CAPÍTULO 3: YUGI, O CRISTÃO

O dia amanhece no quarto dos gêmeos e a luz do sol penetra as janelas do sótão. Os gêmeos estavam deitados na cama. Eles acordam mansinho, esfregando seus olhinhos e olhando um para o outro.

— Bom dia. — Disse Yugi bocejando, ainda com a chupeta na boca.

— Bom dia… — Yugiki diz meio aborrecido.

— Que foi?

— Nada…

— Você ainda tá bravo por causa da minha oração de ontem?

— Sim! — Yugiki diz. — E eu vou contar pro Rudi.

— Eu tô nem aí! Rudi vai entender.

— Ah, vai sim. Você aí rezando pro nosso inimigo para nos curar? Você é muito burro mesmo!

— Para, Yugiki! — Yugi diz. Yugiki olha franzino para seu irmão e os dois ficam em silêncio.

Yugi percebe algo diferente nele, seu corpo estava em paz. Alguma coisa estava diferente, eles sentiram. Não mais aquela dor ardida e latejante estava praguejando as suas bundinhas.

— Yugiki… eu não tô mais sentindo dor no bumbum.

— Hã? Não?

— Sim! Yugiki! Tá ardendo só um pouquinho!

— Hã… eu to sentindo um pouco de dor também.

Yugi se levanta da cama. — Ein, Yugiki, arreia minha calça e vê se a minha bunda ainda tá vermelha!

— Tá bom. — Yugiki diz. O menino se levanta também e vai até a traseira de seu gêmeo. Ele arreia as calças de Yugi junto com a cueca. Ao ver a bundinha de Yugi, Yugiki arregalou os olhos e ficou boquiaberto. Não porque o bumbum de Yugi era redondinho e firme como o seu, mas porque ele estava completamente desprovido de qualquer vermelhidão! Havia apenas umas marcas rosadas que restou dos golpes da madeira.

— Yugi… a sua bunda tá menos vermelha, sim! — Yugiki diz.

— Sério mesmo?!

— Sim. — Yugiki diz e ele aperta as nádegas do bumbum de Yugi com as mãos. — Tá doendo?

— Ai! Um pouco.

— Aqui, vê o meu também! — Yugiki diz, e arreia suas calças mostrando seu bumbum para seu irmão.

Yugi se aproxima e vê que o bumbum de Yugiki estava mais judiado que o seu.

— O seu tá mais vermelho, Yugiki. — Yugi diz apertando as nádegas de seu irmão com as mãos.

— Ah! Ai! — Yugiki grita. — Ainda tá doendo, Yugi!

— Então o seu bumbum ainda tá pior que o meu. — Yugi diz retirando suas mãos da bundinha de Yugiki.

— É claro! Esqueceu que eu tomei mais palmadas que você…

— É, mas foi porque você quis.

— Foi porque quis proteger você, seu bobão!

— Foi você que fez besteira! Deixa de ser teimoso.

— Ingrato… — Yugiki diz e levanta sua calça de volta. O menino senta na cama, balançando suas pernas. — Pelo menos agora eu posso sentar a minha bunda sem doer muito.

Yugi se aproxima de seu irmão e senta ao lado dele. Ele tinha um sorriso caloroso em seu rosto.

— Yugiki… eu acho que eu sei porque nós estamos curando rápido assim.

— Por quê?

— Por causa da minha oração que eu fiz a papai do céu e a Jesus!

— Ah! Não vem com essa, Yugi.

— Mas foi! Se não fosse minha oração a gente ia tá muito pior. Esqueceu que o Rudano disse que demoraria algumas semanas para sarar? A gente já tá melhorando muito!

— Não foi por causa da oração, Yugi!

— Foi sim! E por eu ter fé em Jesus e Deus que eu to sarando melhor do que você que é um pagão! — Yugi diz.

— O que?! Yugi… você tá virando um impuro?

— Você não vê, Yugiki? Esses deuses pagãos são fracos. Eles não respondem orações nem ajudam a gente! E o deus dos cristãos respondeu, então…

— Então o que, Yugi?!

— Eu tô bem animado pra ir pra catequese! — Yugi diz sorrindo.

— Não ferra, Yugi! Você tá virando cristão! Um impuro… — Yugiki diz com a voz tremendo.

— Que que tem? Não é tão ruim assim.

— É ruim sim! Você tá se juntando com o inimigo!

— Eles não são nossos inimigos! O Deus deles até tá nos curando, Yugiki!

— Não tá não!

— Idiota! — Yugiki grita e dá um empurrão em seu irmão.

— Ai! — Yugi diz tampando seu corpo com as mãos. — Para Yugiki! Não me empurra de novo!

— Não tem como deixar de te empurrar, seu idiota!

De repente, os gêmeos ouvem a porta do sótão e olham para as escadarias, eles ouvem passos se aproximando. Era Rudano. Ele estava com um rosto e olhos cansados. Seus olhos estavam espremidos como se estivesse tentando mantê—los abertos.

— Desculpem a demora meninos. Eu não dormi bem essa noite… — Rudano diz.

— RUDIIII! — Yugiki grita e corre em direção a Rudano puxando sua camisa.

— O que foi, Yugiki? O que aconteceu?

— O Yugi… ele virou cristão! — Yugiki diz apontando para Yugi.

— Que… como assim?

— Ele rezou pro deus cristão ontem a noite, Rudi!

Rudano olhou com uma expressão neutra para Yugi.

— É verdade isso, Yugi?

— Hã… s-sim, Rudi. E-eu rezei ontem para Deus e Jesus para curar nossos bumbuns e hoje de manhã nossos bumbuns melhoram!

— É mesmo? — Rudano disse. — Eu quero ver, mostrem pra mim! — ele sorriu.

Yugiki se afasta de Rudano e arreia suas calças. Yugi segue seu irmão e os dois mostram o bumbum ardido para o jovem que observa com atenção.

— É, parece estar bem melhor do que ontem. Incrível. — Rudano diz. Ele se aproxima de Yugi e se agacha na altura do menino. Rudano põe a mão no bumbum de Yugi que se contorce levemente. — Está doendo, Yugi?

— Um pouco… — ele diz.

Rudano acaricia levemente o bumbum dele e o aperta gentilmente.

— E agora?

— Tá doendo, mas nem tanto.

Ele cutuca o bumbum de Yugi levemente. Sentindo a pele macia e quente do menino.

— Rudi? — Yugi pergunta. — J—já tá bom… — ele diz olhando por cima dos ombros. Dava para ver que ele estava corado.

Rudano desperta e subitamente remove sua mão de Yugi. — D—desculpa, Yugi… é que eu…

— Ei, Rudi! — Yugiki diz. — Vem ver a minha bunda também! — Ele diz se curvando e dando leves tapinhas no bumbum.

— Ah… não, Yugiki. Já está bom. Eu já sei que o seu está mais judiado. É bom eu não estressar mais o seu bumbum.

— Mas… você tocou no do Yugi!

— Toquei porque o dele está menos judiado que o seu. Não é bom mexer no seu, não. Quer sentir mais dor pra quê, Yugiki?

— Mas…

— Yugiki, eu não vou tocar no seu bumbum à toa. — Rudano diz e Yugiki faz um biquinho, revoltado.

— Você viu como o meu bumbum curou mais rápido, Rudi? É por isso que acho que a oração que fiz deu certo!

Rudano franzi seu rosto para o menino. — Não, Yugi. Não tem nada a ver.

— O que é então? Eu tenho certeza que foi isso! Deus atendeu minha oração!

— O deus cristão? Pfft! Ele não atenderia orações de um pagãozinho como você, Yugi. — Rudano diz cruzando os braços.

— Mas eu falei pra ele que me arrependi de ser pagão… eu admito que sou pecador e que Jesus é o meu Senhor!

Rudano gargalhou.

— Você nunca vai deixar de ser pagão, Yugi. E o deus dos cristãos nunca aceitará você e nem Yugiki!

— Hã? M—mas por que?!

— Porque vocês… vocês são especiais. Eu já não disse?

— Você disse que somos anjinhos…

— Os deuses pagãos também possuem seus anjos, não é uma exclusividade dos cristãos… vocês são “anjinhos” sim, mas anjos pagãos. Entendeu, Yugi? — Yugi fica em silêncio por um momento fazendo biquinho. — Eu vou entender isso como “sim”. — Rudano diz. — Da próxima vez que você quiser rezar para pedir por cura, reze para Obaruaon, deus celestial das doenças e da cura. Não a um carpinteiro! Por acaso um carpinteiro pode curar alguém?

— Não… — disse Yugi.

— Então pronto, Yugi.

— Mas eu só quero…

— Sem mais! — Rudano diz levantando a voz. — Yugi arregala os olhos, assustado pela repreensão de Rudano. — Como eu disse, nós temos que permanecer unidos. Não quero que logo você de todas as pessoas se torne um escravo do carpinteiro! — Rudano diz. — Agora vamos tomar banho. Eu tenho que levar vocês pra aquela bosta de catequese.

Yugi ficou cabisbaixo e Yugiki estava com um sorriso travesso meio satisfeito pelo seu gêmeo tomar um esporro de Rudano.

Os gêmeos e Rudano saem do quarto sótão e caminham em direção ao banheiro. O orfanato estava agitado nas manhãs, como de costume, os meninos vão aos banheiros para tomar banho e se preparar para a aula. Alguns padres e outros funcionários do orfanato podiam ser vistos andando pelos corredores. Porém, os gêmeos terão desta vez um outro tipo de aula, resultado do castigo que lhes foi aplicado no dia de ontem.

Dentro dos banheiros, o banho dos gêmeos seguiu da mesma maneira. Rudano ajudou Yugi a se banhar enquanto Yugiki, o mais independente, tomava seu banho sem os cuidados minuciosos de Rudano. No banheiro também estava os bullies dos gêmeos que estavam observando os bumbuns doídos deles.

— Ué, já melhorou? — Faber pergunta.

— Pensei que tava mais vermelho que isso! — Almofado disse.

— Mesmo assim, parece que eles tão com uma tatuagem na bunda! — Rapha disse.

— Ei, vocês, seus bostas! Calem a boca! — Rudano diz passando sabão em Yugi. Ele estava agachado para se igualar a altura do menino.

— O que vai fazer, Rudano? — perguntou Almofado.

— É, ser babá de demônios albinos não nos dá medo, Rudano! — diz Rapha.

Rudano se levanta, franzindo seu rosto para Rapha. Ele parecia estar com muita raiva. O jovem se afasta de Yugi e anda até Rapha.

— Que é? — Rapha perguntou.

— Você disse que eu não do medo, né? — Rudano perguntou. — Que tal isso?

Rudano cobre o rosto com as mãos, e depois ele as afasta, revelando seu rosto. Mas não era o rosto normal de Rudano, ele estava pálido. Seus olhos brilhavam vermelhos e seu rosto estava estampado com um sorriso monstruoso de dentes pontiagudos. O pescoço de Rudano ergueu—se igual a uma serpente e ficou cara a cara com o rosto de Rapha que estava com olhos arregalados de medo. Um grito agudo e penetrante foi emitido da boca de Rudano que fez o menino cair de bunda pelada no chão do banheiro e engatinhar para longe de Rudano. Os outros meninos correram para longe dele desesperados e gritando, “dêmonio, demônio!”. Os gêmeos também estavam igualmente assustados, se recuando no canto do banheiro.

O pescoço de Rudano recuou ao seu estado normal. Seu rosto já não tinha a aparência demoníaca de antes.

— Agora vocês sabem que eu não sou uma babá qualquer… — ele sorriu.

— V—você é um demônio! — Guilherme falou com sua voz estremecendo.

— “Demônio”... moleque imbecil!

Nisso, ouve—se um som de porta se abrindo. Dois irmãos correram para dentro do banheiro que ainda estava tumultuado pelo ato de Rudano. Eram os monges jesuítas João e Matheus. Eles eram dois homens de meia idade, monges que ajudavam a instigar disciplina moral e espiritual aos internos do orfanato.

— O que está havendo aqui?! — perguntou o irmão Matheus.

— O Rudano, ele é um demônio! — Guilherme diz mais uma vez apontando a Rudano.

— Rudano, demônio? O que está dizendo, garoto? — perguntou o irmão João.

— O Rudano transformou o rosto dele no de um demônio! Todo mundo aqui viu! — diz Rapha.

— O que? — Irmão Matheus se aproximou de Rudano que estava olhando para o irmão com uma expressão neutra. — Rudano… isso é verdade?

Rudano sorriu.

— É claro que não, irmão Matheus. Você vai acreditar logo nos meninos mais desordeiros do orfanato?

— Pois eles parecem genuinamente assustados.

— Eu contei uma história para eles e acabaram se assustando, não fiz nada demais.

— Você e suas histórias…

— É mentira, irmão! A gente viu tudo. O Rudano se transformou num monstro! — disse Almofado.

— Um monstro? Mas como? — disse irmão Matheus.

— Não, espere. — interrompeu irmão João se aproximando de Rudano. — Eu ouvi dizer que anteontem você estava no incidente do ursinho suicida no antigo orfanato, é verdade, Rudano?

— Ah! Agora isso de novo? — Rudano diz. — Vocês não vão vir com essa ladainha de que sou um mago do caos, né?

— Apenas um mago do caos poderia ter feito aquilo. E todos nós sabemos que você é um pagão, Rudano! — diz o irmão João.

Rudano fica em silêncio por um momento.

— Sim, e daí?

— E daí que magia do caos é coisa de pagãos como você!

— Não, você é burro. — diz Rudano.

— O que?!

— Magia do caos é sim coisa de pagão, mas nem todo pagão prática magia do caos. Na verdade, a magia do caos é rejeitada pela maioria dos pagãos celestiais e o culto aos deuses do caos foram combatidos por todas as dinastias do Sacro Império Celestial! Então você está falando merda.

— Olhe como você fala comigo, seu pagãozinho!

— Não importa que tipo de magia seja, qualquer tipo de magia é demoníaca e deve ser combatida. E está claro o que aconteceu no antigo orfanato: há um mago do caos entre nós e é muita coincidência você e os gêmeos serem os únicos pagãos do orfanato, não acha, Rudano? — diz irmão Matheus.

— Sim, e agora isso! — diz o irmão João apontando para os meninos assustados.

— Está insinuando que aqueles moleques de sete anos são magos do caos? Vocês são lunáticos! — diz Rudano, se referindo aos gêmeos Kyogami.

— Então diga, Rudano, porque coisas estranhas sempre acontecem ao seu redor? — perguntou o irmão João.

— Sempre acontecem?! Só foi duas vezes, cara!

— São suspeitas suficientes para te entregarmos a inquisição. — disse João.

— O que?! Vocês tão de zoa, né?! — ele pergunta rindo de nervoso.

— Você é pagão e está agindo de forma suspeita, não podemos deixar que isso continue, Rudano! — disse João.

— Venha com a gente, vamos te levar a custódia até que os inquisidores cheguem.

Rudano começa a rir. — Eu tenho uma ideia melhor… que tal vocês irem todos para puta que os pariu? — Os olhos de Rudano brilham vermelhos, ele levanta sua mão apontando o dedo indicador aos irmãos. — CAOS IMPERIAL! — grita o jovem com uma voz aguda e estridente.

Um raio vermelho finíssimo sai da ponta do dedo de Rudano e atinge o irmão João e depois Rudano aponta para o irmão Matheus, atingindo ambos. Raios vermelhos aparecem envolta dos monges eletrocutando eles, eles começam a gritar de dor enquanto se contorcem. Seus corpos ficam imobilizados até que os raios vermelhos desaparecem.

— Okay, eu quero que vocês esqueçam toda esta merda que aconteceu aqui no banheiro, entenderam? — disse Rudano.

— Sim… — murmurou ambos os irmãos.

— Agora podem ir, e digam para os seus confessores que vocês são duas bixas velhas que fazem viadagem escondido. Acho que vocês vão precisar botar gelo no pau por causa disso…

— Bixas velhas… fazer viadagem… — murmurou irmão João.

— Sim… precisamos praticar… mortificação… — completou o irmão Matheus.

Ambos os padres estavam com os rostos levantados, como se estivessem pairando. Eles rastejaram como mortos—vivos para fora dos banheiros e saíram da vista de Rudano.

— Isso mesmo, vão botar gelo nas suas picas, seus viados!

Rudano voltou sua atenção ao resto dos meninos do banheiro que estavam juntos se contorcendo de medo no canto da parede. Eram seis meninos que estavam tomando banho, seis excluindo os gêmeos.

—Vocês viram tudo. Não posso deixar que a boa nova se espalhe, né?

— V—você não pode fazer isso com a gente! Somos crianças! — diz Almofado.

— Crianças? Você acha que eu ligo pra isso?! — Rudano diz e aponta suas duas mãos para os meninos.

— Não, Rudi! Por favor! — Yugi diz. Ele corre para Rudano e agarra suas pernas. O jovem olha para ele. — Chega, Rudi, não faz isso!

— Não ouve ele, Rudi! — Yugiki grita. — Faz sim. — Yugiki diz sorrindo atrás de Rudano.

Rudano estava olhando para Yugiki e depois voltou a fitar os meninos. Ele começou a atirar raios vermelhos nos seis meninos que estavam encurralados na parede e ondas vermelhas eletrocutaram seus corpos. Os meninos estavam se contorcendo e gemendo de dor até que eles pararam subitamente e todos olharam para Rudano com olhos arregalados.

— Esqueçam tudo o que aconteceu aqui, entenderam?!

— Sim… — os meninos murmuram.

— Ótimo… agora voltem ao banho de vocês. — Ele estala o dedo. Mas os meninos continuavam parados olhando para Rudano. — Merda, por que não tá funcionando?! — Rudano continua estalando o dedo, ele queria remover a magia dos meninos com o estalar de dedos, mas não funcionava.

— O que aconteceu?! — Yugi pergunta.

— Porra, não tá funcionando!

Rudano continua estalando o dedo, até que os meninos se contorcem levemente e começam a fazer movimentos de bater asas com as mãos e imitando vocalização de galinhas. “Có, có, có!”, eles gritam e começam a andar igual galinhas, arqueando suas colunas e dando pulinhos no banheiro.

— O—o que aconteceu? — pergunta Yugi.

Rudano ri de nervoso.

— Agora fudeu. — Rudano volta—se para os gêmeos. — Vamos embo… — Antes de terminar, Rudano subitamente cospe sangue da boca.

— Rudi! — os gêmeos dizem.

— Quietos… — Rudano põe a mão na boca e depois de olhar vê que ela está manchada de seu sangue. O jovem estava tremendo. Rudano sentia fraqueza e tentava reunir forças para não colapsar no chão. — Vamos embora!

Os gêmeos e Rudano voltaram para o quarto sótão. Eles tiveram que ajudar Rudano que estava fraco e andando cambaleando. Demoraram para chegar no quarto sótão deste jeito. Os gêmeos eram apenas meninos de sete anos e não tinham força necessária para ajudar o adolescente que era maior. Ele ainda estava ofegante quando sentou—se na cama dos gêmeos e suando frio. Os gêmeos ainda estavam cobertos pela toalha que eles envolveram seu corpo. Yugiki olhava com curiosidade enquanto Yugi parecia estar muito preocupado.

— Rudi, o que foi que você fez?! — perguntou Yugi.

— Ah, foi só um truque…

— Não mente, Rudano! A gente não é burro. Você gritou “CAOS IMPERIAL!”, então você fez magia do caos! — Yugiki diz franzino. — E foi muito legal! — Ele sorri subitamente com empolgação.

— Não, não foi! Ele quase mata aqueles meninos!

— É mentira! Ele só zoou com eles, né, Rudano? — diz Yugiki.

— Escuta! — Rudano diz. — Eu fiz aquilo para me defender, okay?

— Não! Foi você que começou! — diz Yugi.

— O que?

— Foi você que começou tudo, Rudi! Não era pra você ter provocado o Rapha!

— Eu botei ele no seu lugar! — Rudano diz. — E se eu não tivesse lançado a magia nos monges, eu estaria sendo torturado pela inquisição, Yugi!

— Mas você usou nos meninos também, poderia ter matado eles!

— Se eu não tivesse usado, eles saberiam do que eu fiz! Está botando a culpa em mim por me defender de impuros, Yugi? Está se preocupando mais com impuros do que a mim, é isso?!

— Não! E—eu…

— Ei, Rudi, que magia você fez lá no banheiro? — perguntou Yugiki.

— Caos Imperial. É uma magia que possibilita ao mago controlar a mente de suas vítimas e dar ordens. — Rudano diz. — Bem, mas como é magia do caos nem sempre funciona do jeito que queremos, como foi no caso daqueles meninos.

— O que vai acontecer com eles? — pergunta Yugi.

— As vítimas ficam loucas se elas ficarem sob o efeito da magia por algum tempo. É por isso que fiz questão de tirar dos moleques o quanto antes, mas não deu certo… — disse Rudano colocando a mão em seu rosto.

— Então aqueles meninos… — diz Yugi e fica boquiaberto.

— É, acho que eles vão ficar dodóis da cuca, que pena, né? — Rudano diz com um sorriso de deboche.

— Você tem que tirar a magia deles, Rudano.

— Eu já tentei, Yugi. Não tem como.

— Mas você errou a magia neles, então você tem que os consertar!

— Se eu tentar desfazer a magia vai piorar. E eu não “errei” ao lançar a magia, magia do caos é assim mesmo, ela é imprevisível, aleatória e muito destrutiva… Uma vez lançada não tem como prever os resultados. Eu tentei controlar com os meninos, mas só piorou.

— Que legal! — Yugiki sorriu com brilho nos olhos.

Yugi fica em silêncio por um tempo. — Então é tu que é o mago do caos do orfanato, né? — Yugi diz franzino para Rudano.

— Sim, sou eu mesmo! E eu não quero que nenhum de vocês diga um “ai” sobre isso para ninguém! Entenderam?

— Pode deixar, Rudi! — Yugiki diz sorrindo.

— E se a gente contar? Vai lançar magia na gente também pra nos forçar igual os outros? — Yugi diz cruzando seus braços.

— Que?! Não! Eu nunca machucaria vocês. — Rudano diz rindo de nervoso.

— E por que então você tá fazendo magia do caos, Rudi? Você disse que fazer magia é perigoso!

— É, e disse pra a gente não fazer magia também. Tá nos deixando fora da brincadeira, Rudano?! — diz Yugiki.

— Eu sei o que eu to fazendo, meninos!

— O irmão tem razão, magia é coisa do demônio mesmo! — Yugi diz.

— Ah, Yugi, não vem com essa!

— Venho sim! E eu não quero ver você machucando pessoas!

Rudano olha com curiosidade para o menino, como se estivesse o estudando.

— É mesmo? Você é estranho, Yugi. Deveria ser mais como seu irmão. — Ele diz apontando a mão para Yugiki. — Mas você é diferente… é mais humano. Você é muito parecido com sua mãe.

— Hã? Como assim? Com a mamãe?

Rudano sorri.

— É porque você é um menino muito sensível. Se importa com os outros. A Kiyoko teria orgulho de você.

Yugi fica com suas bochechas rosadas.

— Eu me importo… porque eu não gosto de violência!

— E assim você nega a única constante dominante no universo. — Rudano diz e se levanta da cama, seu corpo projetou uma sombra no menino. — Admito que admiro sua sensibilidade, mas tome cuidado para ela não ser a sua ruína, Yugi.

— Ei, Rudi, e eu? — Yugiki pergunta.

— Ah, você é do jeito que eu esperava que você fosse, Yugiki.

— Que? — ele pergunta curioso.

— Doidinho, só isso. — Yugiki riu pela a observação de Rudano. O adolescente olha para seu relógio de pulso. — Putz, já tá quase na hora daquela bosta de catequese. Vamos nos arrumar meninos, vou deixar vocês na capela e depois tentar relaxar um pouco.

— Você está bem, Rudi? Você vomitou sangue. — perguntou Yugi.

— Sim, é que eu exagerei um pouco… mas já me sinto bem. Eu acho.

— Exagerou sim, e eu espero que não tenha próxima vez!

— E eu espero que vocês nunca questionem mais minhas intenções! — Rudano diz franzino para Yugi e levanta a voz. — Tudo… absolutamente tudo que faço é para o nosso bem e de mais ninguém! Não vou ficar tomando sermão de pirralhos atrevidos que nada sabem da vida! Me ouviu bem, Yugi?!

— S—sim… — diz Yugi. Ele encolheu os ombros, assustado. Seus olhos lacrimejavam.

— Tsc… — Rudano se agacha, igualando sua altura ao de Yugi e pondo a mão em seu ombro. — Você sabe que eu amo muito você e Yugiki, Yugi. Vocês são meus priminhos… meus príncipes, são muito especiais para mim. — Ele diz em uma voz mansa. Rudano põe a mão no rosto de Yugi e o acaricia. Yugi olha para Rudano com seus olhinhos rosas brilhando. — Mas quando vocês erram eu preciso por vocês de volta na linha. Por nosso bem, tá bom? Lembrem—se que só eu quero o bem de vocês, mais ninguém. — Ele diz sorrindo. Yugi faz um aceno com a cabeça lentamente e Rudano se aproxima e abraça o menino. — Esse é meu menino… — Ele diz. Olhando para Yugiki, Rudano acena para ele com um sorriso e o menino se aproxima para abraçá—lo também. — Essa é a melhor coisa desse mundo… sentir vocês bem perto de mim.

— Eu fiquei com medo, Rudi… promete que não vai fazer de novo? — perguntou Yugi com a voz trêmula.

— Okay… eu vou tentar me segurar na próxima vez. Agora vamos…

E então, Rudano ajuda os gêmeos a por seu uniforme e os leva para a capela do orfanato onde eles teriam sua catequese. Na verdade, os gêmeos nunca passaram por uma catequese no orfanato. Tudo que eles foi ensinado a eles sobre a religião cristã foi durante as missas e sermões dos padres. Eles nunca participaram dos sacramentos cristãos e nem dos ensinos religiosos. A catequese para crianças começava aos sete anos de idade. Como os gêmeos já tinham essa idade, já passou da hora deles começarem os estudos religiosos para que eles pudessem ser batizados. O incidente na sala de aula com o Professor Haldol foi o estopim para que desse início ao processo que Rudano fazia de tudo para prolongar.

Sempre fazendo o possível para evitar o inevitável. Yugiki provocou o inevitável e o dia chegou, e Rudano teve que levar os gêmeos para a capela do orfanato, onde eles assistiriam a missa e teriam sua catequese.

Na frente da capela, Rudano e os gêmeos caminharam até a entrada. Já era possível ver o que tinha dentro dela. A capela era ornamentada de maneira simples. Havia um crucifixo grande no centro do púlpito e uma imagem de Nossa Senhora e de São José. A estrutura era pequena e havia duas linhas de cadeiras de madeira. Um lado era reservado aos meninos e o outro lado as meninas. A segregação de gênero era uma lei levada bem a sério no orfanato e reforçada pelo ensino religioso da igreja.

— Vocês podem ir. Não vou entrar nesse lugar amaldiçoado. — diz Rudano.

— Ah, Rudi, não pode ser tão ruim assim! — disse Yugi.

— Claro que pode, bobão! — diz Yugiki.

— Verdade. Vocês deveriam estar frequentando templos celestiais. Mas todos eles foram profanados e destruídos. Vivemos em tempos sombrios. — Rudano diz e dá um suspiro. — Enfim… não provoquem os impuros. Não quero ter que cuidar de bundinhas ardidas de novo, okay? — Rudano sorri para os gêmeos e eles o abraçam antes de seguirem para dentro da capela.

Rudano olha para dentro da igreja, vislumbrando o crucifixo. O grande crucifixo na parede. O corpo de Jesus, espancado e torturado, vazava sangue por todos os lados. Jesus não estava olhando para Rudano, seu rosto estava cabisbaixo, agonizando. Talvez a sua dor fosse grande demais para perceber os seus arredores. A dor nos cega. Nos torna outro tipo de pessoa, uma pessoa que não conhecíamos. A verdade era que ambos estavam sentindo dor. Porém, a dor de Rudano era interior. Seu coração estava em conflito, preso em um dilema que ele não conseguia resolver. Talvez fosse demais para um adolescente, mas Rudano já era um homem, um jovem homem. O incidente nos banheiros agravou os conflitos internos do jovem. A magia do caos… sua ânsia por poder. Ela resolveria sua sensação de impotência, mas a quem ele estaria entregando o destino dos gêmeos? Rudano temia os perder. Temia que a magia do caos o transformasse em algo que ele não reconhecia. E Yugi percebeu isso. Percebeu a súbita mudança. Leve, mas letal.

Bem aventurados os humildes de coração… pois eles serão consolados. Como depender de um cadáver pendurado em um pedaço de pau para ser consolado? Rudano não acreditava que um doente podia curar outro doente. Estando ao lado de pobres, miseráveis e doentes agravaria sua situação. Para ele, o cristianismo nada mais era um caldeirão de sentimentos piegas que seu orgulho pagão não admitia ter validade. E Rudano divagava e divagava…

Rudano dá as costas para a igreja e caminha de volta para o orfanato. Seu destino? O único santuário que para ele era aceitável em toda Urudânia: a biblioteca. Lá era seu lugar de repouso, ele podia se transportar para mundos diferentes do que ele vivia, longe da realidade malsã de Urudânia. Ele podia estudar sobre o passado de seu povo, mesmo que os livros estivessem cheios de propaganda anti celestial, Rudano ainda sim os consumia, tentando filtrar os fatos das mentiras perpetradas pelos autores impuros.

A biblioteca estava vazia. A maioria dos órfãos estavam em outros afazeres, missa ou trabalho. As estantes estavam cheias de livros, alguns empoeirados, outros largados nas mesas. Rudano foi até a seção de história procurar por algum livro de seu interesse. Depois de muito procurar, ele achou um livro com um título de “O Terror nos Espaços Yomi”. Lendo a contracapa do livro, ele descobriu que se tratava de um livro de história que conta a saga da Dinastia Yomi, a dinastia celestial que participou da Primeira Guerra Galáctica.

Rudano não gostou muito do título sensacionalista do livro, mas não tinha nada mais que havia despertado o seu interesse. Ele pegou o livro e se dirigiu até a mesa e começou a lê—lo. Ao abri—lo, Rudano sentiu cheiro de livro velho. As páginas estavam amareladas e o tecido que encadernava o livro já estava arrebentado. Não surpreendeu Rudano. Já se passaram mais de treze mil anos desde que a Primeira Guerra Galáctica estourou. Muito material foi escrito a respeito dela, mas dentro desta biblioteca, só existem os livros que contam a versão dos vencedores da guerra e não eram os Yomi.

O SERMÃO DO ARREPENDIMENTO

Os gêmeos entraram na capela, caminhando para sentar—se. Havia um leve cheiro de incenso amadeirado no ar. Os assentos ainda estavam vagos, semi preenchidos. As crianças ainda estavam vindo uma por uma. O monge preletor estava no púlpito ao lado de coroinhas fazendo os preparativos para a missa. Quem ia ministrar a missa e catequizar as crianças era o Irmão Kanon, o monge jesuíta preletor do orfanato.

— Para onde você tá indo? — Perguntou Yugiki a Yugi que estava caminhando até o altar.

— Eu quero sentar perto do altar. — respondeu Yugi sorrindo.

— Não! Nós vamos sentar lá atrás. — Yugiki puxou Yugi pela mão e conduziu seu irmão até os assentos perto da entrada da capela.

— Você é muito chato, Yugiki!

— Deixa de ser bobão, a gente é pagão! Era nem pra gente tá aqui!

Os gêmeos se sentam na cadeira de madeira na última fileira perto da entrada da capela. Mesmo assim, eles podiam ver o altar que tinha um grande crucifixo de Jesus cabisbaixo com seu corpo todo ensanguentado. Yugi fitou bem seus olhos na imagem. Ele parecia sentir-se compadecido pela pessoa que a imagem representava.

— Tá olhando o que, Yugi? — perguntou Yugiki.

— Aquela imagem parece ser real, né? — diz Yugi apontando para o crucifixo. — Ele parece ter sofrido muito.

— É, mas e daí? É um impuro. Ele merece.

— Eu sei, mas não gosto de ver nada sofrendo.

À medida que o tempo passava, mais crianças chegaram a se sentar nas cadeiras e preencher os assentos. Porém, nenhum menino estava sentado ao lado dos gêmeos. Havia um lugar vago ao lado de Yugi que estava sentado do lado de seu gêmeo. Nenhum dos meninos queriam compartilhar assentos ao lado dos gêmeos. Eles já estavam acostumados com a indiferença. Ainda sim, era melhor quando as outras crianças deixavam eles em paz. Era melhor do que suportar o ódio alheio.

Os gêmeos olharam para os cantos da capela, principalmente para o lado das meninas. Eles nunca tiveram contato com o gênero oposto, e as meninas despertavam neles curiosidade. Rudano dizia para eles que mulheres nem eram nada de especial, e que a falta de contato com elas não fazia diferença na vida dos gêmeos. “Vocês precisam se acostumar a viver juntos, só isso.”, ele dizia.

O irmão Kanon se aproxima do altar e faz um sinal da cruz. Depois ele estava sob o púlpito de frente para as crianças.

— Que a paz de Nosso Senhor Jesus esteja convosco, minhas crianças. — Irmão Kanon disse. As crianças retribuíram com “Amém”, mas os gêmeos não disseram nada.

A missa começou com orações em latim e ritualística desconhecida aos gêmeos. Todas as crianças haviam se ajoelhado no genuflexório adiante de suas cadeiras. Yugi se ajoelhou, assim como as outras crianças, mas Yugiki continuou sentado balançando as perninhas, indiferente às demandas do ritual. Tudo parecia entediante para ele, e até para Yugi de certa forma. Os gêmeos não conseguiram entender as frases dos irmãos que entoavam cânticos em latim e faziam gestos com as mãos. Estava difícil para o ritual ressoar neles.

Durante a entonação dos cânticos, uma menina se aproxima da fileira dos meninos senta ao lado de Yugi. O menino olha para ela espantado. Por que ela sentou ao lado dele? Ah, sim. Todos os espaços na fileira das meninas estavam ocupados. Talvez seja por isso que ela resolveu sentar ao lado dos meninos. Só que tem um porém, meninas não podem sentar ao lado dos meninos. Mas ninguém estava lá prestando a atenção para reprimir o ato daquela menina.

Yugi que estava ao lado da menina olhou para ela curioso. Sem saber o porquê ela sentou logo do seu lado. A menina olhou para Yugi com o mesmo sentimento, o de curiosidade e também de espanto. Nunca antes em sua pequena vida ela tinha visto um menino com a aparência de Yugi.

— Oi. — ela diz com um leve sorriso.

— Oi. — Yugi retribui.

— Por que você é branco assim?

— Eu tenho albinismo.

— Não sei o que é isso. — a menina diz.

— É uma doença que deixa a pele e cabelos brancos.

— Ata, é que nunca vi alguém como você. — ela diz. — Meu nome é Ariel, e o seu?

— Eu sou Yugi.

— Legal, Yugi. — Ela diz sorrindo.

— Com quem você tá falando, bobão? — perguntou Yugiki.

— Com a Ariel, a menina que sentou aqui do meu lado. — Yugiki olhou para a menina sem acreditar que ela era de fato uma menina. — Ei, Ariel, esse é meu irmão gêmeo, Yugiki.

— Oi, Yugiki!

— Ah… Oi. — Yugiki diz.

— Vocês são igualzinhos mesmo!

— É, não diga. — Yugiki diz.

— Yugiki! Seja legal com ela.

— Ela é uma impura, além de tudo é uma menina! Rudi disse que meninas não são importantes.

— Ei! Meninas são importantes sim, mais do que meninos. — Ariel diz.

— Não são, não! Meninos são melhores do que vocês!

— Ssssh! — um outro menino ao lado de Ariel fala.

As crianças estavam falando alto e atraem a atenção de Irmão Kanon que estava recitando cânticos olhando para os gêmeos. Seu olhar era de reprovação e foi o suficiente para reprimi—los.

Depois de terminar os cânticos, a capela ficou em silêncio. O irmão Kanon começou a falar sobre o sermão que ele daria para as crianças. Como o público dele era composto apenas de crianças, era de se esperar um sermão simples. O Irmão Kanon escolheu “arrependimento” como o tema de seu sermão e começou a falar.

— O arrependimento, meus filhinhos, é necessário para a salvação. Sem ele, continuamos no caminho do erro que nos leva ao inferno. Sem o arrependimento, nossos corações não se abrem para o amor de Nosso Senhor Jesus Cristo que ilumina a galáxia através de seu Reino. São João Batista tanto falou de arrependimento! Uma vez ele disse… “Arrependei-vos, pois está próximo o reino dos céus!”

— Esse tal de João Batista fala tanto de arrependimento, mas acho que ele nunca se arrependeu de ser um cristão! — Yugiki diz sussurrando. Yugi e Ariel dão risadinhas bem baixinho.

— Ora, o reino dos céus já veio e nós estamos vivendo nele neste exato momento. Nossa nação cristã, o Reino de Deus é a manifestação do reino dos céus no firmamento das estrelas. Todas as estrelas que vemos nos céus de Urudânia pertence a ele. Tamanho poder que nossa nação cristã totalista tem sobre a criação é a evidência de que Deus está do nosso lado. Ele nos abençoa e nos sustenta, faz nossos espíritos gritar com bravura contra a ira de nossos inimigos. E se nós, seus filhos, estamos morando no seu Reino manifestado agora mesmo, não podemos então perder tempo de nos reconciliar com Deus e seu Reino, sua Igreja… o arrependimento é uma qualidade de humildade. Nossa humilhação perante a Deus não nos rebaixa, mas nos eleva. Reconhecemos que acima de tudo somos reles pecadores, nascidos destinados a pecar e pecar e falhar contra Deus e suas leis. O homem sem arrependimento é um homem cego que caminha pelo firmamento seguro de si… mas o destino de todo o homem que acha que é auto suficiente é a ruína. O destino dele é o inferno. Meus filhinhos, não percam tempo de se arrepender. Sei que vocês possuem um coração puro e inocente, pois ainda são crianças, mas ainda sim, são sujeitas ao erro que pode custar suas almas… Que estas palavras sirvam de aviso para quando vocês crescerem. Que estas palavras ressoam em vossas almas todas as vezes que vocês tiverem vontade de pecar contra Deus, Cristo Jesus e sua Santa Igreja Totalista. Nós, os humildes servos de Cristo estaremos sempre dispostos a remover a mancha do pecado daqueles que se arrependem de coração, levando assim suas almas ao caminho da retificação… — o Irmão Kanon faz um sinal da cruz. — In nomine patris, et filis, et spiritus sanctis… amen.

O Irmão Kanon e os seus coroinhas começam os preparativos para administrar a eucaristia. As crianças da capela se ajoelham no genuflexório. Enquanto isso, os gêmeos e sua nova colega, Ariel ficam cochichando entre si.

— Que monte de baboseira que ele falou. — Yugiki diz.

— Eu gostei… — Yugi falou. Parece que Yugi foi o único em que as palavras de Irmão Kanon conseguiram ressoar em seu interior.

— Você tem que gostar de nada! Você é um pagão!

— Vocês são pagãos, meninos? — perguntou Ariel.

— Sim! Nós somos pagãos celestiais. — diz Yugiki entusiasmado.

— Ei, não! Eu não sou, não. Eu sou cristão. — disse Yugi.

— Você não é cristão coisa nenhuma! Se lembra que o Rudi disse que você sempre vai ser um pagão?! — Yugi fica cabisbaixo e franzino para o chão. — Você não liga da gente ser pagão, né, Ariel? — Yugiki perguntou.

Ariel sorriu para os gêmeos dando risadinhas.

— Vocês são esquisitos!

— Hã? — disse Yugiki.

Uma fila de crianças começa a se formar até o Irmão Kanon para entregar a eucaristia enquanto ouvia—se cânticos sendo entoados. As crianças saíram de seus assentos para formar esta fila. Yugi também se levantou e foi em direção a fila, mas Ariel chamou atenção dele.

— Yugi, pra onde você vai?

— Vou comer aquele pãozinho! — diz Yugi sorrindo.

— Você não pode, você é pagão esqueceu?

— Mas eu quero ser cristão agora…

— Você é batizado? — pergunta Ariel.

— Que é isso?

— Se você nem sabe o que é, então você nem deve ser batizado. O Irmão Kanon não vai te dar a eucaristia. Pagãos não podem receber ela. — diz Ariel.

— Ah, que saco! — Yugi diz e volta para seu assento.

— Você não é cristão, bobão! — Yugiki diz para o seu gêmeo que fica franzino para Yugiki.

O tempo passa na capela e a eucaristia é administrada a todas as crianças. As crianças retornam aos seus assentos, agora que a missa terminou. Irmão Kanon começa os preparativos para a catequese. Como o espaço da capela era pequeno, a catequese seria ministrada na própria capela para as crianças. Não havia o livro do catecismo, “O Catecismo Totalista” o suficiente para todos, então as crianças que tinham o livro começaram a compartilhar com os outros ao seu redor. Ariel era a única ao lado dos gêmeos que possuía o tal livro. Este livro de catequese era o livro padrão da Igreja Totalista, a igreja que dominava o império galáctico do Reino de Deus.

Ariel foi generosa em compartilhar o livro com Yugi que o inspecionou com entusiasmo. Yugiki olhou para seu irmão, franzino com um ar de reprovação costumeiro. Nada que ele podia fazer, se ele tentasse chamar a atenção de Yugi poderia trazer a atenção dos cristãos e os render mais castigos. Rudano havia alertado para não provocar mais os cristãos, mas Yugiki estava segurando—se muito para não explodir contra seu irmão que estava cada vez mais inclinado a aceitar ser cristão. Mas será que o interesse de Yugi era verdadeiramente genuíno? Apenas o tempo poderia dizer…

“NOS ADOREM…”

— Rudano… Rudano? — o adolescente houve alguém o chamando. Ele lentamente abre os olhos e percebe quem está adiante, era Dido, uma das monitoras do prédio das meninas.

— Dido? — Rudano diz fracamente. Ele olha ao seu redor, e parece que tudo ainda estava como antes. A biblioteca estava vazia, salvo pela presença de ambos os jovens. Rudano estava sentado e havia dormido com o livro agarrado em sua mão, apoiado em seu colo. Ele olha com sono para Dido. — O que faz aqui?

— Você estava dormindo. — ela diz sorrindo levemente. Dido senta do outro lado da mesa que Rudano estava. — A missa terminou e eu não te vi lá, então achei que você poderia estar aqui.

— Eu dormi muito mal hoje. — diz Rudano bocejando. — É, você sabe que não curto missas, né?

— Mas você tem que ir, Rudano. Pelo menos para não aborrecer os irmãos.

— Eles não me obrigam mais, então eu não vou.

Dido acena a cabeça reprovando Rudano.

— Mas por que não conseguiu dormir direito? Alguma coisa aconteceu?

— Sim, os gêmeos foram surrados pelo Haldol ontem. — Rudano mentiu, ele não ia dizer que o verdadeiro motivo era que ele havia estudado magia do caos pelo resto da madrugada.

— Nossa! Tadinhos… mas por que ele fez isso? Aprontaram?

— Sim, Yugiki defendeu nossa religião e o Haldol não gostou nem um pouco disso. Então eles tomaram uma surra de remo na bunda.

— Eu sei que Haldol é duro, mas Yugiki não é mole também. Não sou contra disciplina, a gente tem muita criança levada que merece uns tapas de vez em quando.

— Eu também não.

— Eu acho que o castigo tem que ser dado com a intenção de ensinar a criança, a gente não pode castigar para descontar a raiva nelas, entende?

— Sempre sensata, Dido! — Rudano diz sorrindo. — Bom, em tempos mais luminosos ser um pagão celestial não te rendia uns tabefes na bunda. Não acho que crianças tem que ser castigadas por serem pagãos. — Rudano diz. — A não ser que eles sejam cristãos! — ele ri.

— Você é bem escroto, às vezes, Rudano…

— O que? Vai ficar repetindo a mesma baboseira da Anna?

— Eu não apoio castigar crianças por causa da religião delas. Mas crianças precisam de disciplina. Uns tabefes na bunda de vez em quando não fazem mal.

Rudano ri.

— Pensei que você ia me dar um sermão dizendo que as crianças precisam ser castigadas para aprenderem a obedecer a igreja e os caralho.

— Eu não curto muito a igreja também. — Dido diz olhando para a porta, vendo se ninguém entraria para ouvir o que ela falou. — Eu acho que ela é muito… extremista, sabe? Acho que é isso.

— Opa! Então temos mais uma pagãzinha por aqui no orfanato?!

Dido riu.

— Não! Eu não sou pagã também. É que… eu não consigo acreditar em nenhum deus.

— Então você é uma ateia? Tsc… que posição mais paspalha em nosso universo, com tantos heróis e deuses por aí você escolhe o cinismo?

— Que adianta ter tantos heróis, deuses ou até mesmo esses santos da igreja se nenhum deles conseguiu até agora parar com o colapso do universo?

— As Guerras Solares não terminaram e ainda faltam alguns séculos até o universo ir de arrasta. — Rudano diz. — Provavelmente estaremos mortos antes do pior acontecer. — Sim… mortos e para onde vai nossos espíritos?

— Depende do que você acredita, do domínio em que você vive… como pagão celestial, eu iria para a morada dos deuses, o Tenkai se eu morresse em batalha como guerreiro, aí eu passaria a eternidade lutando ao lado deles. Como sou só um zé ruela qualquer eu deveria ir para Shionkai até poder reencarnar e voltar para poder morrer como guerreiro. Mas minhas convicções não adiantam nada quando eu estou morando em domínio de uma religião inimiga como o cristianismo totalista. Então se eu morrer aqui eu vou para o inferno cristão.

— Não sabia disso. Então não existe paz para os pagãos celestiais? Até no paraíso de vocês, vocês vão para a guerra?

Rudano sorri. — Não, a paz é sem graça.

— Nossa… — Dido diz assustada. — Ah, pelo menos eu não vou para lugar nenhum. Não acredito em nada.

— Seu espírito vai para os abismos. Não é um destino bom também.

— Os abismos? O que é isso?

— Uma dimensão trevosa reservada àqueles que não tem fé em nada. Ficam perambulando iguais baratas tontas até poderem reencarnar de forma aleatória.

— C—como você sabe dessas coisas? Nunca foi ensinado para gente nas aulas.

Rudano sorriu.

— Eu sou um Kyogami. Recebi educação do meu clã antes de vir para cá. — Dido olha para Rudano com olhos brilhando. Ela não queria perguntar mais sobre o clã dele, não queria ser invasiva. Ela sabia que Rudano sempre evita se aprofundar mais sobre seu clã.

Rudano quebra o silêncio de Dido.

— Sabe, Dido… eu acho melhor você ser cristã.

— Hã? Por que, Rudano? — ela ficou confusa, afinal, Rudano não odeia os cristãos?

— Você é mulher, nunca será uma guerreira, então mesmo sendo pagã você iria para o Shionkai, a dimensão dos mortos até reencarnar como um homem para poder morrer como guerreiro e ascender ao Tenkai. — Rudano diz. — Acho melhor você ser cristã. Morrendo como cristã você pode ascender ao paraíso deles, e se você for muito boazinha pode ser até uma santinha. Eu acho que assim você ficaria bem, você não iria para o inferno.

— Está preocupado comigo, Rudano? — Dido sorri.

Rudano fica corado.

— N—não… é que, ser cristã e passar a eternidade bajulando o deus cristão deve ser um saco… mas pelo menos você não vai ser torturada no inferno pela eternidade.

— Pois é, também não gosto da ideia do paraíso cristão.

— Estamos dentro dos domínios do deus cristão. Ou é céu, inferno ou abismo, não tem outra escolha.

— E você, não escolhe o cristianismo por que?

— Porque eu sou um Kyogami, um dos clãs de maior prestígio no império. Não vou me unir ao inimigo e desgraçar o nome do meu clã.

— Prefere a tortura eterna a morrer desonrado?

— Não, prefiro lutar… lutar e forjar meu próprio destino. — Rudano põe o livro em sua mão na mesa.

— Que livro é esse que você está lendo? — Dido pegou o livro da mesa e inspecionou a capa. — “Terror no Espaço Yomi”... você gosta de ler essas coisas, né?

— Mais ou menos, esse livro está cheio de mentiras, sensacionalismo e propagandas contra o Império. Eu não curti ele. Existem livros melhores sobre a Primeira Guerra Galáctica… eu já os li antes de vir para o orfanato.

— Eu estudei nas aulas de história sobre essa dinastia. Ela foi bem sangrenta e brutal, Rudano.

— Os Yomi fizeram o necessário para nos proteger de nossos inimigos na época. Não fizeram nada de errado.

— Ah, é?! Genocídios, massacres, escravidão e até estupros em massa nos defendeu do que, Rudano?! — Dido diz revoltada.

— Só morreram alguns trilhões, e essas coisas acontecem nas guerras, é normal. E você está falando como se o Império não tivesse sofrido tudo isso de nossos inimigos também.

— Mas foi nós que começamos!

— E daí? O direito dos fortes é fazer os fracos se submeter a sua vontade. Os Yomi controlavam toda a galáxia naquela época, foram o Império mais poderoso de todos. Eles não fizeram nada de errado.

— Se fossem tão poderosos assim não teriam perdido a guerra. Aliás, mereceram!

— Tsc… você pensa igual uma impuro. Não é nada diferente dos cristãos!

— Nossa, a Anna tem razão. Você é muito escroto, Rudano. A gente não pode apoiar essas atrocidades!

— E você já é basicamente uma cristã, vindo com esse papo piegas de compaixão e misericórdia para com inimigos enquanto eles nos torturam e matam! Pelo menos nós pagãos não somos hipócritas, mandamos nossos inimigos de volta para os seus deuses com muito prazer, sem fingir virtude!

— Eu só acho que matar é errado, independente de que lado seja!

— A violência é uma constante realidade na nossa vida. Em um universo cheio de guerras e destruição, temos que estar dispostos a matar para nos defender, e também para atingir a grandeza… no mais, eu te dei uma boa sugestão: corre logo para os braços do seu carpinteiro e seja feliz!

— Eu não vou discutir mais com você. Não foi para isso que vim aqui. — Dido diz franzino para Rudano.

— Então veio aqui encher meu saco para quê?

— Eu… — Dido diz dando um suspiro. — O seu aniversário está chegando, né? É daqui a três dias.

Rudano fica em silêncio por alguns segundos. Dido gravou o aniversário de Rudano certinho.

— Sim… e daí?

— O que você vai fazer, Rudano? Você vai ser obrigado a se alistar e entrar para a guerra.

— Não têm saída para mim… vou ter que sair do orfanato de qualquer jeito.

— O que vai fazer?

— Não sei… só sei que eles enviam os homens de dezoito anos para o quartel logo no dia seguinte.

— Que droga, Rudano. Então não tem jeito… — Dido diz. Mas talvez tenha, Rudano pensou consigo, mas não era só isso que preocupava ele.

— Eu não vou lutar ao lado dos meus inimigos. É que… eu sou um Kyogami… sou de um clã de guerreiros! Eu não deveria estar preso aqui nesse maldito orfanato! Eu deveria estar no campo de batalha lutando contra o Reino de Deus para restaurar o Império!

— Então… você vai desertar?

— Eu… queria. Mas não sei o que fazer. Eu fico muito preocupado com os gêmeos. Eles dependeram de mim a vida toda. Sem eu… eles vão ficar perdidos.

— Eu vou ser bem sincera com você Rudano… eu acho que você é uma péssima babá. Você deveria ter ensinado mais autonomia para eles deixarem de ser mimados. Tomar banho sozinhos, por exemplo. E tirar essa chupeta da boca do Yugi! Ele já tem sete anos!

— Eles são perfeitos do jeito que eles são! Eles não precisam mudar, Dido.

— Como assim, Rudano? Eles vão crescer um dia e você quer que eles fiquem bobões desse jeito até a idade adulta?

Rudano ri. — Eles não vão amadurecer. Mesmo que tentem. É inútil…

— É claro que vão, a vida vai empurrar eles de uma maneira ou de outra.

Rudano fica em silêncio por um tempo. Ele franzi seu rosto para a jovem. — Você não sabe nada sobre eles. Eu prefiro que eles permaneçam mimados, mesmo. Acredite em mim… assim eles vão dar muito menos trabalho.

— Eu duvido, vão crescer e ser adultos insuportáveis, Rudano! Você está criando monstrinhos mimados.

Rudano dá risadinhas.

— Ah, eles já são monstrinhos. Mas eu faço de tudo para eles serem monstrinhos felizes, sabe? Dou banho neles, limpo eles, visto suas roupas, dou vermelhinho pra eles… conto historinhas para eles… eu faço de tudo para os proteger desse mundo. — Ele fala em um tom entusiasmado.

Dido sorri para Rudano.

— Você os ama muito, né? — Mas depois ela fala em um tom sério. — Mas Rudano… seu tratamento não vai os proteger desse mundo. Só vai os deixar mais vulneráveis e bobocas.

— Eles sempre vão precisar de alguém cuidando deles. Eu não estou fazendo nada de errado.

— Por que? — Dido pergunta. — O que eles são, Rudano? — Sua expressão facial estava carregada de preocupação.

Rudano olha para Dido cabisbaixo. — Eles são meus primos, e eu os amo muito, só isso.

Nisso, Anna, uma das monitoras do orfanato das meninas, chegou na biblioteca olhando para todos os cantos. Quando ela viu a Dido sentada na mesa ao lado de Rudano, Anna correu em sua direção ofegante e com um sorriso em seu rosto.

— Dido! — ela diz e depois olha para o Rudano. — Eca! Você tá com o Tracinha. — Rudano levanta sua mão e mostra um dedo do meio para Anna. — Enfia esse dedo no seu cu, Tracinha!

— Eu prefiro enfiar no seu. — Rudano diz com um sorriso de deboche.

— Vai tomar no seu cu, seu escroto!

— Anna, chega! — Dido diz. — O que você veio fazer aqui?

— Ah! Eu tive te procurando por todo canto! Vem só ver, Dido! Os irmãos Matheus e João tão se beijando no pátio!

— O QUE?! — Dido diz estupefata.

— É isso mesmo, de língua e tudo!

— Caramba! Meu Deus! Digo… — Dido diz tampando a boca e de olhos arregalados de espanto.

— Vamos lá ver! — Anna diz.

Dido se levanta da cadeira e anda ao lado de Anna, mas Rudano também se levanta e segue as meninas.

— Ah, você também quer ver, Tracinha? Você gosta de ver homens se beijando, né? Viado! — diz Anna sorrindo de deboche.

— Por que? Tá com ciúmes que eu não vou poder te comer? Sua vadia!

— Vocês dois! Chega! — Dido diz.

Os três que estavam correndo pelos corredores do orfanato saem do prédio principal em direção aos pátios. Como a Anna sabia onde os irmãos estavam, ela estava liderando os jovens até a eles. Quando eles chegaram no local, eles viram que havia uma multidão de crianças ao redor dos monges que estavam sentados em um banco nos pátios do orfanato. As crianças mantiveram certa distância dos adultos. Elas estavam rindo e cochichando entre si, presenciando a cena dos adultos que estavam praticando atos libidinosos de beijos e abraços em pleno orfanato. Quando Rudano e seus colegas chegaram, eles pararam atrás da multidão, podendo ver toda a cena se desdobrar graças a sua altura que era maior que a das crianças. Os sóis binários do sistema de Urudânia, Yugi & Yugiki pairavam em cima das cabeças dos monges, dando um ar cômicamente romântico à cena.

— Viu? Não falei?! — Anna diz apontando aos monges e rindo.

— Caramba! Mas o que eles estão fazendo?! — Dido pergunta.

— Beijando, ué, eles estão assim faz um tempo.

Rudano põe a mão em seu queixo olhando bem para os monges, como se estivesse analisando a situação. Ele pensou que de fato, o Caos Imperial lançado contra os monges não cessou seu efeito, e não passaria de cessar a não ser que alguma antimagia fosse lançada contra os monges. Mas Rudano não sabia nada sobre antimagia e nem estava interessado em aliviar o fardo dos irmãos que o ameaçaram de o entregar para a inquisição. Certamente os irmãos ficariam loucos irreversivelmente para o resto de suas vidas.

— Rudano! Você tem que fazer alguma coisa! — diz Dido.

— O que? Nem fodendo! Deixa eles se divertirem.

— Mas eles não podem continuar fazendo isso! Olha, tem um monte de crianças olhando eles fazerem essa baixaria! — Dido diz.

— Não é problema meu. E é bom que as crianças aprendem que não existe só um tipo amor, não acha? — Rudano diz sorrindo.

— Mas tu é um viado, mesmo, Rudano. — Anna falou.

Ulrich, um dos monitores do orfanato dos meninos, chega correndo em direção ao Rudano ofegante. Ele observa a situação dos monges João e Matheus se beijando, mas parece que havia algo pior acontecendo que o fez vir até Rudano.

— Gente, por que eles estão se beijando?! — Ulrich pergunta.

— Os monges viraram viados, Ulrich. — diz Anna.

— Eles enlouqueceram?! Pelo jeito não são só os meninos… — Ulrich diz.

— Como assim, Ulrich? — perguntou Dido.

— Sete meninos estão pelados imitando galinhas e cachorros no orfanato dos meninos. Eles enlouqueceram! — diz Ulrich. Ele olha para Rudano. — Rudano, você precisa me ajudar a segurar eles!

— Cachorros?! Digo… como isso aconteceu?

— Não sei, eles estão loucos gritando e agredindo qualquer um pela frente. Precisamos levá—los a enfermeira agora! Anda logo, vem comigo! — Ulrich diz e começa a correr em direção ao orfanato.

— Querem ajuda? — Dido pergunta.

— Não, Dido. Isso é problema nosso, vocês duas chamem outros irmãos para cuidar das duas bixas velhas, aí! — Rudano diz e corre seguindo a Ulrich.

Dentro do prédio dos meninos eles entraram correndo em direção aos banheiros onde os meninos loucos estavam causando discórdia. Quando eles chegaram, Rudano pôde ver dois meninos andando de quatro e rosnando como cachorros e mais dois meninos se comportando como galinhas. Havia funcionários e irmãos do orfanato cercando os meninos para os impedir de fugir para outro lugar.

— Você cuida dos cachorros e eu das galinhas, Ulrich! — Diz Rudano.

Ulrich acena com a cabeça para Rudano e corre em direção aos meninos cachorros que estavam rosnando. Ulrich segura um dos meninos por trás, mas o outro menino cachorro corre de quatro em direção de Ulrich e agarra sua perna, mordendo—a. Graças a sua calça, Ulrich não sofreu dano.

— Me ajudem aqui! — Ulrich grita para os irmãos e funcionários que andam em sua direção e agarram o menino que estava o mordendo, fazendo força para o tirar de Ulrich.

Enquanto isso, Rudano corria atrás dos meninos galinhas que cacarejavam dando pulinhos de leve. Eles eram os mais inofensivos. Rudano conseguiu imobilizar, o que deu oportunidade o bastante para os outros irmãos encurralarem o outro menino galinha no canto da parede do corredor. Os dois meninos galinhas foram imobilizados, mas Ulrich ainda estava com problemas com o menino cachorro que estava mordendo o pé de sua calça com uma fúria selvagem e não o largava de maneira alguma.

A salvação para Ulrich se deu com as enfermeiras que chegaram ao lado de outros funcionários. As enfermeiras carregavam consigo seringas de tranquilizantes. Elas exigiram que os funcionários mantivessem os meninos imobilizados para aplicar a dose. O primeiro menino a receber a dose foi o menino cachorro que estava mordendo Ulrich. A sorte é que todos os meninos loucos estavam nus porque eles receberam o Caos Imperial enquanto ainda tomavam banho, então suas bundas estavam expostas o bastante, facilitando o trabalho das enfermeiras de aplicar os tranquilizantes.

Um por um, os meninos loucos receberam suas doses de tranquilizantes em suas bundas. Eles começaram a se acalmar lentamente. Aqueles que estavam imobilizando tiveram que esperar até a dose surtir algum efeito. O menino mais difícil de aplicar a dose foi de fato o menino cachorro que rosnava de raiva sem parar enquanto mordia Ulrich. Ele se acalmou durante alguns minutos depois da aplicação da dose. Tiveram que segurar suas duas pernas para aplicar a injeção em sua bunda. Depois os meninos galinhas receberam as doses e os funcionários conduziram os meninos loucos para a enfermaria por ordens da enfermeira chefe. Ulrich e Rudano ajudaram a carregar os meninos em suas costas até a enfermaria e os colocaram em suas camas. As enfermeiras usaram algemas presentes nas camas para prender os meninos nelas para evitar que escapem.

Porém, os quatro meninos loucos não eram os únicos, ainda restavam quatro que Rudano e Ulrich ajudaram o restante dos funcionários a imobilizar para que recebessem a dose. Mais uma vez eles ajudaram a os colocar em suas camas quando eles foram tranquilizados. Finalmente, todos os sete meninos haviam sido imobilizados e tranquilizados estavam deitados dormindo em suas camas. Todos os meninos estavam presos às suas camas para sua segurança e a dos funcionários do orfanato e dos outros meninos.

Ulrich e Rudano estavam conversando com as enfermeiras. Elas disseram que aparentemente os meninos tiveram algum surto psicótico mas não sabem dizer o motivo. Algumas outras enfermeiras mais religiosas disseram que se tratava de possessão demoníaca, e que era necessário esperar pelos exorcistas ou inquisidores para que tirasse os demônios dos meninos endiabrados.

Ulrich e Rudano ficaram observando os meninos nus em suas camas, dormindo calmamente, contrastando seus anteriores estados de loucura. Rudano com seus braços cruzados parecia estar analisando mais uma vez a situação. Estava claro que ele era o perpetrador de mais um incidente no orfanato. Seus estudos sobre magia do caos estavam de fato progredindo e rendendo frutos, frutos caóticos e caprichosos. Ele encontrou uma ótima oportunidade para testar seus estudos. Os irmãos João e Matheus junto com os meninos no banheiro serviram como ótimas cobaias para lançar os seus experimentos sobre magia do caos. De fato, magia do caos é um tipo de magia imprevisível e instável.

Quando Rudano ficou sabendo de Ulrich que os meninos estavam agora imitando cachorros ele ficou impressionado. Ele lembrou muito bem que todos eles estavam imitando galinhas, parece que os efeitos da loucura causados pelo Caos Imperial progridem de forma aleatória, fazendo as vítimas assumirem comportamentos inusitados e imprevisíveis. Os meninos então não se contentaram em imitar apenas galinhas, mas cachorros raivosos também. Porém, Rudano sabia que ele era apenas um mero neófito no caminho da magia do caos. Seus estudos ainda estavam no início. Ele sabia que precisava de mais cobaias para experimentar sua magia. Criar mais oportunidades que o exigissem usar a magia do caos de maneira que ele não fosse descoberto.

Porém é difícil usar a magia do caos em um orfanato lotado de crianças. O problema maior da magia do caos é que ela deixa rastros, rastros esses que o mago do caos não é capaz de controlar. A magia do caos emite uma energia chamada de radiação caótica, tanto no mago quanto no seu ambiente e em suas vítimas. A radiação caótica em altas doses pode se tornar fatal, causando mutações horríveis e surreais no ambiente, nas vítimas e até mesmo em seu usuário. Rudano sofreu os efeitos da radiação caótica quando usou o Caos Imperial em demasia, o que culminou nele cuspir sangue no banheiro. Quanto mais se usa magia do caos, mais radiação caótica é emitida, e mais próximo das mutações e da irreversível loucura um indivíduo fica. Rudano temia os efeitos colaterais deste tipo de magia, mas sua determinação para alcançar os seus objetivos o mantinha firme no caminho, talvez até cego. Ele sabia das lendas dos antigos Príncipes do Caos que serviam aos deuses Xon e como eles controlavam a magia do caos, evitando seus efeitos mais perversos como as mutações em seus corpos de alguma maneira, mas parece que era impossível escapar da loucura. Todos os magos do caos enlouquecem, pois este é o estado natural daqueles que ousam entrar por este caminho, o caminho dos deuses do caos Xon.

— Eu acho que isso tudo é culpa do mago do caos! — diz Ulrich rosnando de raiva. — Veja só o que está acontecendo, primeiro os meninos enlouqueceram, agora os irmãos João e Matheus também?!

— Seja lá quem for… esse cara deve ser um tremendo de um filho da puta. — Rudano diz.

— Sim… e eu vou fazer de tudo para que ele pague pelo que ele fez! Eu não sei quem é, mas não vou perdoá—lo por machucar esses meninos!

— Não podemos confrontá—lo assim direto. Esse mago do caos parece ser muito poderoso para nós.

— Fiquei sabendo da Junmi que amanhã os inquisidores vão chegar. Espero que eles ponham um fim nisso logo.

Rudano arregala os olhos surpresos. “Agora fudeu”, Rudano pensou.

— É mesmo? Achei que iam demorar mais.

— Não, ela pediu urgência. Agora é mais urgente ainda por causa do que aconteceu.

— É verdade. Não sabemos o que esse mago do caos quer… temos que destruí—lo antes que ele cause mais discórdia por aí. — Rudano diz e anda até a entrada da enfermaria para ir embora.

Porém, uma funcionária do orfanato estava gritando pelos corredores e chamou a atenção de Rudano e de Ulrich. Ela os disse para os acompanhar até os banheiros dos meninos. Eles correram até os banheiros dos meninos onde eles estavam tomando banho, agora vazio, ou era o que eles pensavam. E quando chegaram presenciaram uma cena surreal: os azulejos do banheiro estavam tremendo e mudando de cor repentinamente. Alguns dos azulejos estavam voando dobrados como se fossem papéis no ar. Haviam luzes piscando como um caleidoscópio no ambiente e uma neblina leve envolvia o chão do banheiro. Mas o mais marcante sinal estava nas paredes. Escritos de sangue de uma língua desconhecida foi pintado na parede, “崇拜我們”, estavam escritos em várias partes das paredes do banheiro. A escrita era estranha, era como se alguma criança tivesse pego um giz de cera feito de sangue e rabiscado as paredes inteiras do banheiro. Rudano e Ulrich podiam ouvir vozes infantis sussurrando palavras incompreensíveis junto com risadinhas agudas e às vezes guturais vindo dos escritos, e toda vez que elas falavam os escritos brilhavam como uma respiração.

— Eu vou ver o que é! — Ulrich diz e tenta entrar no banheiro, mas Rudano o pega pela mão e o impede de prosseguir. — O que foi?!

— Não entra, não! É perigoso! — diz Rudano.

— Por que? São só efeitos idiotas!

— Não são efeitos idiotas, imbecil! Esses são os efeitos da radiação caótica causada pelo mago do caos!

— E daí?! — Ulrich diz.

— E daí que você vai pegar radiação caótica! Quer ficar louco?

— Droga… — Ulrich diz rosnando de raiva. — Ei, Rudano, você sabe o que está escrito nas paredes?

— Sim… está escrito em celestial antigo. “崇拜我們” significa… “Nos adorem”. — Rudano diz. Ele era praticamente o único no orfanato capaz de compreender celestial antigo, a antiga escrita dos pagãos celestiais de Urudânia. Agora, apenas o alfabeto latino era usado ao redor da Dinastia Jugash.

— O que? Adorar a quem?

Rudano deu um leve sorriso em seu rosto.

— Aos Xon.

A IGREJA TOTALISTA

Após a tediante, missa que quase mata Yugiki de tédio, e aqui devo ressaltar, não há nada mais chato para Yugiki do que o tédio, os gêmeos tiveram que assistir também ao catecismo da “Santa Igreja”. Porém, este não era um catecismo comum a que nós estamos acostumados em nossa realidade. O catecismo deste universo é conhecido por ter sido desenvolvido pela Igreja Totalista.

A história da Igreja Totalista teve suas raízes no planeta Terra, planeta de origem do cristianismo. Ao contrário de sua vertente em nossa realidade, o cristianismo neste universo teve um êxito muito maior. Este sucesso se dá por alguns fatores: a ausência de reformas, como a reforma protestante, o que manteve a religião unida em sua única representante, a Igreja Católica, e também no fato dos estados continuarem professando o cristanismo católico como religião estatal. Com a consolidação de poder, deu—se portanto a necessidade de desenvolver uma nova doutrina espiritual e política que possibilitasse a expansão indiscriminada do estado católico. Um novo concílio foi convocado pelo então Papa da época para discutir as novas diretrizes da Igreja e seu papel no mundo. Foi favorecido a posição da facção que se denominava os “Totalistas” contra a facção reformista, os “Neo Apostólicos”. Os totalistas eram a facção com as visões mais extremas dentro da Igreja, eles acreditavam que a Igreja deveria formar um estado global onde os Estados Papais seriam o único a governar toda a Terra em nome de Deus. Com a adoção da facção totalista no novo concílio, novos papas desta facção foram eleitos, e assim, os Estados Papais abandonaram sua tradição de favorecer monarquias independentes e investiram em sua expansão territorial por toda a Europa e outros continentes. Dezenas de cruzadas contra pagãos e hereges foram declaradas, e as ordens militares monásticas passaram a ser vassalas diretas do papado. Eventualmente, após séculos de incessantes guerras contra os seus inimigos, a Igreja Católica destruiu toda sua oposição ao redor do mundo, instaurando uma teocracia global no planeta Terra. Com todo o planeta Terra conquistado e cristianizado, o Papa Pedro II declarou a instauração do Reino de Deus, a nação teocrática que governaria a Terra até o fim dos tempos, até a suposta volta de Jesus Cristo.

Com a conquista da Terra, a Igreja voltou seus olhos para as estrelas. O Reino de Deus passou a expandir—se para outros mundos, colonizando planetas outrora inabitáveis com o poder da oração que move montanhas e que manipulava a realidade ao seu favor. Porém, nem tudo estava de acordo com os planos dos totalistas. Com a colonização das estrelas, o Reino de Deus descobriu novos impérios estelares assim como ele que compartilhavam o mesmo objetivo de conquistar as estrelas. O Reino de Deus também descobriu sobre as Guerras Solares e a verdadeira natureza do universo. O universo em que vivemos é frágil e as estrelas precisam ser alimentadas para continuar vivendo, alimentadas por sangue através de sacrifícios direcionados ao Deus Sol que ocupava o Mandato Estelar ao lado do corpo cósmico, que era chamado de Urudanaon. Como os cristãos acreditavam que o último sacrifício terminou com Jesus, eles rejeitaram sacrificar para Gammadion, o último Deus Sol. Uma guerra entre o Sacro Império Celestial e o Reino de Deus estourou. O Sacro Império Celestial na época já estava em decadência. A Dinastia Liao se provou incapaz de se recuperar da devastação perpetrada pelos deuses do caos Xon e seus Príncipes. O Império caiu em ruínas e foi atacado por todos os lados pelos seus inimigos. Os Imperadores restantes tentaram resistir. Porém, mesmo com toda sua bravura o Deus Sol foi morto em batalha, e sua morte culminou na perda do Mandato Estelar, tornado—o vacante.

Com a morte de Gammadion e a destruição dos Liao, o Sacro Império Celestial colapsou em vários clãs independentes que guerrearam entre si para restaurar o Império, iniciando a chamada Era do Caos que os celestiais vivem até hoje. A então capital do Império, Urudânia foi cercada pelas forças do Reino de Deus em uma batalha sangrenta que durou por mais de dez anos, devastando o planeta por inteiro e resultando em bilhões de mortes. Após Urudânia se render, o Reino de Deus instaurou a Dinastia Jugash no governo do planeta como seus vassalos e responsáveis de cristianizar os pagãos do planeta.

Porém, ainda existem clãs urudanianos independentes pela galáxia de Ultima Fascis, eles são os remanescentes do extinto Sacro Império Celestial e os poucos que ainda professam a religião dos celestiais a quem Rudano quer preservar. Seu objetivo é restaurar o Sacro Império Celestial sob a égide de uma nova dinastia e assim recuperar o Mandato Estelar mais uma vez. Era ao lado destes clãs que Rudano gostaria de estar, não em Urudânia. Seu clã, os Kyogami foi massacrado durante o Cerco de Urudânia, sobrando apenas Rudano e os gêmeos… porém, o passado de Rudano e dos gêmeos ainda continua nebuloso.

Durante o catecismo, Irmão Kanon ensinou sobre os artigos básicos da fé da Igreja Totalista e sobre as rezas principais, O Credo Totalista, o Pai Nosso e Ave Maria, as orações que compunham a fé da igreja.

Yugi estava prestando bastante atenção nas lições, lendo junto com Ariel que estava compartilhando o livro do Catecismo Totalista ao seu lado. Enquanto ao seu gêmeo, Yugiki estava dormindo com a cabeça apoiada no suporte do banco em sua frente. Ele estava de boca semi aberta deixando sua baba cair no chão. Certamente, o tédio era o bastante para fazê—lo ir a um outro mundo.

— Será que eu posso falar com o irmão Kanon depois de terminar? — perguntou Yugi.

— Acho que sim, ele não deve ligar. — disse Ariel.

Depois da aula de catecismo terminar, as crianças da capela começam a sair uma por uma de seus assentos. Yugi deixou seu irmão gêmeo dormindo na cadeira enquanto ele decide junto com Ariel se encontrar pessoalmente com o Irmão Kanon que estava no púlpito organizando seus materiais.

— Benção, irmão Kanon! — diz Ariel sorrindo para ele.

— Oh, olá! Benção Ariel. — Kanon diz, mas ele olha para Yugi e logo muda seu tom. — Oh, você deve ser o…

— Yugi, irmão!

— Sim, como posso ajudá—los?

— O Yugi quer falar com você, irmão. — Ariel diz.

— É mesmo? Sou todos os ouvidos, Yugi.

— Irmão eu quero ser cristão, como faço?

— Glória a Deus! — Irmão Kanon diz entusiasmado. — Yugi, como você nunca foi batizado, nós o consideramos um catecumeno, um cristão em processo de conversão. Apenas continue frequentando as missas e a catequese que chegará o dia do seu batismo, e assim você estará oficialmente inserido na igreja!

Yugi sorriu e seus olhinhos rosas brilharam. — Então eu vou ser aceito de verdade? As pessoas não vão mais me machucar?

Irmão Kanon ficou em silêncio por um tempo. — Eu entendo o que quer dizer, filho. A sua aparência causa sofrimento, não é? Não sabemos o porquê de você ou seu irmão ser assim… mas com certeza a sua aparência é uma marca pagã. Acredito que sua aparência seja um teste para vocês gêmeos. O sofrimento traz grandes frutos, e como vocês carregam uma grande marca do pecado, vocês serão obrigados a carregar esse sofrimento pelo resto de suas vidas. O sofrimento que suportamos nos faz mais próximos de Cristo, pois Cristo sofreu por nós. E é por causa de seu sofrimento que você está aqui buscando por redenção, por alguma maneira de purificar a sua condição pagã. Creio que não é possível apagar a sua mancha pagã, mas se você dedicar sua vida a Cristo e a Santa Igreja, com certeza Deus lhe trará a consolação necessária para que você resista a todo o tipo de sofrimento.

— Então o que eu tenho que fazer para Jesus me amar? — Yugi pergunta.

— Jesus já te ama, ele ama a todos nós. Inclusive os pecadores que ele quer redimir através de seu evangelho redentor. Mas se você quer realmente estar ao lado de Jesus e receber a sua consolação… acima de tudo, filho, você precisa obedecer. Obedecer a Santa Igreja que Jesus instituiu para trazê—los a ele. Desta maneira você poderá ser chamado de cristão e ser irmão de trilhões de cristãos ao redor da galáxia! Você pode fazer isso, Yugi?

— Okay, posso sim! — Yugi disse sorrindo.

— Ótimo! Como você tem um nome pagão seria bom você receber um nome cristão para te preparar para o batismo. Ajoelhe—se, filho. — Kanon diz e Yugi se ajoelha diante do homem. — De agora em diante, você será chamado de… Gabriel.

— Gabriel? O que significa?

— “Deus é minha força”, é um dos arcanjos que servem a Deus. Inclusive, ele anunciou a vinda de Nosso Senhor a Virgem Maria.

— Legal! Eu sou Gabriel agora?

— Sim… seja bem—vindo ao catecumenato da Santa Igreja, Gabriel. — Yugi, quer dizer, Gabriel, faz um sorriso largo em seu rosto e seus olhos começam a lacrimejar. Irmão Kanon pega um colar de crucifixo de um de seus bolsos e o põe no em seu pescoço. — Que este crucifixo abençoado o proteja de todo o mal. Levante—se e vá adiante, Gabriel, filho de Deus. Deus te abençoe, in nomine patris, et filis, et spiritus sanctis, amen.

Irmão Kanon dispensa Yugi. O menino anda até o seu irmão que estava dormindo na cadeira ao lado de Ariel. Ele coloca o crucifixo por debaixo de sua camisa para ainda não expor o que aconteceu na capela ao seu irmão ou a Rudano.

— Yugiki! Yugiki! — ele chama atenção de seu gêmeo.

— Hã? Que foi? Já terminou? — Yugiki pergunta sonolento.

— Sim, vamo embora. Rudano deve tá nos esperando.

Yugiki se levanta e os gêmeos vão embora da capela ao lado de Ariel.

A EVACUAÇÃO DO PRÉDIO DOS MENINOS

Os gêmeos e Ariel saem da capela que dava vista para o pátio. Eles poderam ver uma comoção no pátio. Funcionários do orfanato carregando colchões dos quartos dos meninos em direção ao prédio do orfanato das meninas. Eles não conseguiram entender o motivo e caminharam em direção ao pátio para ver de perto o que estava acontecendo. Mas alguém chamou por eles por trás.

— Meninos! — Era Rudi que havia voltado do prédio dos meninos para buscar os gêmeos.

— Rudi! Que que tá acontecendo no orfanato? — perguntou Yugiki.

— Bem… estão evacuando o prédio dos meninos. Aconteceu um incidente lá.

— O que?! — perguntou Yugi. Ele já sabia que o “incidente” era obra de Rudano. Ariel observava a conversa com atenção.

— O banheiro dos meninos está corrompido por radiação caótica. Estão com medo de que a radiação se espalhe para todo o orfanato, por isso estão evacuando o prédio.

— Quer dizer que os meninos vão dormir com a gente agora?! — perguntou Ariel.

— Ah… sim, por enquanto. — diz Rudano.

— Ah, não! Ninguém merece!

Rudano levanta a sobrancelha para Ariel.

— E quem é você, menina?

— Ela é Ariel, Rudi! Nossa nova amiga. — diz Yugi sorrindo.

— Amiga? Vocês tem que fazer amizade com meninos, não perder tempo com mulheres!

— Ah, mas ela é legal, Rudi! Não seja chato!

— Tsc… tá bom. Dê adeus a sua amiguinha. Vocês precisam me ajudar a levar seu colchão para o prédio das meninas.

— Tchau, Ariel! — Yugi e Yugiki se despedem da menina. Yugi levanta a mão acenando a ela e ela retribui com um outro aceno.

Os gêmeos e Rudano caminham em direção ao orfanato dos meninos. Yugi estava particularmente prestando atenção nos funcionários que carregavam os colchões em direção ao orfanato das meninas. Ele pensava como seria dormir ao lado de meninas pela primeira vez em sua vida. Yugi não sentiu tanta dificuldade de se relacionar com elas, mas já Yugiki tomou as admoestações de Rudano ao pé da letra e preferiu manter distância delas.

Chegando no prédio dos meninos, o orfanato estava agitado com o trânsito de funcionários e outros meninos que ajudavam a carregar os colchões. Alguns deles gritavam, “demônios no banheiro!” enquanto corriam segurando os colchões.

Os gêmeos e Rudano chegaram no quarto sótão. Rudano andou até o colchão dos gêmeos e olhou para os meninos, seu semblante estava sério. Os gêmeos perceberam que ele queria falar alguma coisa.

— Meninos, preciso falar com vocês primeiro.

— Aquilo que aconteceu no banheiro foi por sua causa, Rudano? — perguntou Yugi.

— Sim, o Caos Imperial gerou radiação caótica no banheiro dos meninos. — Rudano cruzou os braços. — A radiação está pouca, mas foi o bastante para começar a alterar a realidade do prédio. Logo ela vai espalhar e consumir todo o edifício, até o ambiente ao seu redor…

— E agora, Rudi? Vamos ter que ficar dormindo no quarto daquela meninas chatas?! — Yugiki pergunta.

— Por enquanto, sim, só para manter as aparências…

— Ah, tá bom. Mas ei… a gente pode ver como tá o banheiro, ein? — Yugiki perguntou com um sorriso travesso no rosto.

— Não! — Rudano diz levantando a voz. — Pode aparecer coisas que vocês não devem gostar lá.

— Ah, não… — Yugiki diz.

— Então eu quero que fiquem longe do banheiro, e deste prédio também até… bem, eu não sei. — Rudano põe a mão em sua cabeça. — Meninos, eu preciso dizer algo a vocês.

— O que é, Rudi? — Yugi pergunta.

— Os inquisidores chegarão amanhã. Eles vão vir para limpar o orfanato da radiação caótica e… procurar pelo mago do caos do orfanato.

— Você, né, Rudano? — Yugiki diz sem surpresas.

— É, mas o que eu quero dizer a vocês é que eu vou ter que lutar contra eles.

— O que?! Mas por que você vai fazer isso, Rudi?! — Yugi pergunta assustado.

— É, você tá muito cheio de si! — Yugiki diz.

— Eu não tenho escolha! Os inquisidores estão à procura de mim e eles vão me achar de uma maneira ou de outra. E tem mais… eles não podem saber que vocês existem. Se te verem, eles vão te levar com eles.

Os gêmeos ficaram assustados. Yugiki engoliu sua saliva amedrontado. — Eles vão nos matar?!

— Admito que os irmãos do orfanato são piedosos com vocês, até porque a Senhora Junmi os protege, mas os inquisidores não terão clemência. Não se preocupem. Eu já tenho uma ideia de como despachar eles de uma vez por todas sem ninguém suspeitar de mim… então, é isso que eu queria dizer, meninos. — Rudano diz. — Mas se eu não voltar do orfanato amanhã… vocês sabem que o pior aconteceu.

— Não! Você vai dar uma coça nesses inquisidores, Rudano! Eu sei disso! — Yugiki diz.

— Sim, eu tenho fé que sim…

— Eu também queria falar uma coisa. — Diz Yugi timidamente.

— O que é, Yugi? — Rudano pergunta sorrindo calorosamente para o menino.

Yugi olha para ele com o rosto corado e meio entristecido. Ele sabia que o que ele ia dizer não ia agradar ao adolescente nem um pouco. Aquele sorriso no rosto de Rudano teria vida curta. — Rudano eu… virei cristão mesmo.

Rudano fica em silêncio por um tempo observando Yugi.

— De novo isso, Yugi? Quantas vezes tenho que dizer que você é um pagão?

— Mas não quero ser mais! O irmão Kanon disse que eu vou ser batizado quando eu terminar o catecismo.

— Você não vai! Eu te proíbo.

— Mas eu quero, Rudi! Eu não quero mais que as pessoas me machuquem por ser pagão! — Yugi diz com a voz trêmula.

— Como você é ingênuo… as pessoas não te odeiam apenas por você ser pagão. Será que você já se olhou uma vez no espelho, Yugi? Não importa que religião você professe, nada vai tirar de você a sua aparência e sua necessidade por… sangue.

— Mas o Irmão Kanon disse que se eu me converter eu vou ter vários irmãos ao meu lado! — Yugi diz.

— Não! Você não precisa de mais nenhum irmão! Só de mim! — Yugiki diz cruzando os braços de raiva.

— Está vendo? O que esses escravos do carpinteiro querem é nos dividir! — diz Rudano.

— Mas… eu quero… eu quero tentar! O irmão Kanon foi muito bom comigo! Ele me deu até um nome novo… Gabriel! — Yugi diz.

— Nome novo? Gabriel?! Tsc… não é possível. — Rudano diz. — Seu nome é Yugi, não “Gabriel”, moleque!

— E ele me deu isso aqui também! — Yugi diz e puxa o cordão do crucifixo que envolvia seu pescoço, revelando—o para Rudano e Yugiki.

Rudano arregala os olhos, não de espanto, mas de raiva. O menino realmente estava determinado a mudar de lado?

— Tire esse crucifixo maldito do seu pescoço, Yugi! — diz Rudano de uma maneira apressada.

— Que? Não!

— Tire agora, Yugi…

— É Gabriel! — Yugi diz.

— Tira agora! Ou se não… — Rudano gritou.

— Vai fazer o que? Me bater?! Eu não vou renunciar a Jesus! — diz Yugi em tom afrontoso.

Rudano sorri de nervoso. — Ora, seu pirralho… — Rudano diz e levanta seu braço em direção a Yugi e aponta seu dedo indicador a ele. Uma fina luz vermelha começa a irradiar da ponta de seu dedo. — …atrevido!

Yugi arregala os olhos amedrontado. Rudano estava apontando contra Yugi a sua magia, ele estava na mira do Caos Imperial.

O menino estava tremendo de medo e sua boquinha estava aberta de espanto. Rudano, aquele que sempre cuidou dos gêmeos com amor e carinho, agora estava ameaçando Yugi com uma magia perversa.

— Tire o crucifixo, agora Yugi. — Rudano falava sério. Seus olhos brilhavam com uma cor levemente vermelha e seu semblante parecia distante. Seu dedo que reluzia a uma cor escarlate ainda apontava ao menino que tremia de medo.

Yugi começou a chorar. Ele se sentia muito magoado pela pessoa que mais confiava no mundo. Já não bastasse o mundo o machucar, agora, Rudano parecia ter se juntado ao lado de seus algozes.

— Mas eu… por favor, Rudano… não! — Yugi diz choramingando.

Yugiki entra na frente de seu gêmeo e o cobre completamente. Ele estende seus braços aos lados, tampando o seu gêmeo e o guardando do ataque de Rudano.

— Você também, Yugiki? Também virou um cristão?!

— Não! Rudano… eu não vou deixar você fazer isso com meu irmão!

— Sai da frente, ou se não vocês dois vão sofrer juntos… “rir e chorar juntos”, se lembra?!

— Eu não vou abandonar meu irmão! Nunca! Eu sei que ele é um idiota e um bobão… a gente briga muito às vezes… mas eu o amo mesmo assim! — Yugiki diz com sua voz trêmula.

— Yugiki! — Yugi abraça seu gêmeo por de trás e Yugiki também o abraça. Os dois ficam abraçados juntos, tremendo e chorando na mira do Caos Imperial de Rudano.

— Então você vai continuar do lado do Yugi mesmo ele sendo um cristão, é isso, Yugiki?!

— Eu… não gosto disso! — Yugiki diz com sua voz trêmula e olhando para seu irmão. — Mas ele é meu irmão! Eu o amo mais que tudo!

Rudano faz um sorriso de deboche.

— O amor é uma ilusão… nunca conseguimos nada através dele. Apenas o poder nos torna grandes o bastante para esmagar todos os obstáculos… moleque imbecil! — Rudano diz.

— Rudi, você não é assim! Você sempre nos amou! — Yugi diz.

— Sim… e o que todo amor que te dei adiantou? Agora você se tornou um impuro, está do lado dos inimigos. O amor não resolverá isso… não serve para nada! Eu não vou perder mais ninguém que eu amo por causa da minha fraqueza! — Rudano diz. Sua voz estava trêmula e seus olhos lacrimejando. — Apenas o poder vai te pôr de volta na linha, Yugi…

O dedo de Rudano brilha intensamente. Os gêmeos fecham seus olhos, desesperados se abraçam forte e Yugiki levanta sua mão em direção ao jovem instintivamente, e quando menos ele esperava, Rudano dispara o Caos Imperial e atinge os gêmeos em cheio. Porém… os gêmeos foram subitamente envolvidos por uma aura vermelha com luzes piscando. O raio que saiu do dedo de Rudano atingiu diretamente a palma da mão de Yugiki e é refletido de volta para Rudano. O jovem arregala os olhos de espanto enquanto o raio é devolvido a ele, mas ele se move para o lado, desviando—se a tempo e o raio escarlate do Caos Imperial atinge o teto do quarto sótão atrás de Rudano, perfurando—a, fazendo o raio viajar para os céus afora do orfanato.

Rudano olha para o buraco no teto. Ele estava tremendo de espanto. O buraco fez a luz dos sóis binários de Urudânia penetrar no quarto sótão escuro em que os gêmeos dormiam. A luz vinha dos dois astros gêmeos, as estrelas binárias, Yugi e Yugiki. Sim, os gêmeos Kyogami foram batizados com o nome dos sóis que nutrem vida ao planeta. Yugi e Yugiki ainda estavam abraçados juntos, como as estrelas nos céus de Urudânia sempre estiveram. Os sóis banhavam os gêmeos com sua luz, deixando Rudano na escuridão. Eles mantinham seus olhinhos lacrimejados fixados em Rudano. O jovem estava cabisbaixo e de boca aberta, espantado pelo que aconteceu. “Eu ainda sou fraco…”, Rudano pensou.

— R—Rudano? — Yugi chamou.

— Eu… falhei, Yugi, Yugiki. Me perdoem.

— O que aconteceu?! Por que o raio voltou? — Yugiki perguntou.

Rudano riu.

— Parece que… eu errei a magia dessa vez. Que estranho, né?

— Mas você disse que a magia do caos não erra… — Yugiki diz.

— Pois é. Mas desta vez ela errou.

Rudano estava pensativo. Ele sabia que esta não era a verdade. A magia do caos, de fato não erra, o que acontece são os efeitos colaterais no de sua imprevisibilidade. Mas isso não significa que a magia do caos não pode ser bloqueada ou até mesmo repelida, até mesmo por uma outra magia do caos. O Caos Imperial atingiu em cheio os gêmeos, mas a aura misteriosa que envolveu eles refletiu a magia do caos de volta para Rudano. A única coisa que poderia repelir a magia do caos seria artefatos de antimagia ou então… outra magia do caos. Mas o que seria que fez os gêmeos serem protegidos? Rudano pensou que ele já sabia a resposta. Mas apenas pensar nela, pensar na verdade sobre os gêmeos Kyogami o aterrorizava, o deixava de olhos arregalados e um arrepio medonho em seu corpo.

— Você perdeu, não vai mais nos machucar, Rudano! — Yugiki diz em tom afrontoso.

Rudano começa a rir.

— É verdade. Eu perdi, vocês me venceram.

— Rudi, já chega! Nunca mais faça isso! — Yugi diz com a voz trêmula.

— Tanto faz… — Rudano diz. O jovem começa a andar até a saída do quarto sótão.

— Para onde tu tá indo, Rudi? — Yugiki pergunta.

— Eu vou deixar vocês em paz. Vocês… estão mais seguros longe de mim.

Yugi desfaz o abraço de seu gêmeo e corre em direção a Rudano. O menino abraça o jovem pelos seus quadris o impedindo de ir.

— Por favor, Rudi! Não vai embora! Não nos deixe! — ele diz choramingando.

— Yugi… eu sou perigoso para vocês. Vocês precisam seguir sem mim.

— NÃO! — Yugi grita. — Eu não quero que você vá! Fica com a gente… por favor!

Yugiki também corre em direção a Rudano e abraça o outro lado do jovem bem forte assim como seu gêmeo.

— Rudi… se você nos abandonar quem vai cuidar da gente?! — Yugiki diz choramingando.

— Quem vai nos dar banho? Nos limpar e vestir? — Yugi diz com a voz trêmula.

— Eu tô com fome, Rudi… eu quero meu vermelhinho! — Yugiki fala chorando.

— Eu quero que você conte a história que você prometeu, Rudi! Por favor… — Yugi diz choramingando.

— NÃO NOS ABANDONE, POR FAVOR! — os dois gritam em uníssono e pressionam seus rostos em Rudano.

— Oh, meninos… — Rudano diz com sua voz trêmula. — Eu… realmente não mereço vocês. — Rudano põe suas mãos no cabelo macio dos gêmeos, os acariciando. — Tudo bem, eu vou ficar com vocês enquanto eu puder.

— Não! Você vai ficar com a gente pra sempre! — diz Yugi.

— Eu não vou viver pra sempre, meninos. Mas eu vou cuidar de vocês enquanto posso, eu prometo.

— Rudi, eu tô me sentindo fraco… — Yugiki diz.

Rudano percebeu que logo Yugiki se enfraqueceu. Será que a aura manifestada por Yugiki exerceu um cansado demasiado para o corpinho do menino?

— Tudo bem, Yugiki. Eu vou pegar o vermelhinho de vocês. Esperem aqui sentados na cama.

Rudano desfaz o abraço dos meninos e caminha até a saída do quarto sótão e desaparece de vista.

Yugiki olha com raiva para seu gêmeo e cruza os braços. — Que história é essa de seu nome ser Gabriel?!

— Foi o nome que o Irmão Kanon me deu. — Yugi diz timidamente.

— Seu nome… é YUGI! — Yugiki grita. — Rudano disse que foi a mamãe que nos deu nossos nomes!

— Eu sei, mas agora eu sou cristão e tenho que ter um nome cristão. — Yugi diz.

— Você é muito tonto mesmo… por sua causa a gente quase perde o Rudano!

— Que?! Não foi culpa minha!

— Foi sim! Você e sua mania idiota de querer ser aceito por esses impuros! Você vai ver só…

— Vou ver o que?

— Você vai se arrepender! Eu… eu… — Yugiki diz choramingando. — Eu vou ficar longe de você.

— Tá bom! Eu também vou! Eu… eu vou ter… muito mais amigos e irmãos na igreja! Não preciso de você… só do Rudi! — Yugi diz choramingando.

Yugi anda até sua cama e senta nela. Ele olha cabisbaixo para o chão enquanto choramingava baixinho. Yugiki estava querendo ficar em pé, mas o menino estava se sentindo fraco. Seus movimentos estavam pesados e ele sentia uma leve tontura. Yugiki resolveu sentar na cama também, mas do lado oposto de Yugi enquanto a luz dos sóis de Urudânia iluminava o quarto sótão dos meninos. O quarto estava silencioso, era apenas possível ouvir os choros e soluços baixinhos de ambos que tentavam segurar o seu choro.

O tempo passou, e os gêmeos ouviram passos de alguém subindo as escadas. Era Rudano. Ele carregava consigo duas mamadeiras vermelhas e um caderno em seus braços. Ele sorriu calorosamente para os gêmeos que retribuíram com um sorriso de ternura.

Rudano sentou—se na cama. Ele deu as mamadeiras para Yugi e Yugiki. Yugiki prontamente começou a sugar o líquido, o sangue de galinha que estava dentro da mamadeira como se sua vida dependesse disso. Yugi mamava o recipiente timidamente, ao contrário de seu gêmeo, Yugi não estava se sentindo fraco ainda.

— Sentem do meu lado meninos. — Rudano diz com o caderno apoiado em seu colo. Yugi e Yugiki sentaram—se ao lado de Rudano. Yugi na direita e Yugiki foi para esquerda. Ambos inclinaram seus rostos em Rudano enquanto mamavam suas mamadeiras e balançavam seus pés na cama.

— O que que você tem, Rudi? — perguntou Yugiki.

— É a história que eu prometi a vocês anteontem. Se lembram?

— Ata! Sim. — Yugiki diz.

— É sobre o que? — Yugi perguntou.

Rudano sorriu.

— Vocês vão saber agora. Vou ler para vocês.

Rudano abre o caderno em seu colo. Os gêmeos estavam de olho no conteúdo do caderno. O texto estava escrito em celestial antigo.

— O que tá escrito aí, Rudi? — Yugiki pergunta enquanto mamava sua mamadeira.

— A Odisseia Geminiana. — Rudano diz. — É o título da história que estou escrevendo. — Rudano começa a ler a história para os gêmeos.

“Era uma vez dois irmãos gêmeos que viviam em um orfanato, sozinhos e sem ninguém. O mundo os rejeitava por serem especiais. Eles eram os menininhos mais lindos do mundo. Suas peles era puramente brancas como a neve e seus cabelos também, eram muito macios e fofos. Sua aparência etérea e delicada atraía a atenção de muitos, eles eram verdadeiros anjinhos de porcelana. Eles eram realmente meninos muito gentis e carinhosos. Mas mesmo assim, todos odiavam eles. Talvez por inveja, talvez por eles serem pagãos… talvez apenas por implicância. Os meninos não tinham ninguém com quem contar no orfanato. Até que um dia surgiu um jovem na vida deles que os acolheu com todo amor. O jovem cuidava dos gêmeos, dando a eles tudo que eles precisavam. Os gêmeos passaram a ser muito apegados a este jovem, porque ele era o único a quem os dava atenção e carinho.

Os anos se passaram e os gêmeos foram crescendo, e quando eles fizeram sete anos, os gêmeos descobrem um portal para um mundo surreal cheio de magia e aventura. Este mundo era repleto de florestas que conversavam, montanhas que dançavam, céus que mudavam de cor, ilhas flutuantes, chuva de groselha e lagos profundos… e não só isso, era habitado por seres fantásticos como dragões, fadas, gnomos e até mesmo brinquedos vivos!

Mas os principais habitantes deste mundo eram meninos, meninos iguaizinhos aos gêmeos! Nunca eles se sentiram tão representados em suas vidas, finalmente eles estavam ao redor de crianças que eram iguais a eles.

Mas nem tudo era felicidade e alegria, neste mundo habitava também muitos desafios, desafios esses que os gêmeos não conseguiriam superar sozinhos. Na sua jornada, os gêmeos fizeram muitos amigos, preciosos amigos que eles levariam pelo resto de suas vidas. Com estes amigos os gêmeos lutariam juntos para superar todos os obstáculos na sua frente. Os gêmeos juntos com seus amigos se tornaram heróis deste mundo, guerreiros cheios de bravura que inspirariam gerações de meninos à frente.”

Rudano fecha o caderno e olha para os gêmeos.

— E aí, o que acharam?

Yugiki estava mamando a mamadeira e tirou ela da boca, fazendo um som de “pop”.

— Eu adorei, Rudi!

— Eu também! — Yugi diz mamando a mamadeira.

— Ei, esse mundo existe mesmo, né? — Yugiki perguntou.

Rudano sorriu gentilmente. — Nossa imaginação é a nossa maior arma, Yugiki. Se imaginarmos um mundo como esse, ele existirá de verdade!

— Eu queria tanto ter esses amigos que a gente tem na história… — Yugi diz.

— É… meninos iguais a gente. Eu queria muito ver alguém igual a gente. — disse Yugiki.

Rudano se levanta da cama e depois olha para os gêmeos. — Bem, meninos. Terminem seus vermelhinhos, logo. Temos que levar seu colchão para o prédio das meninas.

Os gêmeos bebem suas mamadeiras mais rápido. Yugiki retira o bico e bebe da boca da garrafa e um pouco do sangue escorre em seu queixo. Yugi estava de barriga cheia e disse para Rudano que ia guardar o vermelhinho para mais tarde, mas Rudano falou que não seria bom ele ser visto bebendo sangue e mandou ele terminar de beber o resto.

Os gêmeos terminaram de beber seu “vermelhinho” e eles foram ajudar Rudano a mover o colchão pelo orfanato. Eles andaram pelos corredores do orfanato que ainda estava agitado. Os funcionários e outros internos entravam nos quartos e saíam com colchões para evacuar o prédio por completo. Era muito perigoso deixar os meninos dormindo no prédio agora que os banheiros estavam infectados por radiação caótica. Como pouca magia do caos foi usada no banheiro, pouca radiação caótica foi emitida. Rudano estimou que demoraria alguns dias até a radiação caótica consumir todo o prédio e se espalhar para o ambiente afora. A única maneira de repelir a radiação era usando artefatos de estabilização da realidade e antimagia ou então através de bençãos.

Quando os gêmeos chegaram no orfanato das meninas, os olhares se voltaram para eles. As meninas nunca tiveram oportunidade de vê-los tão de perto e elas ficaram curiosas. Quando eles passavam pelos corredores do orfanato, eles podiam ver os olhares esbugalhados de espanto das meninas. Algumas delas se juntavam entre si para cochichar e sussurrar comentários sobre eles enquanto davam risadinhas. Os gêmeos se sentiram como se estivessem sendo expostos como abominações em um circo. Rudano disse para os gêmeos ignorar as meninas sempre e nunca as dar atenção, “Elas são perda de tempo”, ele disse, o que gerou perspectivas diferentes nos meninos. Yugi acreditava que Rudano era chato demais, mas Yugiki concordava, talvez por um senso de rivalidade de gênero que era inato à mente infantil de Yugiki.

Os gêmeos e Rudano percorreram os corredores do prédio das meninas à procura de um espaço vago para pôr no chão o seu colchão. Todos os quartos que eles viram pareciam estar lotados de camas no chão. Eles conseguiram encontrar um espaço vago em um quarto no fim de um corredor. O quarto estava vazio, salvo por algumas meninas que estavam sentadas em suas camas. Ao contrário delas, que iam dormir em suas camas com seus estrados de metais, os meninos dormiriam no chão. “Esse é o lugar deles”, uma das meninas sussurrou para outra.

— Está tudo feito, meninos. — Diz Rudano colocando o colchão no chão.

— E agora, Rudi? — perguntou Yugi.

— Eu vou voltar para o nosso prédio, ainda tenho coisas pra fazer lá.

— Tipo o que? — perguntou Yugiki.

— Não é da conta de vocês. — Rudano diz. — Bom, eu vou deixar vocês por aqui. Amanhã de manhã eu volto para dar banho a vocês. E meninos, não dêem atenção às meninas, entenderam?

— Sim, Rudi. — Os gêmeos dizem em uníssono.

— Tudo bem… — Rudano se agacha ao nível dos gêmeos e um por um ele abraça e beija suas bochechas. Os gêmeos retribuem beijando Rudano juntos, um em cada lado de sua bochecha. Algumas das meninas que estavam no quarto deram risadinhas e sorrisos de deboche, a quem Rudano retribuiu franzindo seu rosto para elas.

O jovem se levanta e dá as costas aos gêmeos para ir embora do quarto. Mas Yugi chama a sua atenção.

— Rudi…

Ele vira em direção.

— Sim, Yugi?

Yugi estava olhando para o chão.

— Você ainda me ama? Mesmo eu sendo cristão? — ele pergunta timidamente.

Rudano olhou para os olhos de Yugi. — Sim, eu te amo, Yugi. Mesmo você sendo um… — Rudano deu um suspiro. — cristão. Mas vamos fingir que isso tudo não aconteceu, não quero saber mais disso. Não me vem com esse papo que tu é cristão de novo. — Rudano diz e dá as costas aos meninos mais uma vez. Yugi encolheu os ombros, não muito satisfeito com a resposta de Rudano.

Yugi e Yugiki são deixados sozinhos no quarto do prédio das meninas. E por falar em meninas, os gêmeos Kyogami despertaram a curiosidade das meninas que estavam observando—os de longe dentro do quarto.

O GRIMÓRIO DE MADDEL

Os funcionários já haviam levado a maioria dos colchões para o prédio das meninas, onde os meninos passariam a noite. Enquanto andava pelos corredores do prédio dos meninos, Rudano deu de cara com Ulrich que estava andando em sua direção. O orfanato estava com pouca movimentação. Mas Ulrich estava na frente de Rudano, o encarando.

— Para onde vai, Rudano? — ele perguntou.

— Meu quarto. Por quê?

— Eu fui ao banheiro dos meninos ver como estava a radiação. Parece que já está tomando o corredor inteiro.

— A radiação caótica é pouca então ainda deve demorar alguns dias para consumir o prédio inteiro. Talvez uns dois ou três dias…

— Como você sabe tanto dessas coisas? Digo, de magia do caos?

Rudano olhou bem nos olhos de Ulrich. — Não sei nada sobre magia do caos. O que sei são resultado dos ensinamentos que me foram passados quando eu era criança para combater qualquer ameaça caótica.

— Ensinamentos? Então te ensinaram magia do caos, né?

— Eu sou um Kyogami. Meu clã combateu as invasões dos deuses do caos por milênios ao lado dos imperadores e você me vem com essa picuinha de novo de que eu sou um mago do caos?!

— Relaxa, eu só tava fodendo com você. — Ulrich diz.

— Deveria me foder com o pau então.

Ulrich dá uma gargalhada.

— Não sabia que você curtia essas coisas. Além de pagão é viado também?

— Ulrich… eu sou pagão sim… mas mago do caos nunca! Nunca daria esse desgosto ao meu clã.

— Tudo bem, tudo bem. A gente pode ter matado a suspeita de que você é o mago do caos do orfanato… mas só ficou faltando saber se tu é viado, mesmo.

Rudano fica corado.

— Eu… cala a boca, seu arrombado!

Ulrich deu outra gargalhada enquanto andava em direção a Rudano e passava ao lado dele.

— Se não negou é porque tu é mesmo. — Ulrich põe a mão o ombro de Rudano. — É isso, Rudano, vê se você se cuida pra inquisição não te pegar, seu pagãozinho viado!

— Filho da puta… — Rudano sussurra olhando Ulrich se afastando cada vez mais pelo corredor.

O adolescente caminhou até o seu quarto, que por sorte estava longe do foco da radiação caótica que era os banheiros dos meninos. Ele podia passar o resto da noite em seu quarto, trancado e recluso da atenção de todos.

Rudano tranca a porta e senta em seu colchão no chão. Já era meio dia, estava na hora do almoço. Mas Rudano não sentia fome. Ele foi tomado por uma ansiedade do que ele teria que enfrentar amanhã. Os inquisidores sempre estão preparados para todo tipo de ameaça contra a Igreja. Eles são os perseguidores armados dela. Se Rudano teria que enfrentá—los, ele precisava estar tão preparado quanto eles. E para isso… a única coisa que poderia preparar Rudano para o pior era aquele livro que ele tanto guardava embaixo de seu colchão.

O jovem mais uma vez pegou o livro debaixo de seu colchão. O livro respirava lentamente, ofegante e ansioso para que Rudano o abrisse logo, como tivesse esperado por sua volta mesmo depois de tão pouco tempo. Rudano olhou bem para a capa de couro humano e o símbolo sinistro que estava estampado nela. Este livro tão cobiçado pelo jovem era conhecido como “O Grimório de Maddel”.

Maddel, Príncipe do Caos dos Xon. Ele foi apenas um menino, mas era um dos mais poderosos magos do caos de seu tempo. Lendas diziam que ele era capaz de distorcer a realidade ao seu redor de uma maneira tão caprichosa que poucos conseguiram replicar futuramente, e por causa disso, ele foi o favorito dos Xon por um tempo até o seu sumiço. Foi o autor de vários livros, um deles é o “Bestiário do Caos” e o seu Grimório que Rudano obteve antes mesmo de chegar ao orfanato.

O Príncipe do Caos foi conhecido por ter liderado a primeira invasão do caos que derrubou a Dinastia Yong, a primeira dinastia do Sacro Império Celestial. Os Yong eram uma dinastia poderosa, porém, não estavam preparados para repelir o terror que os servos dos Xon espalharam pelo império. Eles foram pegos de surpresa e não conseguiram conter os avanços das hordas do caos dos Xon. A queda dos Yong fraturou o Sacro Império Celestial em vários clãs e após séculos de disputa o império foi restaurado pela Dinastia Ning.

Enquanto ao destino final de Maddel, poucos sabem o que aconteceu com ele. Uns dizem que ele foi morto em uma disputa de poder dentro de seu próprio clã, o que é bastante comum entre aqueles que servem aos Xon. Outros dizem que sua própria magia do caos o consumiu por inteiro. Alguns mais otimistas dizem que ele se tornou um temido anjo do caos e foi viver pessoalmente ao lado dos Xon. De qualquer jeito, o legado do Príncipe do Caos ainda é perceptível até hoje, e milênios depois, Rudano estava segurando—o em suas mãos. E com o legado de Maddel servindo como base, ele forjaria o seu próprio na galáxia.

— Vamos ver… deve ter alguma coisa que eu possa usar. — Rudano fala consigo mesmo folheando as páginas do livro.

Rudano queria alguma magia que pudesse usar contra os inquisidores. Algo bem efetivo, que pudesse os despachar sem problemas, e principalmente, algo que penetrasse suas bençãos de proteção. Maddel viveu nos tempos da Dinastia Yong. O Reino de Deus, o império galáctico cristão que domina parte da galáxia hoje em dia, sequer existia naqueles tempos, portanto, Maddel nunca teve contato com cristãos para desenvolver e anotar estratégias para combatê—los em seu Grimório. Porém, não havia de fato necessidade para isso. Magia do caos é extremamente versátil, podendo ser aplicada em diversas situações. O problema maior da magia do caos é a sua imprevisibilidade e o alto consumo de meta-essência, fazendo o mago precisar reabastecer sua meta-essência para poder usá—la mais. E como é possível fazer isso? Bebendo sangue. Sim, a magia do caos também é uma magia de sangue, pois depende da meta-essência contida nos sangue como combustível para ser usada. E Rudano precisava estar preparado até mesmo para isso.

— Vamos, Maddel… seu bosta! Tem que ter alguma coisa… — Rudano continua folheando procurando por alguma magia de seu interesse, até que… — Ah! Isso, aqui! — ele diz apontando para o livro que começa a dar uma risada gutural da sua cara. — Cala a boca, merda.

Magia: O Caos Profano

Em minha campanha contra os Yong encontrei muitos obstáculos que precisaram de um jogo de cintura maior de minha parte, ou seja, distorcer e forçar a realidade de tal maneira que qualquer proteção contra a alteração seja inútil aos meus avanços.

O mago do caos para ter sucesso na batalha precisa distorcer a realidade, corromper o ambiente ao seu redor com radiação caótica para que o terreno tenha as condições necessárias o bastante para ele lutar. A radiação caótica é a maneira de manifestar a vontade e o domínio dos Xon na realidade, e é dentro dos domínios dos Xon que nós nos sentimos em casa.

Nesta campanha contra os Yong nós, os brinquedinhos dos Xon tivemos que lutar largamente em domínio inimigo. Isso quer dizer que tivemos que lutar contra vários tipos de magos, artefatos e totens antimagia que estabilizam a realidade e negam nossa magia, e também bençãos dos deuses celestiais que protegem nossos inimigos. Templos celestiais são especialmente potentes em repelir a radiação caótica, e precisam ter seus pontos de força destruídos fisicamente, ou seja, a boa e velha porrada nos ídolos celestiais até eles caírem aos pedaços.

Mas nem sempre temos oportunidade de usar força física para destruir os pontos estratégicos do inimigo. Nem sempre nossos canhões estão disponíveis ou carregados. É por isso que eu criei uma magia que entra em confronto direto com os pontos estratégicos do inimigo, os sobrecarregando. Este é o Caos Profano. Ele demanda muito foco e meta-essência do mago, então reabastecer a meta-essência é preciso para manter—se firme no combate. Qualquer mago do caos sabe como se recupera a meta-essência…

O Caos Profano inicia uma luta de vontades contra a vítima ou ponto de força que ousa desafiar a magia do caos. Portanto, a força de vontade do mago do caos deve ser superior ao seu inimigo caso contrário o Caos Profano voltará contra o mago.

É um custo muito alto lançar o Caos Profano. Nós implantamos esquadrões de magos do caos com o único propósito de lançar o Caos Profano e derrubar as resistências estabilizadoras de realidade dos inimigos que são muito poderosas. Com suas resistências quebradas, nós estamos livres para distorcer a realidade como quisermos.

Para lançar o Caos Profano… foque no artefato antimagia, ou em qualquer artefato estabilizador da realidade, ou no inimigo que utiliza tais ferramentas como se fossem o único obstáculo entre você e a sua glória em todo esse universo. Distorça a realidade ao redor de seu alvo até ele ou o artefato sobrecarregar e ser destruído. Seria bom lançar esta magia por um marotte porque o marotte amplifica nosso poder caótico.

E seja forte… muito forte. Caso contrário, você vai para o beleléu.”

— Marotte… não tenho esta merda. Como se faz? — Rudano começa a folhear o livro mais uma vez à procura da informação que ele queria.

O livro sussurra, “Página vinte…” e depois ele dá uma risadinha. Rudano folheia até a página vinte e encontra os caracteres dançando na folha até que elas estabilizam. O título “O Marotte” estava escrito em celestial antigo junto com uma ilustração do que parecia ser um bastão ou uma varinha de madeira com uma cabeça de palhaço sorrindo sinistramente.

— Página vinte? Você até que é mais útil que pensei, grimório do Maddel. — “Aaaah… obrigado”, o livro diz e depois dá uma risadinha.

Arma: O Marotte

A magia do caos é volátil e imprevisível e difícil de se controlar. Na verdade, não é possível controlá-la por inteiro, especialmente os efeitos da radiação caótica. Demanda muito foco e atenção para direcionar as energias caóticas sem se tornar vítima delas. O que queremos é que nossos inimigos sejam vítimas de nossas magias, não o contrário! Por mais que os Xon também se divirtam com nossa ruína, não vamos poder continuar entretendo nossos deuses caprichosos se estivermos mortos, não? É por isso que quando lançamos uma magia do caos o efeito pode ser imprevisível se não tivermos força de vontade o suficiente para controlar a magia; controlar a magia do caos é exaustivo a nossa meta-essência.

A maneira mais eficiente de canalizar as forças do caos é por um suporte que pode diminuir os efeitos colaterais da magia do caos no lugar do mago. Este é o marotte, nosso brinquedo mágico. Ele é um bastão ou varinha que age como catalisador de nossas vontades, manifestando nossas intenções na realidade.

O marotte deve ser encarado acima de tudo como uma muleta. Os magos do caos das antigas não usavam nenhum brinquedo mágico se não suas próprias vontades e encaravam as consequências da magia do caos com alegria e um sorriso no rosto porque eles sabiam que estavam agradando aos Xon. Mas eu sou da ideia de que se eu morrer cedo não vou poder continuar adorando e glorificando meus Xonzinhos. Portanto, criei o marotte para melhor canalizar as forças do caos ao meu favor. Espero que eles entendam, mas… eu percebi que o marotte não é capaz de nos proteger por inteiro diga—se de passagem. A magia do caos é brincalhona e travessa e pode nos enganar quando menos esperamos, é como se tivesse vontade própria. Uma vez eu lancei uma magia em um mago inimigo na Batalha de Jiangdu para ele diminuir de tamanho, para assim eu pudesse esmagá—lo. O que aconteceu de verdade foi que seu corpo se deformou tanto que ele se tornou uma abominação do caos de sete metros e atacou tudo em sua frente, inclusive meus soldados… eu tive que pôr um fim nele distorcendo a realidade ao seu redor de uma tal maneira que criou—se um vórtex do caos que vomitava radiação caótica aos extremos, fragmentando a abominação do caos em pedaços. Os pedaços manifestaram abominaçõesinhas bem fofinhas e pequenas que foram mais fáceis de lidar do que o gigante de sete metros. Mas o vórtex distorceu tanto a realidade do terreno ao redor que se tornou inviável lutar nele e tivemos que recuar da batalha. Tudo isso aconteceu com o marotte em minhas mãos. Mas foi tudo muito divertido! É muito legal sentir que às vezes você não está sob controle da situação.

Mas às vezes… a conexão entre marotte e mago é tão forte que ambos desenvolvem uma relação de simbiose.

O marotte pode de fato ser um bom aliado, aconselhando o mago ao mesmo tempo que ele tem a capacidade de manipulá—lo. Deve—se tomar cuidado com esta arma, pois usá—la de maneira demasiada pode torná—la senciente. É por isso que os magos costumam evitar nomear seu marotte para que ele não desenvolva consciência. O marotte pode ficar viciado na carnificina causada pelo mago do caos e vai exigir que o mago esteja cada vez mais investido em batalhas para saciar sua sede descontrolada por sangue. O marotte pode se rebelar caso o mago pare de matar, causando problemas ao mago. Marottes sencientes são melhores destruídos.

Para fazer o marotte é necessário canalizar sua vontade manifestando o objeto na realidade. Para isso, faz—se necessário distorcer a realidade, claro, a principal habilidade do mago do caos que eu já apontei. Distorcer a realidade trás radiação caótica, o marotte é formado através desta distorção. O marotte vai carregar a vontade do mago. Estará imbuído de radiação caótica e o próprio marotte irá acoplar na aura do mago, ajudando o mago do caos a distorcer a realidade ao seu redor. Magos do caos verdadeiramente poderosos se tornam uma usina ambulante de radiação caótica, distorcendo tudo ao seu redor com sua aura, se tornando uma habilidade passiva destrutiva e caprichosa. Criando vórtices, invocando entidades, corrompendo o ambiente, e muito mais! Tudo isso sem levantar um dedo. Esta é a vontade dos Xon, nossa alegria e nossa glória!”

— Okay… — Rudano fechou o grimório e o colocou no colchão. Ele se levantou e foi até a porta de seu quarto.

— Vai me abandonar? — Rudano ouve uma voz infantil choramingando atrás dele, e quando ele virou para trás ele viu que era o grimório falando com ele. — Me dá um beijinho vai… tô te ajudando tanto… — a capa do livro abre uma boca sorridente com dentes afiados e bota sua língua para fora desdobrando ela.

— Vai se foder. — Rudano diz com cara de desgosto e ele ouve o grimório gargalhando de sua cara. Ele destranca a porta do quarto e vai embora.

Rudano caminha de volta para os banheiros dos meninos. O corredor do orfanato que ligava ao banheiro realmente já estava tomado pela radiação caótica. Os efeitos já eram aparentes. Havia luzes de cores diferentes piscando no ambiente, as paredes pareciam respirar e sussurravam vozes infantis e incompreensíveis. Escritas de sangue em celestial antigo desenhadas na parede foram manifestadas. O sangue escorria pela parede e transbordava no chão.

Rudano chegou perto da porta do banheiro, ele pode ver um vulto preto que fugiu dele para o outro lado do corredor. Rudano perseguiu o vulto, mas ele não encontrou nada do outro lado do corredor. O outro corredor que dava ao banheiro também estava vazio e corrompido por radiação.

Quando Rudano entrou no banheiro dos meninos, passando pela entrada feita de boca pontiaguda, ele estava diferente de sua última visita. Haviam bocas sorridentes com dentes pontiagudos que rasgaram as paredes e no chão. Elas sussurravam palavras como, “Nos dê um beijinho…”, “Adore aos Xon…” ao mesmo tempo que davam risadinhas.

Rudano se aproximou de uma parede que tinha uma rachadura se abrindo, emitindo um fraco brilho escarlate. Ele pode ver por uma fenda na rachadura que havia um céu avermelhado por de trás da fenda. Uma leve brisa passava pela fenda como um suspiro. Subitamente, um olho azul gigante envolto de uma pálpebra branca como a neve surgiu atrás da fenda. Rudano tomou um susto e se cobriu ao lado da fenda para o olho evitar vê-lo.

— Ooooiiii! — uma voz infantil entusiasmada falou por trás da fenda. — Quem tá aí?

Rudano estava de costas grudadas na parede, respirando ofegante e de coração acelerado. Parecia ser alguma entidade do caos por de trás da fenda tentando se comunicar com ele.

— Ei, eu sei que tu tá aí. Por favor! Fala comigo… Maioral tá tão sozinho. — a voz se tornou trêmula.

Rudano não respondeu. Ele sabia que as entidades do caos eram imprevisíveis e perigosas. Era arriscado se comunicar com elas.

— Abre esse buraquinho pra mim, por favoooor? Maioral não conseguir abrir, não! — a voz infantil disse, mas Rudano não respondeu. Uns segundos se passou e a voz gritou. — Aaaaaah! Por que todo mundo abandona o Maioral?! — a voz infantil diz choramingando.

Rudano pode sentir a presença caótica se afastando do buraco. Deixando—o livre. Ele respirou fundo. A entidade o deixou em paz. Ele que não arriscaria olhar de novo para aquela fenda. Atrair a atenção dessas entidades do caos não era o que ele queria, pelo menos não agora…

Rudano sentou—se no meio do chão do banheiro e estendeu sua mão direita diante dele.

— Okay… vou fazer o meu marotte. — Rudano diz e visualiza um bastão na frente de sua mão.

O ambiente do banheiro passou a se desestabilizar ainda mais. Os azulejos passaram a piscar freneticamente e alguns deles voavam pelo ambiente como papel. As vozes passaram a ficar mais intensas e gargalhando sem parar. Adiante de Rudano, a silhueta luminosa escarlate de um bastão estava aparecendo. Lentamente ela foi se materializando, até que o bastão estava flutuando adiante de Rudano. Era um bastão vermelho com uma esfera em sua ponta inferior. No topo do bastão havia um rosto de um palhaço jester com um sorriso sinistro em seu rosto.

Rudano pegou o marotte e o inspecionou. Ele sentiu uma barragem de radiação caótica envolvendo o seu corpo que fez sua pele se arrepiar por inteiro. Parece que o marotte estava se acoplando em sua aura como Maddel havia dito em seu grimório.

Os olhos do marotte de Rudano brilham e ele dá uma risadinha. — Oi, oi, chefe Rudano! Vamos brincar muito juntos, né?!

— Hora de brincar! — Rudano diz com um sorriso no rosto.

O BEBEZÃO

Os gêmeos estavam sentados em seus colchões no chão após ficarem o dia inteiro brincando nos pátios do orfanato sozinhos. Já estava de noite e as crianças estavam se preparando para dormir. Yugi colocou sua chupeta em sua boca e começou a mamar nela enquanto se ajeitava na cama para poder dormir. Nenhuma criança se aproximou deles o dia inteiro, como de costume. Mas desta vez foi diferente. Enquanto eles estavam sentados em seus colchões, um grupo de meninas se aproximou deles. Eram três meninas que aparentavam ter um pouco mais de idade que eles, talvez oito ou nove anos?

Quando as três meninas se aproximaram, uma delas sorriu para os gêmeos. Os meninos olharam para as meninas curiosos e sem entender seus motivos.

— Oi, meninos. — ela disse.

— Hã… oi. — disse Yugi, mas seu gêmeo ficou calado.

— Eu sou a Manoela. — disse a menina que chamou a atenção deles. Depois as outras meninas se introduzem, seus nomes eram Isabel e Angela e eram amiguinhas de Manoela. — E vocês?

— Eu sou o Gabriel. — disse Yugi.

— Não! Você é Yugi, seu lerdo! — diz Yugiki raivoso.

As meninas riem dos dois.

— E quem é esse aí? — perguntou Angela.

— Ah… é meu irmão gêmeo, Yugiki. — diz Yugi.

— Vocês são engraçados! — diz Isabel com um olhar travesso.

— É, e por que você usa chupeta, Gabriel? — perguntou Manoela com um sorriso travesso no rosto.

— Eu gosto de usar porque… eu durmo melhor com ela.

Manoela e outras meninas dão risadinhas dá cara de Yugi.

— Isso é coisa de bebezão, Gabriel! — ela diz. — Você usa fralda também?

— Eu não sou um bebê! Eu só gosto de usar pra me acalmar…

— Se você não é um bebezão, então por que tá usando uma chupeta? — perguntou a Isabel. Yugi olha confuso para Isabel.

— E por que vocês são assim… branquelos, ein? — perguntou Angela.

— Porque nós somos especiais! — disse Yugiki. — Ao contrário de vocês…

— Olha, eles são especiais meninas! — Angela diz em tom de deboche.

— Eles são os demônios brancos! Que adianta ser especial se ninguém gosta de vocês? — diz Isabel.

Yugiki olha franzino para as meninas. — Suas bobocas… — Yugiki diz.

— Mas eu gostei deles, principalmente do Gabriel. — Manoela diz sorrindo. Yugi olhou para ela corado, é a primeira vez que uma outra criança no orfanato diz ter gostado dele. Ele viveu sua vida toda ao lado apenas de seu irmão e Rudano. Mas o que essa menina queria com Yugi, afinal?

Uma das funcionárias do orfanato entra no quarto das meninas e ordena a todas as crianças, meninos e meninas irem dormir.

— Amanhã a gente se vê de novo, tá bom, Gabriel? — Manoela disse.

— Tá bom… — ele diz.

As meninas vão para suas camas, deixando os gêmeos sozinhos deitados no colchão. Yugiki estava olhando com raiva para o seu irmão e cruza seus braços.

— Você não tem jeito mesmo, né?! — ele falou.

— Que foi? — Yugi pergunta, todo inocente.

— Rudano disse para a gente não falar com meninas! Aí tu vai e fala com elas.

— Mas a Manoela disse que gosta de mim, ela vai ser minha amiga. — disse Yugi sorrindo.

— Ela não é sua amiga, bobão! Só eu e Rudano que somos seus amigos! — Yugiki diz e fica bufando de raiva. — Deixa pra lá, Rudano vai te dar uma bronca mesmo. — Yugiki diz e deita virado de costas para o seu irmão.

— A gente não vai dar o beijo de boa noite? — Yugi pergunta.

— Pra que? Vai lá beijar suas amigas, então. — Yugiki diz.

Yugi fica cabisbaixo, mais um dia sem receber o afeto de seu irmão o deixavam tristonho. Ele pensou até quando isso continuaria. Parece que ser cristão abriu portas para novos contatos e amizades, mas ao custo do relacionamento que ele tinha com o seu irmão, e até com Rudano.

O menino deita-se virado de costas para o seu irmão. Sua mente divagando em vários pensamentos enquanto ele chupava sua chupeta lentamente. Talvez não fosse possível trazer seu irmão para o lado dele, mas ele ia tentar. Ia tentar porque o pensamento de ter seu gêmeo longe era agonizante para o menino. Mas ao mesmo tempo… Yugi queria tentar. Queria tentar ser uma pessoa diferente e finalmente ser aceito pelos outros, ter o reconhecimento de que ele não era uma abominação, e sim o menino especial que Rudano vivia dizendo, e assim, as pessoas finalmente o respeitariam pelo o que ele era.

Próximo Capítulo...