trazê—los em segurança para o prédio das meninas. O prédio das meninas agora estava lotado de crianças por causa de sua decisão, mas ela não tinha outra escolha senão garantir a segurança de seus internos. Mas Rudano achava que a decisão de Junmi foi mais porque ela não queria que seu orfanato tivesse reputação de deixar os seus órfãos largados ao relento em um prédio comprometido pela radiação caótica, então para Rudano a decisão foi feita mais para limpar a imagem do orfanato. Como agora os meninos e as meninas estavam compartilhando tudo no mesmo prédio, a direção do orfanato das meninas estabeleceu turnos para tomar banho. As meninas seriam as primeiras a tomar seu banho e os meninos logo em seguida. Rudano e os gêmeos esperaram as meninas acabar o seu turno para que eles pudessem entrar nos banheiros. Depois que as meninas terminaram o seu banho, os gêmeos entraram junto com Rudano e outros meninos. Eles perceberam como o banheiro das meninas estava bem limpinho, mesmo depois das meninas terem tomado banho e usado os banheiros. Rudano fez os gêmeos entrar nus na ducha, e enquanto a água corria sob seus corpos, ele os ajudou a se limpar. Rudano sempre fazia questão de deixar os gêmeos limpinhos e cheirosos. Desta vez não tinha nenhum dos bullies dos gêmeos na ducha, apenas olhares de estranheza, sem comentários maldosos que fariam o sangue de Rudano ferver. O jovem terminou de ajudar os meninos a tomar seu banho e começou a secar seus corpos com uma toalha. — Ei, Rudano, você vai fazer aquilo? — perguntou Yugi. — Aquilo o que, Yugi? — Rudano pergunta enquanto o seca. — Ué, você sabe… os inqui— — Sssh! — Rudano diz. — Lá no sótão a gente fala disso. Aqui é perigoso. Rudano ajuda os gêmeos a pôr as suas roupas no banheiro mesmo, já que não dava para eles ficarem nus nos quartos das meninas. Com os meninos vestidos, o jovem passa na refeitório do prédio das meninas e pega duas mamadeiras de vermelhinho que ele deixou na dispensa e as carrega. Eles sobem até o último andar do prédio das meninas, o sótão. Ambos os prédios tinham sótões, mas os sótões do prédio das meninas estavam desocupado, apenas tralhas velhas que o orfanato guardava e que estavam amontoados e espalhadas pelo sótão. Caixas velhas, baús, e móveis velhos infestados de cupins rodeavam Rudano e os gêmeos. Rudano entregou as mamadeiras de vermelhinho aos gêmeos e eles começaram a mamar. Pelo jeito o vermelhinho continuaria a permanecer em suas vidas, mesmo contra vontade deles. — Meninos, eu vou deixar vocês aqui por hoje. — Rudano diz. — Que?! A gente vai ficar aqui o dia inteiro?! — Perguntou Yugiki. — E a nossa aula, Rudi? — perguntou Yugi. — Não quero vocês andando por aí! É muito perigoso vocês andarem pelo orfanato enquanto os inquisidores estão à solta. Não se preocupem, eu vou cuidar deles… — O que você vai fazer com eles? — Yugi perguntou enquanto mamava. — Vou matar eles, ué. O que mais poderia ser? — Rudano diz com um sorriso. — Que?! Mas como cê vai fazer isso, Rudi? — Deixem comigo. Eu vou terminar tudo isso. — Você vai usar magia do caos, né? — perguntou Yugiki. — Sim, eu estou ficando melhor nisso. Agora tenho o poder necessário para peitar os inquisidores. — Tá bom, mas tome cuidado tá, Rudano. — Yugiki diz. — Eu tô preocupado… será que não tem como a gente fugir disso? — Yugi diz. — Não, Yugi. Eu não vou fugir, já estou cansado de fugir de tudo em minha vida, ser um covarde… dessa vez eu vou enfrentar todos meus inimigos e eles vão ser exterminados por mim. — Rudano diz, olhando bem sério para Yugi. — Esses inquisidores são uma ameaça para nossas vidas, se eles não forem exterminados eles vão nos perseguir até nossa morte. É por isso que eles devem morrer. — Tá bom… — Yugi diz assustado. — Vocês ficam aqui, e não saíam daqui até eu voltar, entenderam? — Rudano diz. — Sim, Rudi. — os gêmeos dizem em uníssono. — Ótimo, cadê meu abraço? — Rudano estende seus braços aos gêmeos e sorri calorosamente. Os gêmeos o abraçam forte e depois se afastam e continuam a mamar nas suas mamadeiras. — Eu sei que vocês vão ficar com tédio aqui… eu tenho outro presentinho para vocês. Rudano inclina a mão até o chão e ela começa a brilhar em diferentes cores. Uma silhueta de um baú colorido de cores verde, amarelo e azul começa a aparecer no chão até preencher—se por completo. O baú abre sozinho, e uma luz azul pode ser vista de seu fundo e em sua abertura, parecia que o baú não tinha fundo. Bonequinhos de soldados saltam para fora do baú e começam a andar no chão do sótão desengonçadamente. Eles faziam um estalo de “clack” com cada passo. Os soldadinhos tinham um sorriso determinado em seu rosto e toda vez que eles davam de cara um com outro eles levantavam o braço em saudação enquanto carregavam seus rifles na outra e gritavam, “SALVE AOS XON!”, em uma voz que parecia ter saído de um rádio. Os gêmeos olharam para a cena maravilhados e de sorriso aberto. Eles se ajoelharam no chão e pegaram os soldadinhos que ficaram se debatendo em suas mãos até ficar imóveis como brinquedos normais. Eles começaram a bater com os bonecos um no outro, brincando com eles como se tivessem hipnotizados. Eles nunca tiveram brinquedos em suas vidas. Rudano realmente foi responsável por introduzir muitas coisas de primeira mão aos gêmeos. — Isso é muito legal! — diz Yugiki com um sorriso largo em seu rosto e batendo com o seu soldadinho o do Yugi. — Como você fez isso, Rudi? — Yugi pergunta. — É magia do caos. O baú manifesta brinquedos dos domínios caóticos na realidade. — Rudi… isso não traz radiação caótica? — Yugi pergunta. Rudano sorri. — Sim, mas e daí? O importante é que vocês estão se divertindo. Yugi solta o bonequinho de sua mão e ele vai o chão e fica se debatendo sozinho. — Então eu vou ficar radiado agora?! — Relaxa, Yugi. Vocês não sofrem de radiação caótica. Vocês são… especiais. — Rudano diz. Yugi olha para o bonequinho no chão e o pega de novo. — Especiais? — Yugi estava tão entretido com os bonequinhos do caos que nem percebeu o que Rudano tinha dito e só ecoou suas palavras. — Sim, muito especiais. — Rudano sorri. — Bom, meninos… vou deixar vocês brincando aí. Eu tenho que limpar o lixo que vai vir no orfanato. Rudano diz e vai embora do sótão, deixando os gêmeos sozinhos com seus novos brinquedinhos. Os soldadinhos andam pelo chão sem rumo enquanto Yugi com dois soldadinhos em mãos bate um no outro. Yugiki joga um dos soldadinhos na parede e ele cai do chão com o braço quebrado. — Yugiki! Não quebra eles. — E daí? Eles são brinquedos, eles foram feitos pra gente se divertir! — Yugiki diz se justificando. — Não quebrando eles, né! — Yugi diz. — Deixa de ser bobão! Ali! — Yugiki aponta para o baú. Mais soldadinhos saltam do baú e andam pelo chão. — O baú tá vomitando mais soldadinhos pra gente brincar, tem de sobra. Yugi pegou mais um soldadinho, ficando com dois em suas mãos. Ele observa os brinquedos se debatendo em suas mãos pensativo. — Yugiki… o que nós somos? — Por que tu vem com essas perguntas logo agora? — diz Yugiki socando os soldadinhos no chão. — Sei lá… a gente não pega radiação caótica. Isso é legal, mas é… estranho. — É porque nós somos especiais, como Rudi disse. — Yugiki diz jogando mais bonecos na parede. — E se a gente é especial, então nós somos melhores do que todos os outros! — Yugiki diz com um sorriso travesso. — De que todas as outras crianças? — Também! — Yugiki diz. Yugi continuou pensativo. A resposta de seu irmão não era suficiente para ele. O menino ficou batendo com os bonecos um no outro enquanto Yugiki jogava os soldadinhos na parede e batia com eles no chão. O CONFRONTO COM OS INQUISIDORES Rudano chegando na porta do escritório bate gentilmente com sua mão, ele ouve um “Entre”, e abre a porta entrando no escritório. O jovem vê Senhora Junmi sentada em sua cadeira com uma pilha de papéis na frente de sua mesa, enquanto Ulrich estava em pé em frente a mesa e observa Rudano. — Rudano! Bom dia. — Junmi diz. — Bom dia, senhora Junmi. — Como você pode ver, seu colega já está aqui. Hoje eu vou precisar de vocês dois. — Para o acompanhar os inquisidores? — Rudano pergunta. — Exatamente. Quero que vocês dois acompanhem os inquisidores e os dêem suporte quando precisarem. Entendido? — Sim, senhora. — Rudano diz. — Se Deus quiser, hoje a radiação caótica vai ser expurgada do meu orfanato e esse mago do caos diabólico vai ser queimado nas fogueiras santas e ser lançado no inferno, que é o lugar onde ele merece estar. — diz Junmi. — Concordo, senhora. — Rudano diz. — Vão até os portões de entrada do orfanato e lá esperem os inquisidores. Obedeçam a eles e façam tudo o que eles precisam. Estão dispensados. — Os jovens acenam com a cabeça e caminham para fora do escritório de Junmi. Eles andam para fora do prédio das meninas, caminhando pelo pátio em direção aos portões de entrada do orfanato. Ulrich começa a puxar assunto com Rudano, percebendo sua aparência alterada. — Tu tá bem, cara? Parece que tu tomou um susto e não se recuperou até agora. Rudano ri. — É claro que tô bem, nunca poderia me sentir melhor. — É mesmo? E por que? — Ué, finalmente vamos nos livrar desse mago do caos. Por isso. — Ah, sim. — Ulrich diz. — É, eu quero ver esse demônio chorar pelo o que ele fez com aqueles meninos. — Eles ainda estão doidos? — Sim, estão na enfermaria do prédio das meninas. Evacuaram eles para lá. — Faz sentido. E enquanto aos monges viados? — pergunta Rudano. — Tentaram manter eles presos na capela pra ninguém mais ver eles fazendo viadagem. — Ulrich diz rindo. — Mas um tonto deixou a porta destrancada e eles escaparam até a floresta e nunca mais voltaram. Rudano estava analisando a situação, pelo jeito o Caos Imperial nos monges continuou obedecendo a ordem que Rudano deu deles praticarem atos homossexuais e libidinosos ao contrário dos meninos que começaram a se comportar de maneira aleatória. — Acho melhor, se soubessem que eles estavam de viadagem no orfanato os inquisidores iam queimar eles. — diz Rudano. — Eu não vou sentir falta deles, especialmente de viados. — Ulrich diz. — Ei, eu que tal a gente fazer uma aposta? — Aposta? — pergunta Rudano curioso. — Sim, quem você acha que é o mago do caos? Quem acertar cobre o turno do outro. — Ah… — Rudano estava segurando uma gargalhada. As situações estavam exigindo ele ser um cínico e mentiroso contumaz. — Acho que é a vadia da Anna. Eu não confio nela. — Anna? — Ulrich ri. — Acho que não, ela é mulher e também é medrosa. Aquela personalidade pau no cu dela é só pra mascarar o quão triste ela é. — Por que você disse “mulher”? Acha que mulheres não podem ser magas do caos? — Vou lá saber? Mulheres não gostam de risco, né. Mas quem sabe mais dessas merdas é você. — É verdade, acho que nunca teve um registro na história de uma mulher que tenha sido uma maga do caos. — Rudano diz. — Por quê? — Ah… deve ser porque os Xon não gostam de mulheres. Ulrich riu. — Eles são machistas, né? — Sim, eles tiveram problemas com a mamãe deles. — Rudano ri. — Bem, eu não quero ouvir essas histórias pagãs, ídolos pagãos tem que ser destruídos. Só Jesus é rei. — Sei… — Rudano diz. — E você, de quem você tá suspeitando? — Ah, de você é claro. — Ulrich diz. Rudano arregala os olhos, meio espantado. — Ainda acredita que eu sou o mago do caos? Ulrich dá uma gargalhada. — Tô brincando contigo, cara. Eu vou apostar no professor Haldol. Acho que ele é suspeito porque ele é muito forçado, a fé dele não me parece ser genuína.— Eu vou gostar de ver ele queimando na fogueira. — diz Rudano sorrindo. Ulrich ri. — Eu também, aquele arrombado já surrou minha bunda quando eu era criança! Os dois continuam rindo juntos até que eles chegam nos portões de entrada do orfanato. Esperando pela chegada dos Inquisidores. — Dia bonito, né… — Ulrich diz olhando para os céus azuis banhado pela luz azul das estrelas binárias Yugi e Yugiki que nutriam o firmamento de Urudânia. — É…
— Sabe, Rudano… a gente pode ter se desentendido lá no orfanato antigo. Mas mesmo sendo um pagão você é um cara legal. Eu me enganei com você… Rudano olha para Ulrich surpreso. — Hã… tudo bem. Apesar de você ser um cristão você também é legal. — Rudano diz. Ele ficou calado por um tempo e depois quebrou silêncio. — Acho que te devo desculpas por ter xingado sua mãe. — Rudano nem acreditou que ele disse essas palavras. — Aquilo foi pesado, mas tá tudo bem agora. Só não vou me desculpar do soco porque você mereceu. — Tanto faz… não preciso do perdão de ninguém. — Você só precisa do perdão de Deus. — Ulrich disse. — Eu espero que no futuro você abandone esses demônios que você cultua para sua alma ser salva. Sempre há tempo de se arrepender e seguir a Jesus, cara. Jesus é o único caminho, é a verdade e a vida. — Eu nunca vou largar minha religião, Ulrich. Nasci pagão e morrerei pagão. — Se até o pior pecador pode se converter, você também pode, cara. — Não sou pecador. Não me vem com esse papo! — Rudano diz. — Tá bom… — Ulrich olha pela trilha de terra que estava na frente dos portões do orfanato e vê uma carruagem se aproximando. — Olha, parece que eles chegaram. Havia uma carruagem conduzida por um cocheiro e dois cavalos se aproximando dos portões do orfanato. Quando ela se aproximou dos portões, os jovens puderam ter uma vista melhor dela. A carruagem era ornamentada com requinte. Ela era pintada de branco com detalhes dourados. Havia pequenas cabeças de anjos aladas nas laterais e a frente da charrete tinha a imagem de um santo que eles não conseguiam identificar. As janelas eram cobertas de uma cortina vermelha e os jovens não conseguiam ver o que ou quem estavam dentro. O cocheiro estacionou a carruagem de lado dos portões, na frente dos jovens. Ele desceu de seu banco e andando até as portas da carruagem, o cocheiro as abriu. Havia dois homens dentro da carruagem, todos eles vestidos de um manto vermelho e chapéu vermelho que lançava uma sombra em seus rostos e um deles segurava uma mala marrom. Eles tinham grandes e crucifixos de ouro em seus pescoços. Os homens desceram da carruagem e estenderam o dorso de suas mãos envoltas de uma luva branca ao cocheiro, que pegou nelas gentilmente e as beijou. Eles olharam para os jovens por alguns segundos, os analisando. Os inquisidores levantaram as suas mãos estendendo seus dorsos em direção aos jovens à sua frente. Ulrich sabia o que devia ser feito. Ele se aproximou de um dos inquisidores e beijou sua mão, e depois beijou a mão do outro. Depois dele terminar, os inquisidores ficaram olhando para Rudano, ainda com suas mãos estendidas esperando ele fazer o mesmo que Ulrich e o cocheiro. Rudano ficou olhando para os inquisidores com uma expressão séria. — Cara… — Ulrich sussurrou para Rudano. — Beija logo! Rudano estava com sua boca tremendo. Ele não queria ter que ser obrigado a passar por essa humilhação. Para os cristãos este costume de beijar a mão era um sinal de respeito e submissão às autoridades legítimas da igreja. Porém, para um pagão como Rudano, este costume não passava de um ritual de humilhação, mas ele também não podia levantar suspeitas, pelo menos não ainda. O jovem se aproximou dos inquisidores e pegou na mão de um e beijou o dorso dele, depois Rudano fez o mesmo com o outro inquisidor que estava o esperando. Ele sentiu nojo e repulsa do ato, mas pelo menos foi amenizado porque os inquisidores estavam usando luvas. Rudano se afastou deles e limpou sua boca com o dorso de sua mão instintivamente. Um dos inquisidores levantou sua sobrancelha. — Parece que você precisa beijá—las de novo, meu jovem. — ele disse. — Hã? — Rudano disse. — Não se limpa a boca depois de beijar a mão dos juízes de Deus, garoto. — o outro inquisidor diz. — M—me perdoem, eu não quis… — Repare o seu erro, garoto. — o inquisidor que chamou atenção dele diz. Rudano morde seus lábios e se aproxima dos inquisidores de novo. Ele repete o ato, beijando o dorso estendido dos dois inquisidores mais uma vez e se afasta. Dessa vez ele não “limpa” sua boca com sua mão. — Vocês são? — um deles perguntou. — Sou Ulrich e esse aqui é meu colega, Rudano, senhor. — Rudano? Isso é nome de pagão. Você é pagão, meu jovem? — o outro homem perguntou. — Não, senhor. — Rudano disse. — O que significa esse nome, meu jovem? — ele perguntou. — “Morte vermelha”. — Rudano diz. — Um nome com um significado maligno como esse não deveria pertencer a um cristão. — É que… eu preferi continuar com meu nome por honra a meu pai. — diz Rudano. Era um nome adequado para uma criança que foi criada para ser um guerreiro pagão do clã Kyogami. — Só devemos honrar a Deus e a mais ninguém. — o Inquisidor disse. — Qualquer legado de nosso passado de pecado deve ser eliminado. Espero que você adote um nome cristão logo, meu jovem, é importante para sua salvação. Eu sugiro escolher “Gabriel” como nome, é um nome angelical e com significado forte. Rudano ficou intrigado, era o mesmo nome dado a Yugi pelo irmão Kanon. “Por que essa gente gosta tanto de dar esse nome aos outros?”, ele pensou. — Sim… senhor. — Rudano disse, escondendo seu descontentamento com o inquisidor. — Eu sou Dom Ennio Fortunato. — Ele diz. — E este é Dom Orazio Pio. — ele aponta sua mão para Dom Orazio. — Fomos chamados porque nos foi notificado que existem… atividades satânicas no orfanato. Rudano arregalou os olhos de espanto. Por um momento ele ficou congelado e cerrou seus punhos. Ele reconheceu os inquisidores. Dentro de seu coração, a um tempo atrás ele jurou que ia matá—los. E finalmente o dia chegou. — Sim, senhor. Parece que é coisa de um mago do caos! — Ulrich diz. — Um mago do caos? — Dom Orazio diz olhando para Dom Ennio, suspeito da afirmação de Ulrich. — E como vocês têm certeza de que é um mago do caos? — Muitas coisas aconteceram, senhor. Um ursinho suicida apareceu no antigo orfanato, depois uns meninos ficaram loucos, e depois começou a acontecer coisas muito estranhas no banheiro dos meninos! — Ulrich disse. — Acho que a imaginação de vocês está muito fertil. — Dom Ennio diz rindo. — Certamente, Dom Ennio… magos do caos não são mais encontrados dentro do Reino de Deus a uns sete anos. — Dom Orazio diz. — Por quê? — Rudano diz. — Ora, porque todos eles foram exterminados pela inquisição. — Dom Orazio diz rindo. — Ainda existem magos do caos por aí… mas não nos planetas onde o Santíssimo Reino de Deus governa. — Dom Ennio diz. — Talvez esse ursinho suicida seja obra de possessão demoníaca. Os meninos devem estar possuídos por demônios, e enquanto aos banheiros do orfanato… o que você acha que pode ser, Dom Ennio? — diz Dom Orazio. — Talvez algum tipo de alucinação coletiva, Dom Orazio. — M—mas… o Rudano disse que tudo isso foi obra de um mago do caos! Ele sabe disso tudo. — Ulrich diz. — É mesmo? — pergunta Dom Orazio. — E como você sabe que isso é magia do caos, meu jovem? — perguntou ele. Rudano olhou bem nos olhos dos inquisidores. — Minha família me contava histórias sobre eles… meus ancestrais lutaram contra os magos do caos no passado. Eles me disseram como eles operam. — E de que família você é? — Dom Ennio perguntou. — Clã Kyogami, senhor. — Kyogami… um clã pagão. — Dom Ennio disse sorrindo. — E você já renunciou aos caminhos pagãos de seu clã? — S—sim, eu sou cristão agora, senhor. — Rudano diz. Ele na verdade estava borbulhando de fúria por dentro. “Como esses merdas ousam fazer eu falar isso?!”, ele pensou. — Muito bem, meu jovem. Acho que devemos começar nossa investigação logo. — diz Dom Ennio. — Senhores, vocês tem que acreditar em Rudano, tem um mago do caos no orfanato! — diz Ulrich. Dom Ennio levantou sua sobrancelha suspeitando de Ulrich. — Está duvidando da eficiência do Tribunal do Santo Ofício, garoto? — Dom Ennio perguntou. — N—não, senhor! Eu não quis dizer isso. — Ulrich diz. — Nós julgamos centenas de hereges e servos de deuses demoníacos durante estes meses. Nenhum deles era um mago do caos. — Dom Ennio diz. — Não só isso, não temos nenhum registro vindo de outros planetas de algum encontro com magos do caos e suas demonolatrias. — Dom Orazio diz. — Bom, todas as informações que vocês nos deram são muito ambíguas. Independente de ser magia do caos, estamos aqui para eliminar esse lixo. Vamos primeiro expulsar os demônios das crianças. Depois nós vamos investigar esse banheiro que você nos falou. — Dom Ennio diz. — Espera só vocês verem o banheiro! Vocês vão ver que estamos falando sério! — Ulrich diz. — Nos guiem até os meninos. — Dom Ennio disse. — Você nos espere aqui. — Ele diz para o cocheiro que acena com sua cabeça. Ulrich andou até os portões junto com Rudano liderando os inquisidores. O grupo andou pelos pátios do orfanato em direção ao prédio das meninas onde os meninos atingidos pelo Caos Imperial de Rudano foram levados. Mas bem na frente da entrada do orfanato das meninas estava a senhora Junmi e as monitoras, Dido e Anna esperando ansiosas pelos inquisidores. Os inquisidores se aproximando de senhora Junmi e as monitoras, fizeram o mesmo gesto de estender as mãos para elas, esperando que elas beijassem. Senhora Junmi foi a primeira a beijar a mão dos inquisidores, logo depois foram as monitoras que demoraram a perceber que elas tinham que fazer o mesmo que Junmi. — Sejam bem—vindos ao Orfanato Junmi, vossas reverências! Eu sou Anita Junmi, diretora do orfanato. — senhora Junmi diz. — Graça e paz, senhora Junmi. — Dom Orazio diz. — Demoramos um pouco para chegar, mas viemos assim que recebemos o comunicado da direção. — Dom Ennio diz. — Ah, sem problemas! Ter vocês aqui é uma honra e benção que vai marcar a história do meu orfanato. Vocês querem algo para comer ou beber? — pergunta Junmi. — Agradecemos, mas seria melhor nós vermos os meninos possessos o quanto antes. — Diz Dom Ennio. — Oh, sim, claro. — Junmi diz e os conduz para dentro do orfanato.Dentro do prédio das meninas, o grupo caminha pelos corredores do orfanato em direção a enfermaria onde os meninos estavam sendo mantidos. Eles atraíam olhares curiosos de meninas e meninos que nunca tinham visto inquisidores em suas vidas, especialmente estes homens misteriosos que emitiam uma aura sinistra e autoritária. Algumas das crianças se afastavam dos inquisidores temendo ser o alvo deles. Embora nunca tenham os visto, histórias sobre o Tribunal do Santo Ofício são ensinadas nas aulas do professor Haldol, tribunal este que é conhecido pela sua eficiência e demasiado senso de auto importância. Estando de frente da porta da enfermaria, eles puderam gritos e uivos vindo de dentro, e entrando no quarto, o grupo vê camas encostadas atrás da parede com meninos nus, pálidos e acorrentados se debatendo e contorcendo em suas camas. Seus corpos estavam deformados por bocas pontiagudas que se abriram em várias partes, como braços, pescoço e abdômen. Elas se abriam e jogavam sua língua para fora, sussurrando coisas em celestial antigo. Havia pequenos olhos coloridos em seus corpos que se abriram e fitavam os inquisidores. Eles estavam rodeados de duas enfermeiras que estavam auxiliando os meninos. Chegando perto dos meninos, os inquisidores ficaram observando—os gritando loucamente com seus olhos arregalados para eles. Parece que eles estavam tentando pular em cima dos inquisidores, mas como estavam acorrentados em suas camas eles não teriam sucesso. Dom Orazio se aproxima das enfermeiras. — O que vocês têm dado a eles? — Nós tentamos injetar um calmante para tranquilizar eles e pelo menos tentar os vestir, mas eles estão piorando cada vez mais. — diz a doutora Jade que estava cuidando deles. — Calmantes e remédios não adiantarão nada, minha senhora. Estes meninos estão possessos por forças satânicas. Já tentaram rezar para ele? — Dom Ennio diz. — Sim, eles se acalmam, mas depois voltam a serem monstros. — ela diz. — Por favor, liberte eles desses demônios, senhores! — diz a doutora Jade preocupada. — Afastem—se e deixe tudo conosco. Somos inquisidores, juízes e também exorcistas. Nós estamos preparados para isso. — Dom Orazio diz. Todos que estavam acompanhando os inquisidores se afastam. Dom Orazio que estava segurando uma mala se aproxima de uma mesa e abre ela, revelando em seu conteúdo sacramentais da igreja: um frasco de água benta, um crucifixo, rosário e uma imagem de Jesus Cristo, mas Dom Orazio apenas pegaria no rosário e crucifixo enquanto Dom Ennio pegou no frasco de água benta. Os inquisidores se aproximam de um dos meninos, era o Rapha, o menino que peitou Rudano no banheiro e foi a sua primeira vítima. Ele estava se debatendo ferozmente na cama e fazendo um grito gutural. Dom Orazio estende o crucifixo na direção do menino enquanto reza com seu rosário. Dom Ennio que estava com frasco de água benta em suas mãos despeja gotas de água em cima do menino que faz ele debater na cama fortemente. Dom Orazio começa a desfiar as contas de seu rosário rezando as orações do terço. Uma luz dourada surge envolta do menino e preenche seu corpo por inteiro. Dom Orazio intensifica o entoar de suas orações enquanto Dom Ennio pega em seu rosário e começa a rezar junto com ele. A luz dourada ao redor do menino brilha intensamente, e Rapha que estava se debatendo na cama começa a se acalmar e a cor de sua pele voltando ao normal. Rapha respira ofegante na cama, olhando confuso para todos ao seu redor. Dom Ennio põe a mão em sua testa. — Como está se sentido, filho? — ele pergunta. — O que… aconteceu? — Rapha diz com a voz fraca. — Não se esforce ainda. Temos que cuidar do resto de seus colegas. — Dom Ennio diz. E assim, os inquisidores fazem o mesmo processo com o resto dos meninos que estavam ao lado de Rapha. Eles tomaram água benta em seus corpos e receberam as orações do rosário dos inquisidores. Um por um, os meninos que se tornaram bestas ferozes presas na cama foram se acalmando e sua pele outrora pálida voltara ao normal. As bocas de dentes pontiagudos que rasgaram seus corpos desapareceram junto com os olhos esbugalhados que fitavam os inquisidores. As enfermeiras que estavam cuidando dos meninos choraram de emoção e prontamente liberaram eles de suas amarras nas camas e os auxiliaram a se vestir depois de dois dias pelados. Os meninos continuaram deitados na cama porque estavam exaustos de tanto se debater nela e gritar selvagemente. — Como se sentem meninos? — Dom Ennio pergunta. — Ah… sinto melhor. — Rapha diz. — E o que aconteceu nos banheiros que os fizeram ficar assim? — pergunta Dom Orazio. — Eu… não lembro. — diz Faber. — o resto dos meninos também dizem que não se lembraram. Rudano olha bem sério para os meninos. Parece que o Caos Imperial surtiu o efeito desejado deles esqueceram todos os acontecimentos nos banheiros naquele dia, mas o tiro foi pela culatra quando Rudano quis que o Caos Imperial fosse desfeito nos meninos, e assim culminou neles se comportarem igual bestas selvagens. Para Rudano, era melhor que eles continuassem loucos pelo resto de suas vidas. Estes meninos são os bullies implacáveis dos gêmeos e viviam os atormentando, a loucura era um castigo pequeno pelos seus atos, pensou o jovem. Mas Rudano não podia fazer nada agora que os inquisidores removeram o Caos Imperial deles, o que fez Rudano ficar intrigado pelas habilidades dos inquisidores. Certamente, eles não eram amadores. O jovem não tinha conhecimento de como as orações e bênçãos funcionam contra radiação caótica. Os meninos foram cobaias perfeitas para fazer os inquisidores demonstrar suas habilidades de antemão a Rudano, sem eles saberem. As orações dos inquisidores parecem ser poderosas e conseguem repelir a radiação caótica, mas parece que elas não são fortes o bastante para restabelecer a memória dos meninos. Isso significa que nem todos os efeitos da magia do caos são reversíveis, o que agradou Rudano. De fato, foi um bom experimento, os meninos foram boas cobaias. Mas para Rudano ainda não era o bastante, ele precisava experimentar mais, ele sequer ainda tinha visto nem a metade do que a magia do caos pode oferecer. Ulrich se aproxima de Rapha, olhando—o sério. — Você não se lembra de nada mesmo, Rapha? — Não! Eu não consigo me lembrar… me dá dor de cabeça! — Rapha diz. Ulrich chega perto de Rapha e põe suas mãos em seus ombros e o balança com força. — Você tem que se lembrar cara! A gente depende disso! — ele diz gritando. Os inquisidores chegam perto de Ulrich e o puxam pra longe de Rapha que chorava. Ulrich bufava de raiva. — Não vai adiantar, meu jovem. Parece que o demônio apagou a memória deste menino. Se tivéssemos chegado mais cedo, talvez ele teria se lembrado do que aconteceu. — diz Dom Orazio. Ulrich olhou nevrálgico para os inquisidores. — Merda… como é que vamos descobrir agora quem é o mago do caos? Ele ainda tá a solta! Isso pode acontecer de novo! Não podemos deixar ele fazer o que quiser, caralho! — Ulrich diz. — Acalme—se, meu jovem, e modere seu linguajar! — diz Dom Ennio. — A sua fúria por justiça é justificável, mas temos que usar ela no momento certo. Quando encontrarmos esse feiticeiro. — Mas como vamos encontrá—lo agora que eles não se lembram de nada? — pergunta Ulrich. — Quando voltarmos para a cidade, vamos voltar com um regimento para cercar os prédios. É necessário garantir que esse feiticeiro não fuja do orfanato. — diz Dom Ennio. — E por que vocês já não vieram junto com um exército logo?! — perguntou Ulrich. — Nós estamos em guerra, garoto. Não temos soldados o suficiente para cercar o orfanato. Todos os regimentos da dinastia estão em campo de batalha em outros planetas, apenas a guarnição local das cidades é que estão presentes e elas não podem deixar as cidades desprotegidas. Mas quando voltarmos, nós vamos pedir à Imperatriz que nos ceda um regimento para cuidar deste problema. — Dom Ennio diz. — E enquanto aos cruzados? Eles não podem vir aqui? — Os cruzados e todo nosso Exército Santo estão nas Guerras Solares. Aonde mais você acharia que eles estão agora? — Disse Dom Orazio. — Droga… burocratas inúteis! — Ulrich sussurra cerrando seus punhos e rangendo os dentes de raiva. Rudano que estava observando a situação estava segurando seu riso. Dido se aproxima de Rudano e o olha com olhar preocupado. — Rudano, o que aconteceu com você? Está pálido. Rudano que estava segurando o seu riso, olhou para Dido com surpresa. — Hã… eu acho que deve ser porque estou pegando pouco sol e tô dormindo pouco também. — Você tem que se cuidar melhor. Os gêmeos dependem de você. — ela diz. — É, é verdade… — Rudando diz. Estava aparentemente mais claro que a radiação caótica em seu corpo estava progredindo cada vez mais, e eventualmente, o destino do corpo de Rudano geraria mutações severas assim como os meninos sofreram, podendo o transformar em uma abominação do caos, e por causa disso, seria insustentável manter suas mentiras por longo tempo. Ele tinha que pôr a culpa da radiação do caos em seu corpo em alguma situação, alguma coisa, ou em alguém… — Chega de questionamentos, ainda não terminamos aqui. Precisamos investigar os banheiros. Nos levem até lá, garotos. — Dom Ennio diz. Junmi se aproxima dos inquisidores com um sorriso no rosto. — Obrigada por salvar os meninos, senhores! — Quem salvou os meninos foi o poder de Nosso Senhor, senhora Junmi. Nós somos apenas instrumentos da vontade de Nosso Pai… nada mais. — Diz Dom Ennio. — Eu posso ir? — perguntou Dido. — Não, menina. Mulheres não devem se arriscar nisso. Fique aqui e auxilie os meninos a se recuperar. — Dom Ennio disse.As mulheres ficam na enfermaria cuidando dos meninos. O grupo dos inquisidores saiu do prédio das meninas em direção ao prédio dos meninos, onde a radiação caótica estava se espalhando. Entrando no prédio, o grupo pode sentir algo diferente na atmosfera. Era como se o ar do ambiente estivesse mais leve, mas ao mesmo tempo carregado de uma sensação opressora. Era como se um gatinho gordo estivesse observando um rato para dar o bote, parece que o ambiente já estava denunciando a presença da radiação caótica. Havia leves luzes piscando e flutuando no salão de entrada do orfanato. E as paredes pareciam respirar lentamente e se esticar para cima e para os lados. O ambiente do orfanato já estava se tornando instável, e a radiação caótica estaria perto de se espalhar para fora. Rudano ficou intrigado que ainda nenhuma entidade do caos havia se manifestado na realidade. “Seria a quantidade de radiação caótica insuficiente para abrir portais para o Xongri-Lá?”, ele pensou. Indo em direção aos banheiros dos meninos, o grupo já pode sentir a mudança drástica que a radiação caótica causou nos corredores ao redor dos banheiros dos meninos. Bocas pontiagudas rasgaram as paredes que respiravam em com uma luz azul escura. As bocas sussurravam palavras infantis e davam risadinhas zombando dos inquisidores, “impuros…”, elas diziam. Havia escritas em celestial antigo feitas com giz de sangue, os carácteres dançavam nas paredes até formar uma frase, “殺死不純潔的人”.Desenhos infantis feitos em giz de cera de sangue tomavam parte das paredes. Um deles retratava uma pirâmide com duas figuras infantis no topo, uma delas enfiava uma faca no peito de uma terceira figura que fazia um rosto triste. Os inquisidores e Ulrich faziam o sinal da cruz à medida que andavam pelos corredores. — O que está escrito nas paredes, Rudano? — perguntou Ulrich. Rudano sabia o que o caos clamava. — “Mate os impuros”. — ele diz. — Os impuros somos nós? — perguntou Dom Orazio. Rudano queria falar “são vocês”, mas ele se controlou. — Sim… Entrando no banheiro, era perceptível mais ainda os efeitos dos avanços da radiação caótica. Todas as paredes tinham rachaduras que emitiam uma luz vermelha, mas uma rachadura em especial estava maior do que antes. Havia, desenhos, escritas, bocas e olhos estavam dançando nas paredes, e um estranho símbolo, um grande símbolo de duas cruzes embaixo de um redemoinho vermelho estava brilhando na parede, como se estivesse abrindo um portal. Mas não era apenas isso no chão, além de bocas havia também um baú colorido, parecido com o que Rudano fez aparecer no sótão para os gêmeos, distorcendo a realidade para tal. Soldadinhos do caos eram vomitados pelo baú que brilhava em sua boca uma luz azul esbranquiçada. Os soldadinhos tinham o mesmo comportamento dos soldadinhos que os gêmeos estavam brincando, andando desengonçados e aleatoriamente sem rumo pelo chão. Eles gritavam, “SALVE XON!” um para os outros e seguiam seus rumos sem destino. O chão estava infestado dessas entidades caóticas. Um dos inquisidores, Dom Ennio, se aproximou de um dos soldadinhos e pisou fortemente no brinquedo, o espatifando em pedaços no chão. Rudano olhou bem sério para o ato do inquisidor, cerrando seus punhos de raiva. — Parece que vocês estavam corretos… — ele diz. — Nós avisamos! — Ulrich disse. — O que vamos fazer agora? — Vamos ter que exorcizar todo o edifício o quanto antes, ou se não as forças satânicas irão se espalhar afora. — diz Dom Ennio. — Será que vamos conseguir exorcizar todo o edifício? — Dom Orazio diz. — Por que a pergunta, Dom Orazio? Não perca sua fé em Deus por nenhum segundo! Estamos em domínio inimigo. — Dom Ennio diz de maneira ríspida, observando seus arredores. — É verdade… — Dom Orazio responde fazendo o sinal da cruz. — Temos que ser rápidos, estamos tomando radiação caótica neste exato momento e nosso estoque de água benta está acabando. Vamos precisar de uma boa limpeza de água benta e incenso depois disso! — Dom Ennio diz. — Sim, isso não é algo que meros monges poderiam fazer. Apenas juízes de Deus como nós. — Dom Orazio diz. — Então, vamos começar… — Dom Orazio que estava com a mala abre ela e saca seu crucifixo e depois seu terço. Dom Ennio sacou seu terço do seu bolso e o posicionou em seu peito. — Receio que não posso deixar vocês fazerem isso. — diz Rudano. Os inquisidores que estavam de costas para Rudano, viraram em sua direção. — O que quer dizer? — Dom Ennio pergunta. — Quero dizer que o caos é muito importante para mim, eu preciso dele. Não posso deixar vocês banirem ele de novo. — Rudano diz sorrindo. Ulrich olha assustado para Rudano. — C—como assim, Rudano? Porquê?! — Ué, porque eu sou o mago do caos do orfanato, surpresa! — Rudano diz dando uma risada de deboche. — N—não fode… mas você disse que… você insistiu que não era! — Ulrich diz espantado. — É óbvio que eu estava mentindo esse tempo todo, lerdão. — Rudano diz. — Fiz isso tudo para trazer vocês até aqui para matá—los. — Então toda aquela historinha do seu clã combaterem os deuses do caos era uma mentira?! Você é um lixo, Rudano! — Ulrich diz. — Esta parte não. É verdade que os Kyogami lutaram contra as forças do caos por milênios, mas eu sou exceção… eu encontrei no caos um útil aliado, ele será útil para eu alcançar os meus sonhos: restaurar o Sacro Império Celestial e me tornar o Deus Sol! — Rudano diz com um sorriso macabro. — Então você se entregou a essas forças satânicas em troca de poder para perseguir uma pretensão infantil e inalcançável? Que tolice… que patético! — Dom Ennio diz. — Até mesmo os pagãos possuem honra, como pode ver, o seu clã lutou contra os deuses do caos para impedir a destruição do universo, mas pelo jeito você é uma exceção mesmo, garoto. Você não só é um pagão, mas servo do caos, um traidor da causa do seu próprio clã. Você vai arder nas chamas do nível mais profundo dos infernos… — Diz Dom Orazio. — Ele não vale nada, mesmo… — diz Dom Ennio. — Meu clã… já não existe mais! — Rudano grita de raiva, apontando o dedo aos inquisidores. — Quem eu mais amei nesse mundo foi morto por vocês. Eu não tenho mais nada a perder… o caos foi o único que me abraçou e eu vou retribuir de volta o seu amor! — ele diz com um sorriso sinistro no rosto. — Se você acha que será capaz de controlar as forças do caos, você está muito enganado. Elas vão se voltar contra você, cedo ou tarde. — diz Dom Orazio. Rudano dá uma gargalhada. — E quem é que disse que quero controle?! O que eu quero é abrir a jaula dos leões para que vocês cristãos voltem a praticar sua mais honorável tradição de ser devorados por eles! Dom Ennio franzi a Rudano. — Você não passa de um moleque imaturo! Acha mesmo que vai conseguir desafiar o Reino de Deus? A nação mais santa e poderosa da galáxia?! — Eu não vou fazer isto sozinho… terei muitos… “maninhos” do meu lado. Enquanto a vocês… vocês vão estar no chão do campo de batalha ao lado dos corpos de seus irmãos de fé! E de seu deus também… — Rudano diz. — “Seu Deus também”?! O que está dizendo, moleque?! — É isso, mesmo! Todo o poder de vocês depende do seu deus, mas quando ele for destruído… por mim! Nenhuma oração será respondida, nenhuma benção ou milagre acontecerá! E assim suas igrejas serão consumidas pelo vazio da morte de seu deus! — Já chega! Não vou tolerar blasfêmias! — Dom Ennio diz e estende seu rosário apontando para Rudano. Dom Orazio faz o mesmo. — RUDANO, SEU VIADOOOO! — Ulrich diz correndo até Rudano. Rudano estende suas mãos até ele e uma luz vermelha envolve a Ulrich que toma um puxão que o faz se afastar e colidir de costas para a parede. Braços grandes de bonecos, coloridos e gordos como de um bebê aparecem por de trás da parede ao redor de Ulrich envolvendo todo o seu corpo e o impedindo de se mover. Ulrich ouve risadinhas de bêbes enquanto os braços o pressiona na parede. Ulrich geme de dor enquanto olha para Rudano rangendo os dentes de raiva. — Eu vou brincar com você depois, Ulrich. Tenho que sacrificar essas duas bichas velhas primeiro. — diz Rudano olhando para Ulrich e sorrindo de deboche. — Sacrificar… para quem?! — pergunta Dom Ennio. — Para quem mais? PARA OS XON! — Rudano grita. Ele estende seu braço direito ao lado e ele é envolvido por uma luz vermelha. Seu marotte aparece e ele o agarra com sua mão e aponta para os inquisidores. — Eba! Hora de brincar! — diz o marotte de Rudano. Os inquisidores começam a rezar seu rosário, desfiando—o com suas mãos e seus corpos são envolvidos por uma luz dourada. Rudano arregala os olhos e faz um sorriso macabro. — CAOS PROFANO, PORRAAAAA! — ele grita. Um raio vermelho retorcido é disparado do marotte e atinge em cheio os inquisidores. A redoma de luz colide com raio do Caos Profano que faz a energia caótica ser repelida para todos os cantos enquanto atinge a redoma de luz dos inquisidores e fazendo o chão do banheiro tremer. O ambiente começa a ficar mais distorcido. Os inquisidores intensificam suas orações, fazendo rezas bravas. A redoma de luz aumenta de tamanho, e aonde a redoma de luz dourada tocava, a realidade era estabilizada e o banheiro voltava ao normal, principalmente o chão onde a redoma de luz tinha maior contato. — Me ajudem, seus merdinhas! — Rudano diz. Os soldadinhos do caos que estavam andando aos montes aleatoriamente pelo chão apontam seus rifles para os inquisidores, “Exterminar impuro!”, eles falam, e seus riflesinhos disparam pequenos lasers vermelhos na redoma de luz que protegia os inquisidores. Os lasers vermelhos estavam carregados de radiação caótica e contribuíram para comprometer a defesa da redoma de luz que diminuiu de tamanho. — Orazio! O ícone… — Diz Dom Ennio. Dom Orazio acena com a cabeça e puxa um ícone de Jesus de sua mala marrom e o joga no ar. O ícone voa no ar até flutuar no entremeio acima dos inquisidores. Um raio de luz dourado fulgurante aparece do ícone, aumentando ainda mais o tamanho da redoma de luz dos inquisidores. Dom Orazio pega em seu bolso o crucifixo que ele estava guardando e o aponta em direção de Rudano, os sacramentais aumentam a força da redoma de luz e ela se aproxima cada vez mais de Rudano. Rudano continua disparando seus raios vermelhos que colidem com a redoma de luz, mas cada vez mais era claro que o escudo estava ganhando tamanho maior. Os sacramentais dos inquisidores são poderosos e se Rudano não deter o avanço da redoma com o Caos Profano, ela exorcizará toda a radiação caótica do orfanato, estabilizando a realidade. — Chefe! Esses impuros são de fuder! E agora?! — o marotte disse para Rudano. Rudano rosnou de raiva, ele estava perdendo o momento da luta entre o Caos Profano e as orações dos inquisidores. A redoma de luz estava cada vez mais perto de Rudano. “Merda! Eu não posso deixar eles estragarem tudo… tem que ter um jeito… um jeito!”, ele pensou. — Oiiii! Que barulho é esse aí?! — uma voz infantil e entusiasmada diz subitamente. Quando Rudano olhou para a maior fenda que tinha na parede do banheiro, ele viu um olho cor azul gigante fitando a batalha com atenção. Era aquela mesma entidade do caos que tentou se comunicar com Rudano no dia anterior. — Quem tá aí? — ele perguntou. — Você! É o Maioral, né?! — Rudano diz enquanto ele continua disparando o Caos Profano os inquisidores. — Príncipe Maioral do clã Pepeto! O melhor clã de todos! Rudano arregalou os olhos de surpresa. “Príncipe?! Será que ele é um Príncipe do Caos dos Xon?”, ele pensou. — Maioral! Você tem que me ajudar nessa porra! Eu faço o que quiser! — diz Rudano. — Maioral não ajuda impuros! — ele diz. — Mas eu não sou um impuro! Sou um mago do caos… — Mago do caos?! Sério mesmo?! Então cê pode ajuda a Maioral! — Sim, eu posso! Mas primeiro você precisa me ajudar! — Mas Maioral não consegue entra na realidade… — Não se preocupe. Eu dou um jeito! Enquanto ele disparava o Caos Profano na redoma de luz dos inquisidores, Rudano com sua mão esquerda que estava livre aponta para cima do teto do banheiro. Sua mão brilha em um vermelho cintilante, e Rudano dispara outro raio vermelho e distorcido de Caos Profano no teto do banheiro. O teto começa a balançar e se contorcer até que o banheiro treme e o teto se racha em pedaços. O teto inteiro do banheiro se desprende das paredes e literalmente voa para para cima para bem longe. Rudano pode ver o teto sendo levado para longe pela onda de vento que entrou nos banheiros e fez os azulejos voarem. A ausência do teto revelou um céu escarlate vermelho, com uma atmosfera sinistra da radiação caótica, o vento trouxe mais radiação caótica para dentro do banheiro, fazendo a realidade se desestabilizar ainda mais. Mas a atmosfera sinistra dos céus escarlates era o de menos. Depois que o teto foi removido por inteiro, uma figura gigante se levantou da fenda em que ela estava olhando e fitou a todos no banheiro com seus olhos azuis claros arregalados daquela curiosidade típica de bebês. Era na verdade um bebê gigante, a entidade do caos que estava observando a todos pelo buraco da fenda. O bebê gigante voava no ar e ele devia ter aproximadamente uns dez metros de altura, estava chupando uma chupeta azul e amarelo em sua boca e vestido apenas de um babador branco ensanguentado com um símbolo estranho no meio. Uma fralda branca tampava suas partes inferiores. Havia uma marca em seu rosto, a letra "m" em minúsculo estava estampado no meio de sua testa. Mas o que mais intrigou Rudano, era que o bebê gigante tinha características idênticas aos gêmeos, os seus primos Yugi e Yugiki. Ele tinha pele e cabelos brancos como a neve, possuía a mesma aparência etérica e angelical dos gêmeos. Mas nele Rudano sentia algo diferente, e seu babador ensanguentado o denunciava, havia um olhar de impulsividade e brutalidade naquele bebê gigante que Rudano podia sentir. — Maioral! Destrua esses dois impuros! — Rudano grita. — Tá bom! — Maioral diz despretensiosamente.
Maioral levanta sua mão direita, revelando um chocalho gigante que fazia um barulho de chacoalhar como uma cobra. O bebê gigante desceu seu chocalho colossal em direção aos dois inquisidores que olharam arregalados para ele se aproximando com desespero. O chocalho colidiu com os inquisidores, grampeando eles no chão. O impacto fez tremer o chão e foi o bastante para desfazer a redoma de luz dourada que protegia os seus arredores, ele foi tão forte que fez Rudano perder a compostura e cair de joelhos no chão. Mas Maiorial não havia parado por aí, ele levantou mais uma vez o chocalho e bateu de novo nos inquisidores, fazendo tremer o chão mais ainda. Ele estava dando risadinhas infantis de bebê enquanto levantava mais uma vez o chocalho, golpeando o chão de novo e esmagando os inquisidores com força descomunal. A esse ponto, os inquisidores já estavam mortos, mas Maiorial não queria saber, ele estava se divertindo , e muito! E mais uma vez ele levantou o chocalho e… — MAIORAL! CHEGA! — Rudano grita. — Por quê? — Maioral diz curioso. — Já tá bom! Eles já morreram! — E daí? — Maioral diz e mais uma vez desce com seu chocalho, golpeando o chão e o fazendo tremer. — Porra, Maioral! Eu disse que já tá bom! — Tá! — Maioral diz dando risadinhas. Ele retrai seu chocalho. Rudano se levanta do chão cambaleando e anda até a cratera gigante que foi formada pelos golpes de Maioral. Os inquisidores estavam com suas roupas vermelhas todas rasgadas e grampeados no chão no meio de escombros, estavam mortos. Os soldadinhos do caos que estavam atirando neles param de atirar e voltam a andar sem rumo pelo chão danificado do banheiro. Rudano arreia suas calças e começa a fazer xixi em cima dos corpos dos inquisidores e fazendo um gemido de alívio. — Isso tudo foi por Fari, seus filhos da puta! — ele disse dando risadas. Depois de terminar com o xixi, ele sobe suas calças e olha bem sério para os corpos. — É uma pena que não pude sacrificar vocês enquanto vivos, mas tanto faz. — Por final, Rudano cospe nos dois corpos mutilados dos inquisidores e se afasta da cratera. — Ei, cê prometeu ajuda Maioral! — Sim, e o que você quer, Maioral? — Maioral quer… sair daqui! — ele diz animado. Rudano sorriu. — Que tal um pirulito primeiro? — Ah! Quero, quero! — ele disse animado. — Mas depois Maioral quer… Maioral é interrompido por Rudano. — Calma aí! Uma coisa de cada vez, primeiro vou te dar seu pirulito, tá bom? Depois eu vejo seu segundo pedido. — Tá bom! — Maioral disse balançando os braços no ar de indignação. Rudano levanta seu marotte no céu escarlate e balançando ele, ele entoa o mantra caótico, “XON Ô, MAMÃ… MIM DÁ PAPÁ, XON!”. Luzes cintilantes aparecem no céu escarlate do banheiro e uma silhueta de um pirulito gigante e colorido em uma espiral surge até se materializar por completo. Os olhos de Maioral brilham de animação e o bebê gigante prontamente agarra na base do pirulito. — Obaaaaaa! — Ele tira sua chupeta com a outra mão e começa a lamber o pirulito vorazmente. — Hmmmm… gostoso! Rudano sorri para o menino, ele se lembrou dos gêmeos e do momento que ele deu um chocolate para eles comerem. Com Maiorial entretido com o pirulito, os olhares do jovem se voltam para Ulrich que ainda estava preso pela parede tendo seu corpo detido pelos braços de brinquedos ao seu redor. Rudano se aproxima de Ulrich de braços cruzados. Ulrich estava cabisbaixo e rangendo seus dentes de raiva. — Minha mãe estava certa… nunca deveria confiar em um pagão… — ele disse. — Minha mãe sempre me dizia para nunca confiar em um cristão, pelo jeito quem venceu aqui foi aquele que manteve sua devoção a sua mamãe, né? — Rudano disse. — NÃO FALE MAIS DA MINHA MÃE, PAGÃO ARROMBADO! — Ulrich grita. — Por que está tão putinha? Devia me agradecer, porque eu vou te mandar para ela logo, logo! — Rudano diz rindo. — Eu confiei em você seu verme! Pensei que fosse diferente dos outros pagãos! Rudando gargalha. — Nós nunca fomos amigos, Ulriquinho… e é verdade, eu sou diferente dos outros pagãos mesmo, afinal, sou um mago do caos. — Você vai pagar… vai pagar e se arrepender de tudo que você fez! Eu vou ir até os confins do inferno para garantir que você nunca tenha paz na sua vida! — Ulrich diz. — Ora… não fique assim, Ulriquinho… tudo que faço e que vou fazer faz parte do jogo das Guerras Solares. Eu só sou mais um produto delas, deste universo frágil e instável que Urudanaon criou, assim como seu deus. — Sim… é desse universo que nosso Deus vai nos salvar! Ele vai criar um universo sem sacrifícios, onde a vida pode florescer em paz longe dessas guerras! — Uma vida sem guerras, sem sacrifícios?! Que tediante! — Rudano diz com desgosto. — Como alguém vai atingir a grandeza e se embriagar de glória sem guerras e sacrifícios? Como alguém ascenderá a divindade sem as condições necessárias para tal, seu lerdão?! — Nada disso vai acontecer mais… porque só haverá apenas um Deus… digno de toda honra e toda glória! Mais ninguém! Rudano dá uma gargalhada. — É mesmo? Seu deus é o único então? Então por que o seu deus está participando das Guerras Solares e matando bilhões no caminho? Os massacres… as queimadas da inquisição! Seu deus também sacrifica, assim como os meus deuses do caos! Ele só usa de motivações e maneiras diferentes. Você vê? Seu deus não é diferente, Ulrich, ele não é único… — Tudo que meu Deus faz é para o bem maior de todo o universo! Ao contrário de seus deuses satânicos que só sacrificam por poder! — E o seu não sacrifica por poder também? Eu sei da história da sua religião… o sacrifício de Jesus Cristo gerou o poder necessário para a igreja conquistar e converter os pagãos do planeta Terra, as guerras santas e as queimadas da inquisição destroem os inimigos da Igreja, fortalecendo ainda mais o poder do seu deus. Você julga que minha religião é tudo sobre sacrifício, mas a base da sua veio literalmente de um sacrifício, que irônico… — Rudano diz, jocosamente. — Eu vou te dizer uma coisa: a vida, Ulrich… depende da vida. Nossa vida depende da dor e do sofrimento de outros seres para nós sobrevivermos porque a meta-essência de nosso microcosmo é frágil assim como a meta-essência do macrocosmo de Urudanaon, aquele que é o corpo desse universo. É por isso que precisamos devorar a meta-essência carnal e espiritual de outros seres para sobreviver assim como os deuses fazem, é por isso que sacrifícios são indispensáveis para a estabilidade do cosmo. — Tudo que está dizendo é mentira! O sacrifício de Nosso Senhor foi um sacrifício… para terminar com todos! — Ulrich diz. Rudano dá uma gargalhada. — Eu vou te dizer uma coisinha… é impossível o universo viver sem sacrifícios. O universo… ou Urudanaon como os pagãos dizem, é um grande organismo. E todo organismo precisa de alimento para sobreviver. Assim como o Deus Sol, Urudanaon também se alimenta de sangue. A vida se alimenta da vida, sangue é vida! Nós nos sacrificamos aos deuses porque eles se sacrificam por nós. É assim que tem que ser. — O que?! Você está falando mentiras… está tentando fazer eu perder a fé em meu Deus, pagão de merda?! Nunca vai acontecer… — Não quero te convencer de nada. Eu já venci porque sou mais poderoso que você, é assim que tem que ser… os mais poderosos ditam o que é certo e o que é errado. E para mim… a sua religião e sua existência são erradas, Ulriquinho… por isso vou exterminá—los! — Isso jamais vai acontecer… as portas do inferno jamais prevalecerão contra a Igreja! Rudano dá uma gargalhada. Ele se aproxima de Ulrich e põe a mão em seu rosto o acariciando. Ulrich rosna e range os dentes para Rudano, borbulhando de raiva. — Ah! Eu não vou liderar as forças do inferno ou as forças pagãs… mas sim as forças do caos. E você vai virar um sacrifício para me empoderar. Mas não se preocupe, eu vou ser bonzinho e deixar você ir até seu deus, sabe por que? Porque sempre te achei um gatinho. — S-seu… viado! Sua bicha! — Ulrich rosna de raiva. Rudano ri de deboche. — Hora de morrer… Rudano estende seu braço ao lado segurando seu marotte. “Hora de morfar!”, o bastão grita, e ele se morfa em uma faca sacrificial de lâmina azul extremamente afiada. Rudano posiciona a ponta da faca no peito de Ulrich que estava tremendo de nervoso. Os braços que estavam o segurando o pressionaram com força, o impedindo de se mover. Ulrich fecha os seus olhos de nervoso e começa a rezar bravamente a oração de São Jorge. Seus lábios estavam tremendo. — Pobre, Ulriquinho… suas orações são inúteis. Seu Deus não vai te proteger. Só há o caos dos Xon aqui… e a sua morte! Os braços que estavam segurando Ulrich na parede rasgaram sua camisa, revelando seu peito. Rudano estava com a mão tremendo, mas ele cerrou seus punhos na faca e partiu para cima de Ulrich. O que se seguiu, foi uma cena crua de brutalidade e violência exacerbada. Rudano enfia a faca no peito de Ulrich e começa a cortar ela verticalmente para baixo. Ulrich deu um suspiro de dor e arregalou seus olhos horrorizado enquanto Rudano dilacerava seu peito. O jovem enfiou sua faca mais profunda, cortando a pele e os ossos que protegiam o coração de Ulrich. O som de pele e ossos dilacerados ecoavam pelo banheiro que se juntavam à sinfonia medonha do barulho dos soldadinhos do caos andando desengonçados, das bocas nas paredes suspirando cânticos macabros com intensidade e das lambidas que Maioral dava em seu pirulito. O bebê gigante apenas observava tudo com interesse e curiosidade. Rudano outrora estava hesitante, mas tudo mudou agora no momento que ele enfiou a faca, como se um instinto animal tivesse tomado conta de suas ações. Ulrich cuspiu sangue na cara de Rudano que olhava para o buraco aberto no peito de Ulrich com uma expressão neutra e indiferente à dor do jovem e aos seus gritos de desespero e dor. Ele começou a dilacerar as veias que conectavam o coração ao corpo de Ulrich, e uma vez as veias cortadas, Ulrich cuspia cada vez mais sangue na cara de Rudano, até que ele joga o marotte no chão, “Ai! Isso dói!” ele reclama, o jovem enfia suas duas mãos no buraco do peito, afastando a sua pele. Rudano arranca o coração de Ulrich com as duas mãos. O jovem pareceu dar um último suspiro de agonia. O coração palpitava e batia freneticamente em suas mãos enquanto cuspia sangue das veias cortadas. Ulrich, um dos monitores do orfanato, estava de pescoço cabisbaixo, e sangue descia de sua boca e do buraco no seu peito rasgado por Rudano. Ele morreu de olhos arregalados, grudado na parede e olhando para o chão. Enquanto a Rudano, ele observava o coração palpitando em suas mãos e cuspindo sangue no chão como se estivesse hipnotizado e com um sorriso nervoso de ansiedade. Era como se ele estivesse segurando o universo inteiro em suas mãos. — Puta merda… eu fiz isso mesmo?! — Rudano diz olhando assustado para o coração. — SALVE XON! — Maioral diz batendo palmas com as mãos. Rudano se virou vendo o bebê gigante todo alegre. Logo depois ele voltou a lamber seu pirulito. — Sim… salve Xon. — Rudano olha de volta para o coração e ri. — Então essa é a fonte da meta-essência humana? Se eu absorver ela… eu vou ter mais poder. Meta-essência… ela é a força vital da vida, da carne, das rochas, das estrelas e tudo que há em Urudanaon… ou o que chamamos de “universo”. O universo, ou Urudanaon, depende de meta-essência para se manter estável e evitar seu próprio colapso. O universo é um grande devorador, e por ser infinito, seu apetite voraz é infinito, não conhece limites. Os sacrifícios ao Deus Sol mantinha o universo estável. O universo precisa da meta-essência da vida para manter—se vivo, mas agora, com a morte de Gammadion, o último Deus Sol, aquele que alimentava a meta-essência na boca de Nosso Senhor Fragmentado, Urudanaon, o corpo cósmico, o universo manifestado está entrando em colapso. A Contagem do Colapso Final começou. O universo está morrendo lentamente, em processo de autodestruição. O Mandato Estelar está vacante, e ninguém está presente para receber os sacrifícios e direcioná—los a Urudanaon. Os sacrifícios se tornaram inúteis sem o Deus Sol. Se nenhum deus vencer as Guerras Solares e assumir o Mandato Estelar, Urudanaon será incapaz de manter a estabilidade do universo por muito tempo, o que culminará em sua destruição e de todo o cosmo. O Deus Sol, de fato, não passava de um cuidador cósmico. Ele era quem mantinha as estrelas brilhando, enquanto Urudanaon as dava sua forma. Mas apenas o Deus Sol pode continuar sustentando a vida no universo porque a vida… é dos Deuses, ela os pertence. Eram esses seres de imensa ambição os garantistas da estabilidade universal, os guardiões da vida no universo. E Rudano estava com a fonte da vida pulsando em suas mãos, a matriz de toda meta-essência, aquela que, em gigantescas quantidades, o levaria a grandeza e a glória digna de todos os deuses. Mas conseguiria Rudano atingir a maior ambição de todo o universo e se tornar o Deus Sol? Apenas o tempo diria… mas o tempo é curto, porque a contagem regressiva para o colapso universal começou com a morte de Gammadion, o fim da Duodécima´Era do Sexto Universo já começou. Nas Guerras Solares, apenas os mais poderosos e audaciosos vencem, ou não… pois se nenhum deus conseguir assumir o Mandato Estelar até a Contagem do Colapso Universal, Urudanaon morrerá de inanição, levando o universo consigo. Com a destruição do universo, volta—se tudo ao Caos Primordial, e uma nova grande guerra entre os deuses disputará a posição do novo Corpo Cósmico e aquele que o nutrirá, o Deus Sol. Pois o universo é dual… depende de duas forças para funcionar. É esta dualidade que sustenta a vida. Assim é o ciclo do universo. Assim é o universo de Urudanaon, um universo moldado por guerras e banhos de sangue dos sacrifícios sem fim. Rudano se lembra das palavras de Maddel em seu grimório, “Para absorver o poder da meta-essência é necessário consumir o sangue ou carne do indivíduo. O coração por ser a fonte de meta-essência é muito cobiçado pelos magos do caos, mas comer um coração humano cru é algo nada fácil, ainda mais quando está no meio de um campo de batalha. É por isso que os magos do caos e outros feiticeiros cristalizam o coração para poder consumi—lo facilmente. O coração diminui de tamanho e é comprimido a um tamanho pequeno para se pôr na boca e mastigar, assim fica mais fácil de nós devorarmos a meta-essência de nossos inimigos.” “Muito bem… tenho que cristalizar!”, Rudano pensa e levanta as suas mãos aos céus escarlates acima do banheiro carregando o coração e entoa ao mantra caótico, “XON BOMBOM…”, mas Rudano é interrompido. Maioral que estava assistindo tudo pega o coração das mãos de Rudano como uma pinça com seus dedos gordos de bebê e o leva até a sua boca. O bebê gigante joga o coração em sua boca e o mastiga como se estivesse comendo um docinho. — Hmmm… vermelhinho gostoso! — Maioral diz esfregando sua barrigona. — Hãããã?! — Rudano fica de olhos arregalados e com um sorriso nervoso. — MAIORAL! — Que foi? — Você me fudeu, cara! Como vou recuperar minha meta-essência agora?! — Aaaaah… matar mais impuros? — Os inquisidores já morreram, e eu tô me sentindo fraco. — Rudano diz. O Caos Profano queimou a meta-essência de Rudano, o deixando fraco e vulnerável. Ele não teria força o bastante para extrair o coração dos inquisidores, além de tudo, como estavam mortos, a meta-essência provinda do coração diminuiu. — Então cê não vai pode faze o próximo pedido do Maioral? — Não! Não vou fazer. Tenho que sair daqui, antes que eu fique pior. — Você… vai fazer… SIIIIIM! — Maioral grita e levanta o seu chocalho que estava encharcado de sangue. — Fudeu! — Rudano diz e corre em direção a entrada do banheiro. Maioral desce mais o seu chocalho em direção a Rudano que pegou seu marotte e correu para a porta do banheiro. O jovem deu um pulo para o impulsionar, ele consegue sair do banheiro na hora que o chocalho bateu no chão, fazendo o térreo estremecer e espalhar escombros pelos lados, o que fez Rudano cair pro chão. Rudano estava sentado no chão, fora do banheiro e observando o chocalho que lentamente se levanta. Parece que Maioral não conseguia sair do banheiro, parte por causa de seu tamanho, parte por causa de que a radiação caótica não distorceu os corredores o bastante. O foco da radiação caótica no prédio dos meninos era o banheiro, então era lá que a situação estava mais agravada. — TITIO MALVADOOOOOOO! — Maioral grita e começa a choramingar e espernear como um bebê. — MA—MAIORAL SÓ QUÉ SAI DAQUI… — Bem feito por você me fuder, bebê chorão! — Rudano se levanta e começa andar. Rudano andava pelos corredores corrompidos do orfanato. Ele estava se sentindo fraco, era necessário restabelecer a sua meta-essência de algum jeito. Praticar mais magia do caos era necessário para a meta-essência não ser utilizada de forma demasiada. Rudano sabia que existiram na história magos do caos que lançavam magia por horas sem precisar restabelecer a meta-essência toda hora. Mas esses magos do caos não existem mais, talvez pelo menos não dentro da realidade, e sim em outra realidade, como o Xongri-Lá. De qualquer maneira, os inquisidores e Ulrich foram boas cobaias para Rudano experimentar seus novos poderes. Rudano precisou da ajuda de Maioral para derrotar os inquisidores. Isso significa que Rudano ainda era fraco, um mero amador em magia do caos, mas mesmo com seu amadorismo Rudano demonstrou ter proficiência para aprender magia e causar estrago no prédio dos meninos com ele. A linhagem de sangue do clã Kyogami era de guerreiros poderosos e ela corria nas veias de Rudano. E enquanto a Maioral? Aquele enorme bebê gigante que clamou ser um Príncipe do Caos. Rudano ficou intrigado com sua presença e semelhança com os gêmeos. Ele se perguntava como um Príncipe do Caos pôde parar fora das paredes banheiro. Parece que o banheiro foi distorcido de forma surreal, onde se criou uma dimensão paralela ligada aos domínios dos Xon. Para Rudano, ainda havia muitas perguntas não respondidas, e talvez, a única maneira dele obter estas perguntas era sair da realidade e se aventurar nos domínios dos Xon, o Xongri-Lá, da onde provavelmente o Príncipe do Caos havia vindo. Mas a fraqueza de Rudano estava o tomando, e quando ele alcançou o salão principal do orfanato e estava perto de sair, Rudano cambaleou suas pernas e colapsou de cara no chão, ouvindo sussurros ininteligíveis em seus ouvidos. Ele sentia seu corpo dolorido, principalmente do lado esquerdo de sua barriga. Rudano virou—se de costas no chão e levantou sua camisa, e quando ele foi ver, havia uma boca com dentes pontiagudos se abrindo e fechando. “Puta merda!”, Rudano pensou e depois gemeu de agonia. Finalmente as mutações da radiação caótica estavam aparecendo além da palidez de sua pele. E Rudano não tinha mais forças para se mover. Ele olhava para o teto do salão de entrada do orfanato, sua única visão. O jovem estava pensando se tudo o que ele estava fazendo valia a pena. Tudo era por poder, mas o poder tinha um preço alto, um preço que talvez Rudano não seria capaz de pagar. Chegou o fim da tarde e os sóis binários de Urudânia estavam se pondo no horizonte. A luz dentro do sótão já estava fraca, e as janelas mal iluminavam o lugar, e os gêmeos estavam envoltos de uma leve escuridão. Eles ficaram a manhã e a tarde inteira dentro do sótão brincando com os soldadinhos, mas eles já estavam entediados de esperar por Rudano. Ele prometeu que voltaria para pegá—los de volta, disse que andar pelo orfanato enquanto os inquisidores estão à solta era perigoso, mas agora que ele estava demorando tanto, os gêmeos estavam preocupados com Rudano, e não sabiam o que fazer. Eles estavam sentados no chão, ainda brincando com os soldadinhos que saiam do baú que Rudano invocou. O sótão já estava tomado deles. — Eu tô preocupado com Rudi, Yugi. — diz Yugiki diz jogando os soldadinhos na parede que caiam para o chão quebrados e se debatendo. — Ele tá demorando muito. — Eu tô também, mas ele falou pra gente esperar aqui. — diz Yugi olhando para os soldadinhos andando no chão. — Vamos descer e procurar por ele! — Que? Não! Rudi mandou a gente esperar, e se os inquisidores ainda estiverem no orfanato? — Yugi diz. — Mas ele não ia demorar tanto! Alguma coisa aconteceu com ele, Yugi! — Ele sabe se virar, ele é um mago do caos, o mais poderoso! — Yugi diz.
— Pensei que impuros bobões como você não gostassem de magia! — Hã? E—eu sempre apoiei ele! — Seu… mentiroso! — Yugiki diz e Yugi fica calado e desvia o olhar de seu gêmeo com um rosto irritado. — Mas… alguma coisa tá me dizendo que ele tá ruim! — Yugiki se levanta e corre até a porta do sótão. — Ei! Aonde tu vai?! — Yugi também se levanta e acompanha seu irmão. — Yugiki, Rudi mandou a gente esperar! — Ele não tá bem, Yugi! Eu posso sentir. — Mas… ele mandou! — Yugi diz. — Agora que tu quer obedecer ele? — Yugiki diz. — Então faz o que tu quiser! Eu vou procurar o Rudi! Vou deixar você aqui. — Não! Eu tenho medo de ficar sozinho. — Yugi diz com a voz tremendo. — Então vem comigo, bebê chorão! Anda logo. Os gêmeos fazem sua saída do sótão e andam pelos corredores do orfanato das meninas. Eles desceram os andares, passando por olhares curiosos das crianças que os fitavam e faziam comentários aleatórios. Eles não sabiam aonde procurar por Rudano, mas, com certeza, ele estava no prédio dos meninos em algum lugar, e se eles quisessem achá—lo os gêmeos precisavam entrar no prédio. Eles esperavam que o pior não teria acontecido. Chegando no pátio de entrada do orfanato das meninas, os gêmeos viram uma comoção de funcionários do orfanato, monges, freiras e senhora Junmi conversando entre si. Elas olhavam para o prédio dos meninos que estava distante, com uma feição preocupada. Entre elas, estavam também as monitoras do orfanato das meninas, Dido e Anna. Os gêmeos se aproximaram das monitoras. Yugiki puxou a camisa de Dido levemente para chamar sua atenção e a jovem olhou para eles curiosa. — Vocês são os gêmeos. O que fazem aqui? — Dido perguntou. — Você é a amiga do Rudi, né? Cadê ele? — perguntou Yugiki. — Aquele escroto ainda tá no prédio dos meninos com os inquisidores. — diz Anna, o que fez os gêmeos franzir para ela. — Você que é “escroto”, garota! — Yugiki diz com raiva e apontando o dedo para ela. Anna cruza os braços e faz um sorriso de deboche. — E vocês são dois monstrinhos mimadinhos e escrotinhos que o Rudano tá criando aqui no orfanato! — Anna! Chega! — Dido diz. Anna franzi para Dido. — Você e sua simpatia por pagãos, Dido. Talvez seja você o mago do caos. — Que? Você tá doida, Anna?! — Talvez eu esteja! Na verdade, eu estou doida por Cristo! Doida o bastante para não ficar ao lado desses pagãesinhos! Adeus, Dido. — Anna diz e vai embora. Dido dá um leve suspiro. — Desculpe, meninos. O que vocês querem? — A gente vai ver como o Rudi tá! — diz Yugiki. — Hã? Não! É muito perigoso, meninos. — Mas Rudi tá lá dentro e a gente não sabe se ele tá bem! — diz Yugiki. — Eu entendo a preocupação de vocês, mas o prédio dos meninos está ficando perigoso. Foi pra isso que chamaram os inquisidores para limpar—lo. — Mas nós temos que ir lá! Rudi está em perigo! — Yugiki diz. Dido fica pensativa. Ela concordava com os gêmeos, sabia que tinha algo errado. Mas ao mesmo tempo, era perigoso permitir que os gêmeos fossem sozinhos. — Tudo bem, eu vou com vocês. Dido se aproxima de senhora Junmi e das outras funcionárias em que ela estava conversando, irmão Kanon estava do seu lado. Ela avisa a senhora Junmi que ela e os gêmeos iriam entrar no orfanato para investigar como estavam Rudano, Ulrich e os inquisidores. Senhora Junmi estava um pouco relutante de permitir eles investigarem, mas já estava tarde e ninguém do grupo retornou. — Tudo bem, Dido, mas tomem cuidado. — senhora Junmi diz. — Vocês devem pegar radiação caótica ao entrar no orfanato. Nós estaremos preparados para rezar por vocês para que a radiação caótica seja amenizada de seus corpos. — diz Irmão Kanon. — Só a Dido que vai precisar, irmão Kanon! Eu e meu irmão Yugiki somos especiais! — Yugi diz sorrindo calorosamente. Irmão Kanon sorriu gentilmente. — Eu sei que são, Gabriel. Deus os abençoe. Dido e os gêmeos deixam os adultos e partem para o prédio dos meninos. Passos apressados, pois eles não tinham mais tempo a perder. O caminho para o prédio dos meninos pareceu ser longo, era como se o prédio estivesse se afastando deles, será que a radiação caótica estava distorcendo a realidade fora também? Isso eles não conseguiam saber. Mas quando o grupo chegou no salão de entrada do orfanato, eles puderam ver Rudano estirado no chão de costas. Seu corpo estava ensaguentado, braços, rosto e abdômen. Era como se ele tivesse tomado um banho de sangue. — RUDANO! — os gêmeos gritam. Ao ver o jovem caído, eles correram em direção a Rudano. Os gêmeos estavam de coração acelerado. Yugi prontamente se pôs de joelhos ao lado de Rudano e tocando seu ombro para tentar obter alguma resposta do jovem desacordado. — Rudano! Por favor, acorda! — Yugi diz choramingando. — Meus Deus… o que aconteceu com ele? — Dido diz horrorizada, tampando sua mão na boca. — F—foi… o mago do caos! Foi o mago do caos que fez isso com ele! — Yugiki diz com a voz trêmula. Dido se agacha ao lado de Yugi que estava chorando sem parar e infantilmente. Yugiki estava chorando também, mas ele estava mordendo os lábios para não abrir o berreiro. Como de costume, Yugiki sempre segurava suas emoções ao contrário de Yugi. — O que que a gente faz, Dido?! — perguntou Yugi choramingando. — Calma… — Dido põe dois dedos no pulso de Rudano para checar a pulsação. — Ele ainda está vivo, meninos! Me ajudem a levá—lo para a enfermaria, rápido! Os meninos acenam a cabeça em concordância. Eles pegam Rudano um em cada braço, Yugi no braço direito e Yugiki no esquerdo enquanto Dido segura por debaixo das axilas do jovem. Eles arrastaram o corpo de Rudano pelo chão para fora do prédio dos meninos. Rudano precisava repousar na enfermaria urgente. RUDANO, A PROTO—ABOMINAÇÃO DO CAOS Os gêmeos e Dido levaram Rudano para dentro da enfermaria, onde ele foi deitado na cama, mas desta vez senhora Junmi e irmão Kanon os acompanharam, intrigados pelo motivo de apenas Rudano ter sobrevivido. A doutora Jade que ficou encarregado do jovem começou a dar banho em Rudano enquanto ele estava no leito, e quando ela retirou a camisa de Rudano, a enfermeira teve um susto. Ela pode ver uma boca do lado de seu abdômen, com dentes pontiagudos sorrindo para ela. — Meu Deus… ele também está contaminado! — a enfermeira disse. — E o que está esperando? Cuide dele! — disse Junmi de maneira ríspida. A enfermeira acena com a cabeça e começa a tirar as roupas de Rudano para o dar banho e limpar todo rastro de sangue que estava em seu corpo. Junmi estava olhando suspeita para Rudano. Parece que de fato, ele era o único sobrevivente do incidente no prédio dos meninos, a quantidade sangue em seu corpo denunciava que algo horrível aconteceu lá. Mas Rudano estava inconsciente, nada podia ser extraído dele enquanto ele não acordar. — Doutora Jade, quero que você fique de olho em Rudano até ele acordar. — Junmi diz. — Sim, senhora. — Irmão Kanon, nós corremos perigo por causa da radiação caótica vinda dele? — Junmi perguntou. — Bem, eu estudei pouco sobre magia do caos no seminário. Pelo que sei os ambientes radiativos são os que mais espalham radiação caótica. Mas os indivíduos espalham pouca radiação caótica comparado aos ambientes. Se nós nos lavarmos, trocar de roupa e vestir nossos sacramentais e fazer nossas orações, com toda certeza estaremos blindados. — Ótimo, vou mandar as crianças tomarem banho três vezes ao dia, só por garantia. — Junmi diz, ela depois se volta para Dido. — Dido… você viu alguém mais além de Rudano? Cadê os inquisidores! E o Ulrich?! — Não, senhora. Só vimos Rudano jogado no chão da entrada do orfanato. — diz Dido. — Não é possível… não é possível que eles vieram aqui só para morrer! — Junmi diz. — Nós estamos em uma situação muito grave. Esse mago do caos deve ser muito poderoso para poder destruir os inquisidores. Deus nos ajude… — Irmão Kanon diz. — Não só Deus! Os Jugash também nos devem proteção! Onde já se viu mandar apenas dois inquisidores para cuidar desta situação?! — Acredito que nossos irmãos do Tribunal do Santo Ofício devem ter subestimado esse mago do caos. — Irmão Kanon diz. — E agora não precisamos só de inquisidores, mas também de uma guarda! Um regimento! Um exército inteiro! Eu vou ter uma conversa muito séria com eles pelo telefone. Se essa situação não se resolver, esse demônio vai fazer mais vítimas! — Junmi diz, ela caminha para fora da enfermaria apressada e saí do quarto. Os gêmeos olharam para Dido com seus olhos lacrimejados e rostinhos corados, estavam preocupados com Rudano, e também pela situação que eles caíram. Sem Rudano, os gêmeos estariam sozinhos para se virar, coisa que eles não sabiam fazer direito. — Dido, quem é que vai cuidar da gente? — perguntou Yugi. — Ah, Yugi… eu posso até cuidar de vocês. Posso te trazer aquela sua mamadeira de… — De vermelhinho? — perguntou Yugiki — É, sim! De vermelhinho. — Dido diz sorrindo de nervoso. — Mas meninos, não vou poder dar banho em vocês. — Ué, por quê? — perguntou Yugiki. — Porque vocês são meninos e eu sou uma menina. Eu não posso entrar no banheiro enquanto outros meninos estão lá dentro. — É só você se fingir de menino, vestir uma roupa ou sei lá. — diz Yugi. Dido deu uma risada. — Meninos, eu não vou entrar no banheiro com vocês! Vocês já tem sete anos, né? Já tá na hora de vocês se virarem sozinhos. — Mas… Rudano sempre cuida da gente. — disse Yugi. — Eu sei… mas… ele está mal agora. Vocês precisam aprender a se virar sozinhos. Um dia vocês vão crescer e… Rudano não vai estar ao seu lado pra sempre. — Ele vai sim! Ele prometeu nunca nos abandonar! — disse Yugi revoltado e com a voz tremendo. — É! Ele não vai morrer… tenho certeza disso! — diz Yugiki chorando. Dido olha preocupada para os gêmeos. Era claro que eles tinham grande devoção para com Rudano. — Irmão Kanon, o que você acha do Rudano? — Dido pergunta. — Você sabe se ele vai ficar bem? — Ele está contaminado por radiação caótica, assim como os outros meninos estavam. Só um exorcista tem o poder suficiente para removê—la. — disse Kanon. — Podemos continuar rezando por ele até os reforços chegarem. — disse a doutora Jade. — Infelizmente não vai funcionar. Rudano é um pagão, ele não pode receber as bençãos de um Deus em que ele não acredita. — Kanon diz. — Ele precisa renunciar aos seus deuses falso primeiro. — Isso é triste… — diz doutora Jade. — Como ele vai melhorar então? — Já sei! Vou rezar para Obaruaon! Deus celestial das doenças e da cura pra curar o Rudano! — Yugiki diz empolgado. Irmão Kanon franziu para o menino. — Não! Não admitimos orar para entidades demoníacas em nosso orfanato. — ele diz, reprimindo Yugiki. — Eu tô nem aí! Você não manda em mim! — diz Yugiki franzino para Kanon. — Ora, seu pagão atrevido! — Irmão Kanon diz. — Quer receber palmadas no seu traseiro? Dido se aproxima de Kanon. — Irmão Kanon, ele não vai fazer nada, pode deixar que eu vou ficar de olho. Os gêmeos olham desapontados para Dido. — Por que, Dido?! — pergunta Yugiki. Dido olha para os gêmeos e pisca com um olho, sorrindo para eles. — Eles não vão fazer nada, eu prometo. — Tudo bem, eu conto com você, Dido. — Irmão Kanon olha para Yugi. — Gabriel, eu recomendo que você comece a se afastar daquilo que te afasta de Deus. Começando por aqueles mais próximos de você. — Yugi olha para Kanon, mas depois desvia seus olhos e faz uma expressão de preocupação. — O que?! Eu?! — Yugiki pergunta. — Exatamente! — Irmão Kanon diz. — Agora se me derem licença, eu devo voltar para a capela. — Irmão Kanon diz e caminha para fora do quarto da enfermaria. Dido se aproxima dos gêmeos. — Eu quero falar com vocês lá fora. — Ela diz. A adolescente leva os gêmeos até fora do quarto da enfermaria, e fechando a porta, ela começa a falar com eles no meio do corredor do orfanato. A luz laranja dos sóis binários do fim da tarde penetram as janelas enquanto há uma leve movimentação dos internos. — Yugiki, eu não vou impedir você de orar pra quem você quiser, mas faça isso antes de dormir para não atrair a atenção de ninguém. — Tá bom, Dido. Pensei que você tava do lado daquele impuro. — Não, na verdade eu não sou muito religiosa se é que me entendem. Mas vamos deixar essa informação só entre nós, okay? — os gêmeos acenam a cabeça sorrindo para Dido. — Vocês são meninos muito compreensivos, Rudano os ensinou bem. — Dido diz sorrindo. — E o Rudi, Dido? Ele vai ficar bem? — Yugi pergunta. — Eu espero que sim, meninos. Ele vai precisar descansar, parece que ele está fraco e desmaiou. Vamos esperar com paciência que tudo vai dar certo. Quando ele acordar vamos saber de tudo o que aconteceu no prédio dos meninos. — Tá bom, Dido. — os gêmeos dizem em uníssono. — Vocês são bons de sincronização, ein? — Ela diz sorrindo. — Agora vão para o quarto de vocês, já vai anoitecer. — A gente pode dormir ao lado do Rudi? — Yugi pergunta. — Não podem, meninos. A enfermaria é só para quem precisa. Mas amanhã vocês vão poder visitar ele de novo. — Dido diz. — Pode deixar que eu também estou de olho nele. Os gêmeos dizem para Dido que iam ver Rudano uma última vez antes de dormir, e ela concorda, afinal, eles eram muito apegados a ele. Dentro do quarto da enfermaria mais uma vez, os gêmeos se aproximam do leito onde Rudano estava deitado e desacordado. Ele estava respirando normalmente, e seus pulsos estavam com sinal de vida, mas nada do jovem demonstrar consciência. Eles esperaram a doutora Jade limpá—lo para poder depois estar ao seu lado. Os dois gêmeos ficaram em cada lado da cama de Rudano. Eles estavam chorando, seus olhos se enchiam de lágrimas e suas bochechas e narizezinhos ficavam rosadas de tanto sentimento. Yugi, o que era mais sentimental dos gêmeos, soluçava baixinho enquanto ele acariciava o rosto de Rudano. Yugiki só olhava para Rudano e seu gêmeo com o rosto cheio de lágrimas, mas em silêncio, como de costume. Yugiki não gostava de demonstrar emoções intensas como o choro, para ele era sinal de fraqueza. Coisa de meninos da idade dele, ele sabia que demonstrar vulnerabilidade podia manchar a pouca reputação que ele tem de “durão” dentro do orfanato, afinal, era ele que protegia seu gêmeo e ele mesmo de outras crianças e de bullies. Anoiteceu lá fora, a doutora Jade dispensou os gêmeos que estavam na enfermaria. Ela disse que seria difícil Rudano se recuperar sozinho, e que seria necessário transferi—lo para um hospital na cidade, onde lá eles teriam artefatos antimagia que seriam neutros, ou seja, não afiliado a nenhuma religião, assim podendo curar as mutações no corpo de Rudano. Isso fez aumentar as esperanças dos gêmeos. Os gêmeos Kyogami retornaram para o quarto das meninas, onde eles dormiriam, e foram bem—vindos com olhares tortos e comentários que outras crianças faziam sobre eles nos ouvidos de seus colegas. Eles não deram atenção devida a isso, estavam preocupados demais com Rudano e prontamente foram se deitar no colchão. O dia foi longo para eles e carregado de ansiedade. Sem Rudano, eles estariam largados à própria sorte. Dido, por mais que tivesse boa vontade, não tinha o afeto que os gêmeos construíram com Rudano durante sete longos anos. Tudo bem, ela traria para eles o vermelhinho, mas e as historinhas de Rudano? E seus beijos e carinhos? E suas palavras de afeto que tocavam o coração dos gêmeos? Mesmo Rudano sendo rude às vezes, os gêmeos preferiam ele do que todos. Mas o que seria Rudano quando a radiação caótica tomasse todo o seu corpo? Seria ele ainda capaz de nutrir cuidados aos gêmeos? O destino cruel de um mago do caos o impedia de amar ninguém se não o caos que ele causa ao mundo. Deitados no colchão, Yugi foi chamado a atenção de Manoela e sua trupe, Isabel e Angela. — Gabriel! Por que você não veio comer com a gente? — Manoela pergunta. — Hã? Ah… eu tava brincando com meu irmão. — Yugi diz. — Tá bom, mas amanhã eu quero você com a gente sem falta. — diz ela. — Você não manda nele, garota metida! — Yugiki diz. — Cala a boca! Não tô falando contigo. — Manoela diz reprimindo Yugi. — Quê?! Ô Yugi, você vai deixar essa metida falar assim com seu irmão?! — Yugiki pergunta olhando sério para Yugi. — Deixa ela, Yugiki, vamos só dormir, tá bom? — Yugi diz. — É isso mesmo! Bom, amanhã a gente te espera, tá, Gabriel? — Manoela diz com um sorriso atrevido e depois vai embora com suas amiguinhas dando risadinhas. — Você é um bobão, mesmo… — Yugiki diz e deita—se ao lado virado de costas para Yugi. — Você que é chato, Yugiki! — Yugi diz e também deita virado de costas para Yugiki. — E eu… eu não quero beijo de boa noite, mesmo! — Ótimo! Babaca… Os dois mais uma vez dormem virados de costas um para o outro. Nem mesmo a situação grave que fez Rudano estar inconsciente foi o bastante para fazer os gêmeos se reconciliarem totalmente. Mas o pior de tudo era que eles precisavam se manter unidos, mais do que tudo. Eles, no fundo, sabiam disso. Mas o pequeno ego e orgulho de crianças de sete anos que eles eram os impediam de reconciliar. Era um jogando a culpa no outro. Eles foram separados por religiões que eles sequer entendiam direito, afinal, eram apenas duas crianças sendo influenciadas pelo seu ambiente, Yugiki tomando o lado de Rudano e Yugi tomando o lado de irmão Kanon. Ambos estavam usando a religião para se manter ancorados em suas identidades ainda em formação, Yugiki buscando por mais aceitação de Rudano, Yugi por mais aceitação do mundo lá fora. Mas seria esta obsessão por validação externa algo proveitoso para a busca por identidade de ambos? Certamente, é uma incógnita difícil de responder.
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