CAPÍTULO 2: A RECOMPENSA DE UM PAGÃO

A noite passou no orfanato. Centenas de crianças dormiram dentro das paredes que as protegiam do mundo à fora, as protegiam bem até demais, principalmente dois menininhos que dormiam no sótão deste vasto edifício.

Proteção… era isso que os gêmeos Kyogami tanto precisavam, pois ambos possuíam uma aparência frágil. Aparentemente, eles sofriam de uma variação severa de albinismo nunca antes registrada, e por isso necessitavam cobrir seus delicados corpos por inteiro para evitar que a luz do sol de Urudânia, que embora morna, machucasse sua pele frágil. Sua pele e seus cabelos eram brancos como a neve e seus olhos sensíveis à luz eram rosados. Eles necessitavam de proteção e cuidados especiais, ao contrário da maioria das crianças no orfanato. E em uma sociedade que enxerga defeitos genéticos como maldição, as chances dos gêmeos anjinhos serem adotados é praticamente nula. Ninguém queria meninos com tamanho defeito. Embora o albinismo não os impede de se movimentar, os cuidados que os gêmeos necessitavam os condenavam a viver uma vida sem família e longe da luz solar.

Uma coisa era garantida: o incessante bullying que eles sofriam no orfanato. Porém… nem tudo para esses meninos estava acabado, pois em um jovem estes gêmeos encontraram uma família para chamar de si. Rudano, seu primo e cuidador dos gêmeos, já que as outras cuidadoras no orfanato rejeitavam tratar de “abominações” como eles.

Era sabido por todo o orfanato que Rudano trouxe os gêmeos ainda bebês junto consigo para o orfanato Junmi a sete anos atrás. Ninguém sabe de fato suas verdadeiras origens, apenas que eles fazem parte do extinto clã Kyogami. Rudano nunca revelou suas origens e dos gêmeos fantasmas. A Senhora Junmi cansou-se de tentar extrair qualquer informação de Rudano que levasse as suas origens, sem se importar com os supostos traumas que os meninos poderiam ter passado.

Rudano, porém, sempre rejeitou qualquer terapia, preferindo manter a sua vida e a dos gêmeos antes do orfanato em segredo. Em um planeta devastado pela guerra civil sem fim que permeia o Reino de Deus, a Senhora Junmi já tinha uma vaga ideia de que os membros da família de Rudano e dos gêmeos já deviam estar mortos.

A vida para os gêmeos poderia ser muito mais difícil, com cuidados especiais que necessitavam e tendo que enfrentar bullies no orfanato, mas Rudano amenizava muito a ordália que os gêmeos passam. Embora que seus olhares cuidadosos não são sempre constantes. Suas tarefas como monitor o impedia de fiscalizar todos os movimentos dos gêmeos, os obrigando a se virarem sozinhos por uma certa parte do dia. Mas agora de manhãzinha não era o caso.

A rotina das crianças era monótona e repetitiva. No orfanato, os internos assistiam à missa matinal às oito da manhã. Depois disso, às nove, tinha aula. Os internos passavam o resto do dia fazendo atividades laborais com a intenção de prepará-los para a idade adulta. Para os meninos, aprendiam carpintaria, alfaiataria, agricultura ou artesanato. Alguns eram levados a fábricas como operários. Já as meninas aprendiam tarefas para introduzi-las como cuidadoras de casa, como costura, culinária, limpeza e outros serviços domésticos.

Os gêmeos não aderiram a nenhum emprego, a direção do orfanato não os queria expor por medo de sua aparência poder assustar os empregadores. Assim, os gêmeos passariam segregados do resto da sociedade. Sem a possibilidade de não serem vistos era difícil a prospecção de que os gêmeos seriam adotados no futuro por alguma família. Mas talvez para Rudano esse seria o cenário ideal. Ele não queria que os gêmeos fossem adotados por impuros.

Os gêmeos ouvem a porta do sótão se abrindo e alguém subindo as escadas. Com um sorriso no rosto Rudano aparece, e os gêmeos que estavam deitados em sua cama se ajeitam para sentar-se nela.

— Bom dia, meninos! — ele diz. Os gêmeos perceberam que ele carregava um livro em sua mão. Não era um evento raro.

— BOM DIA, RUDANO! — os gêmeos dizem em uníssono. Eles eram muito bons de sincronia. Eles pularam de sua cama e foram abraçar o jovem bem forte.

O jovem sorri.

— Mas que energia! Estou feliz que dormiram bem. — Mas o semblante vivaz dos gêmeos se transforma em rostinhos tristes.

— Rudi! O que aconteceu com seu rosto?! — Yugi pergunta perplexo.

— Quem te machucou, Rudi?! Eu juro que vou solar eles! — Yugiki diz revoltado e ainda por cima ameaçando o perpetrador que machucou Rudano.

Estas reações eram esperadas dos gêmeos, tamanho respeito e confiança que os gêmeos tinham em Rudano. Para eles, o jovem era o pilar de suas vidas. Rudano não era apenas um mero cuidador, ele era aquele que dava amor e carinho que faltava a estas crianças.

— Meninos… — Rudano diz e se aproxima mais, ele senta na cama e os gêmeos ficam lado a lado dele, Yugi a sua direita e Yugiki a sua esquerda. — Lembram—se do que eu disse a vocês que os impuros são violentos com nós? Os fiéis dos antigos deuses? — os gêmeos balançam e dizem um “sim”, bem enfático. — Então… Ulrich e Anna me atacaram ontem por defender nossa religião.

— O que?! — Yugiki diz perplexo. — Como eles ousam! Esses malditos impuros… — ele diz raivoso. — “Impuro” é o termo que Rudano usava para xingar quem era diferente dele que os gêmeos papagaiaram. Os gêmeos nem sabiam a real origem desse termo, que certamente não era pagão celestial.

— Sim… é por isso que eu digo para vocês NUNCA confiarem em impuros. Eles podem nos machucar por qualquer coisa.

Yugi ficou pensativo.

— Mas Rudi… será que não existem bons impuros também? — pergunta Yugi.

Rudano sorri ternamente ao menino. Ele não queria ser tão extremo depois de olhar nos olhinhos rosas e cansados daquele lindo menininho que amolecia seu coração.

— Claro que sim, Yugi. Existem bons impuros como a Dido por exemplo. Ela pelo menos não nos crítica e até tenta nos entender. Vocês podem confiar nela, tudo bem?

— E a história?! Você vai nos contar? — perguntou Yugi.

— Ainda não, meninos. Tenho que preparar vocês para a aula de história de manhã. Então vamos tomar um banho primeiro.

— Eu pensei que a gente iria para a missa… — Yugi diz.

— Sem missa por hoje.

— Mas os padrecos não vão ficar com raiva, Rudi? — disse Yugiki.

— Deixa eles. Na cabeça deles é melhor nos deixar, “colher o que plantamos” e ir direto para o inferno. Fazer o que, né? — ele diz sorrindo.

E assim Rudano estende as mãos aos gêmeos. Yugi na direita e Yugiki na esquerda e depois caminham em direção a escadaria do quarto, andando pelos corredores do orfanato que agora estava diferente da noite anterior.

Os meninos do orfanato andavam de lá para cá, cada um seguindo suas agendas. A manhã era hora do banho e do café da manhã no refeitório. Rudano costumava dar banho nos gêmeos, já que sua pele sensível requer um cuidado especial de higiene diária para evitar machucados e inflamações. Ele tinha o apelido de “babá” dos gêmeos, e as outras crianças costumavam chamar os gêmeos de “nenéns” de Rudano para a vergonha dos gêmeos. Porém, Rudano não se importava com a zoação das outras crianças. A falta de reciprocidade de Rudano fazia as crianças preferirem atormentar os gêmeos que ficam boa parte de seus dias longe da “saia” do jovem.

O banheiro dos meninos estava tumultuado como sempre, cheio de meninos despidos tomando banho nas duchas enquanto a água caía em seus corpos se juntando às bolhas de sabão que eram drenadas com a água pelo ralo. Todas as duchas já estavam ocupadas, menos as duas duchas no canto da parede que era reservado aos gêmeos. Sim, os gêmeos além de terem um quarto próprio para dormir no orfanato ainda por cima tinham um lugar reservado só para eles poderem tomar banho. Tamanho privilégio apenas por serem consideradas “abominações” pelos funcionários do orfanato e pelas crianças gerava inimizades com outros meninos que os enxergavam com inveja e ressentimento. Mas a verdade é que os gêmeos não tinham o espaço próprio deles à toa: a intenção era evitar que os “capetas brancos” se misturassem com outras crianças que os detestavam. O que era para ser um sinal claro de segregação por parte da direção do orfanato para preservar a integridade dos gêmeos culminou também na inveja dos outros internos.

Enquanto Rudano tirava as roupas dos meninos que estavam diante das duchas para tomar o seu banho, outros meninos que estavam já em seus banhos viraram seus rostos em direção aos gêmeos para zoá—los. Eles já sabiam quem eram, eram conhecidos pelo nome de Faber, Guilherme, Almofado e Rapha.

Nada se sabe sobre o nome real deles, mas esse quarteto são os bullies que costumavam atormentar os gêmeos, eles eram conhecidos como “os malfeitores” ao redor do orfanato, visitantes usuais da Senhora Junmi que os colocava em detenção por suas travessuras de mal gosto. Uma vez eles plantaram uma bomba de côco na bolsa do Professor Haldol, sujando todas as provas que ele havia corrigido. Os malfeitores ficaram em detenção por um mês depois disso. Durante esse tempo, os gêmeos tiveram a paz que eles não tinham, mas depois que eles concluíram a detenção, o porre de ter que aturar os malfeitores retornou. Porém, diante da presença de Rudano eles tinham pouco poder, mas fora dela, este quarteto de malfeitores era os algozes que faziam da vida dos gêmeos um pequeno inferno.

Rapha era um moleque perigoso, e sádico às vezes. Suas brincadeiras eram maldosas e ele tinha um maneirismo de chupar seu dedo que era motivo de piada entre os malfeitores.

Guilherme não era para nem estar nos malfeitores, dizem que ele era demasiado lerdo para fugir das traquinagens do grupo. Ele sofria de uns tremeliques de ansiedade por causa da falta de sono, o que fazia ele mal falar.

Almofado era de uma família de nobres, ou pelo menos é isso que ele diz, pois ninguém conhece a família de Almofado, nem ele mesmo. Mas os rumores foram o bastante para ele se achar superior aos outros malfeitores. Mas talvez havia algum fundo de verdade nessa lenda de Almofado, já que ele era o mais inteligente do grupo.

Faber era o executor do grupo e das ideias de Almofado, embora ele também tivesse as suas.

— Ei, são os capetas branquelos! — diz Faber.

— O lerdinho e o lerdão! — diz Rapha.

— Até o pinto deles não tem cor! — diz Almofado, ele era o mais esnobe da sua turma de bullies. Esse comentário fez o rosto branquelo dos gêmeos ficar corado.

— Ei, vocês! — Rudano chama atenção deles. — Não quero ouvir mais um piu, entenderam?! — Eles ficam em silêncio por um tempo.

Rudano já havia despido Yugi e o levou até a ducha onde ele estava ensaboando o corpo do menino com suas mãos e esfregando com delicadeza com uma esponja as partes mais sensíveis e os machucados. Logo depois Yugiki que era o mais autônomo dos gêmeos já havia ligado o chuveiro ao lado e já estava adiantando a vida para Rudano. Após ensaboar Yugi, Rudano permitiu a água retirar o resto do sabão de seu corpo ao mesmo tempo que ele foi esfregar o corpo de Yugiki. O corpo dos gêmeos era realmente frágil devido a sua condição inerente, mas não deixava de ser impressionante. A água que caía sobre seu corpo ajudava a dar um brilho que os faziam parecer tão etéreos e angelicais. Talvez as outras pessoas não tinham apenas ódio deles, mas também inveja por eles terem uma beleza tão celestial.

— Rudi, eles sempre enchem nosso saco quando você não tá com a gente! — diz Yugiki sobre o quarteto de malfeitores.

— É! E mesmo depois de você avisar a eles para parar! — diz Yugi.

— Eu sei meninos, mas eu faço o que posso. A Senhora Junmi já colocou tanto essa gente na detenção que ela já não sabe mais o que fazer.

— Expulsa esses idiotas então! — diz Yugiki.

— Não, por mais malvados que eles sejam, eles não merecem viver lá fora, meninos. Nenhum de nós merece.

— Pois eu acho que eles merecem sim! — Yugiki olha com raiva para os malfeitores que riam da deboche dele e de seu irmão.

— Eu sei que eles são difíceis, mas vamos concordar que sem eles as coisas aqui no orfanato seriam um pouco chatas, não acham? — Rudano pergunta sorrindo. — Afinal, alguém precisa plantar uma bomba de côco na bolsa do Professor Haldol e levar a culpa, né? — Os gêmeos dão risinhos para Rudano, parece que até eles concordam, pelo menos dessa vez. A existência dos malfeitores era de alguma forma útil.

Terminando de secar Yugiki, Rudano agora seca Yugi que estava a parecer pensativo.

— O que foi, Yugi? Tá meio sério. — pergunta Rudano.

— Ei, Rudi… o meu pinto é normal?

Os malfeitores acabam em gargalhadas e até Yugiki ri também tampando sua boca com a mão.

Rudano que também ri estava com o rosto corado junto com Yugi.

— Sim, Yugi. É normal como de todos aqui. — Ele diz secando seu cabelo. Ele depois envolve o corpo do menino na toalha. — Não se preocupe com essas coisas. Vocês não vão precisar disso mesmo. — A última frase de Rudano deixou os gêmeos confusos, mas eles não queriam fazer perguntas por medo dos malfeitores fazerem mais chacotas. — Agora vão para o seu quarto, me esperem lá.

Os gêmeos concordam com Rudano se despedem dele, andando para fora dos banheiros. Quando os gêmeos foram embora dos banheiros, Rudano se aproxima dos malfeitores com braços cruzados enquanto os meninos estavam se secando.

— Não quero que vocês fiquem de zoeira em cima deles, eu já disse isso.

— Tá bom, a gente não vai mais encher o saco deles então. — diz Guilherme.

— É mesmo? E tu vai fazer o que, ein? — diz Rapha.

— Vocês não vão gostar de saber, confiem em mim. — Rudano diz sério.

— Saber o que? — perguntou Guilherme.

— Saber o que ele vai fazer com a gente, retardado! — Disse Rapha.

— Tsc… vocês são muito lerdos. — Rudano diz em desdém andando até a saída do banheiro.

UMA AULA DE HISTÓRIA

De volta ao quarto dos gêmeos, Rudano ajudava eles a se vestir para poderem assistir a aula de história do professor Haldol. Yugi era o mais dependente e infantil dos dois gêmeos e precisava mais da ajuda de Rudano. O jovem vivia tentando ensinar a Yugi independência em como se vestir, usar o banheiro, tomar banho, trocar de roupa ou até comer, mas Yugi aparentemente era um menino que aprendia lento, e costumeiramente empregava todos os afazeres de maneira desajeitada, se vestindo errado ou se enrolando na roupa, deixando suas partes íntimas mal limpas após o uso do vaso sanitário, e por consequência é claro que ele não se lava direito no banho. Mas o que mais deixava Rudano impressionado é que nem comer direito Yugi conseguia. Ele tinha o costume de deixar comida cair na mesa ou então na sua roupa, o que deixava Rudano intrigado. A sorte é que seu babador bloqueava as piores manchas em sua roupa. Yugi tinha a coordenação motora de uma criança de um ano e meio, parecia um bebê que sabia andar, ainda que mal… e não apenas isso, Yugi ainda era dependente de sua chupeta. Sim, um menino de sete anos como o Yugi já deveria ter “desmamado” de sua chupeta, porém, não é o caso de Yugi que ainda se mantém comprometido em seu uso. Toda esta dinâmica com Yugi preocupa muito a Rudano, que teme o menino ficar sem apoio caso um dia ele não esteja mais por perto para nutrir os cuidados que Yugi e seu irmão precisam.

Já a questão com Yugiki é diferente. Yugiki era mais independente que seu irmão gêmeo, gostava de mostrar para Rudano que ele estava progredindo na sua independência. Yugiki sempre foi o mais esperto dos gêmeos, buscando sempre por validação de Rudano. Yugiki se importava com sua imagem e queria ser respeitado pelos seus pares no orfanato. Ele acreditava que se impondo contra os outros meninos ele seria respeitado, ou até mesmo temido. Não à toa, na ausência de Rudano, Yugiki costuma proteger o seu irmão gêmeo dos abusos dos bullies do orfanato. O que fez ele ganhar alguns hematomas causado pelos cascudos. Mas Yugiki sempre “caia atirando”, apanhava, mas também deixava seus inimigos com suas marcas de socos e chutes. Enquanto Yugi encolhia no cantinho esperando a porradaria passar, seu irmão estava fazendo seu sangue e de outros meninos respingar no chão. Os bullies costumavam chamar Yugiki & Yugi de “lerdão e lerdinho”, título que Yugiki detestava.

A verdade é que toda hora quando os gêmeos entravam em uma encrenca os dois recebiam a mesma punição, independente se foi um ou o outro que começou a briga. Òbvio que era, ou Yugiki ou os bullies que começavam a encrenca, mas as autoridades do orfanato não estavam interessados em punições justas, e sim em manter uma disciplina firme em um orfanato com centenas de crianças. A presença dos gêmeos angariava raiva das outras crianças que tinham inveja dos privilégios que os gêmeos tinham, como ter seu próprio quarto, mesmo que no sótão, longe dos quartos compartilhados das outras crianças.

Mas a verdade é que se não fosse pela constante encheção de saco que os gêmeos sofrem dos outros meninos, eles estariam vivendo nos quartos compartilhados ao invés do sótão. As autoridades do orfanato não queriam que os gêmeos sofressem assédio constante, isso diminuiria as chances dos gêmeos de serem adotados.

Dentro do orfanato, aos gêmeos era aplicada a lei “rir e chorar juntos”, ou seja, ambos deviam experimentar a dor e a alegria do outro, não apenas deviam, eram obrigados. Os castigos impostos aos gêmeos eram com frequência palmadas em seus bumbuns, o que deixava eles puramente vermelhos já que sua pele era puramente branca. Yugi abria seu berreiro sentindo a dor de ser espancado e a ardência em seu bumbum, já Yugiki costumava simplesmente engolir o choro e mais nada, afinal, não era bom para sua imagem chorar igual uma criancinha igual Yugi. No geral, os gêmeos tinham seus dias de luta e glória dentro do orfanato. Enquanto os bullies e as autoridades proporcionavam à luta, Rudano com sua contava histórias para os meninos repletas de feitos épicos e incríveis dos heróis de seu povo e religião.

— Ei, Rudi… no que você tá pensando? — Yugi percebeu que Rudano olhava sem rumo enquanto ele penteava seu cabelo, parecia que estava pensando em alguma coisa.

— Oh! Nada demais… estava pensando hoje a noite na história que vou revelar para vocês.

— É sobre o que, Rudi? — Yugiki disse.

— Já disse que vou revelar de noite, Yugiki.

— Que saco! — disse o menino.

— Também acho, Yugiki. Vamos conversar muito hoje à noite, por isso quero que vocês sejam fortes e sobrevivam aula do professor Haldol!

— Ah! Isso é moleza! — Yugiki diz. — Só vou virar meus olhos pro lado e fingir que vou ouvir a baboseira dele!

— Boa, Yugiki! Recomendo você fazer o mesmo, Yugi!

— Tá bom, Rudi! Não é como se eu gostasse do professor Haldol mesmo. — Yugi diz.

— Haldol é um impuro, não se esqueçam disso! Enquanto nós estivermos aqui temos que fingir que concordamos com eles.

— Mas Rudi… todos ao no orfanato são impuros menos a gente. — Yugiki diz.

— E Rudi, como vamos ser adotados se todas as pessoas lá fora são impuras também? — Esta foi uma pergunta que Rudano não estava esperando.

Para ser honesto consigo mesmo, Rudano já não tinha mais esperanças de ser adotado. Ele já tinha dezessete anos, já era tarde demais para ele. Mas no fundo, bem no fundo ele não queria ser adotado. Ele sabia que lá fora estava repleto de famílias de impuros, um povo que negou sua verdadeira fé pela religião dos conquistadores, os cristãos totalistas. Para que Rudano quereria fazer parte de uma família de impuros? A idade final permitida para ele continuar no orfanato era até seus dezoito anos, depois disso, Rudano teria que entrar no alistamento militar obrigatório para participar da guerra atual que o Reino de Deus está travando.

— Vocês não vão querer ser adotados por impuros. É melhor ficar nas ruas em vez de tentar ter relacionamentos com eles. Estão vendo isso daqui? — Rudano aponta para seu olho roxo, fruto do soco de Ulrich em sua cara. — É isso que os impuros fazem com quem discorda deles.

— Mas Rudi, se a gente não vai ser adotado, o que vai ser da gente? — perguntou Yugiki.

Rudano ficou em silêncio por um momento.

— Eu vou me virar, assim como vocês vão. — Rudano diz após terminar de ajeitar o cabelo de Yugi. — Bem, chega de falar sobre o futuro, isso me dá náusea… vamos. Vamos para sala de aula.

Os gêmeos ficaram sem entender. “Se virar” como? Sem Rudano? Viver nas ruas sem o aconchego do seu quarto e os cuidados de Rudano? Eles não levaram a sério as palavras do jovem, entraram por um lado e saíram pelo outro. Mas independente de tudo, eles obedeceram Rudano e foram para sua aula com o professor Haldol.

Passando pelos corredores do orfanato que já estavam vazios, aparentemente todos os meninos já estavam nas salas de aula. Os gêmeos corriam pelos corredores, preparados e apressados para pegar a aula do professor Haldol o quanto antes. E quando eles chegaram na porta da sala, professor Haldol estava no outro lado do corredor, com sua pasta de papéis aleatórios e com um semblante franzido. Ele era um homem que vestia um paletó marrom com uma calça marrom e sapatos pretos. Alto e com um rosto de poucos amigos.

— Correr pelos corredores é proibido, sabiam? — Ele disse. — Gêmeos…

— Perdão, senhor professor, Rudano estava nos preparando! — disse Yugi.

— É! E a gente foi liberado quase agorinha! — Yugiki completou.

— Vocês estão sempre se apoiando em Rudano. Quero ver até quando vocês terão ele para inventar suas desculpas! E quando chegar esse dia… vocês terão que se virar comigo. — Haldol diz. — Vamos, entrem!

Os gêmeos entram na sala de aula e são bem—vindos por um recital de meninos cantando uma canção não muito convidativa. É claro, os bullies usuais dos gêmeos, Rapha, Guilherme, Almofado e Faber faziam parte deste coro.

“Gêmeos, peguem seu prêmio

É um enigma do milênio!

Quem é mais bobão?

É o Yugi ou o lerdão?”

Após a cantiga de mau gosto, os gêmeos ficam parados na frente do quadro de rostos vermelhos.

— Eu sou Yugiki, não “lerdão” seus idiotas! — Yugiki percebe uma sombra cobrindo todo o seu corpo. Ele sabia de quem era a presença.

— Ei, Yugiki. Então eu sou o lerdinho? — perguntou Yugi, confuso.

— Cala a boca, Yugi… — disse Yugiki.

— Ainda bem que você sabe o seu nome, Yugiki. — Professor Haldol chega por de trás. — Acho que você e seu irmão devem saber onde é o assento de vocês, também. Sentem—se!

Os gêmeos andam rapidamente para seus assentos. Yugi ficava no assento à esquerda da sala na frente do professor, enquanto que Yugiki ficava no assento à direita da sala na frente da entrada da sala de aula. Foi feito assim para que os gêmeos ficassem afastados um do outro e para que eles pudessem interagir com outros colegas de classe. Os gêmeos não gostavam nem um pouco de ter que ficar separados. Tudo compartilhavam, até mesmo a cama do quarto e algumas roupas também, então eles achavam injusto ter que estar separados no local de ensino. Mas as autoridades do orfanato pouco importavam. Eles queriam manter a lei do “rir e chorar” juntos aos gêmeos, mas pelo menos aqui, no local de ensino, eles aplicavam uma folga a essa lei, e os gêmeos, agora riam e choravam separados.

A classe estava limpa, por enquanto. Nas salas de aulas das escolas da Dinastia Jugash sempre havia um retrato da Imperatriz Jugash ao lado do retrato sempre vigilante do Papa Pedro II, e acima no centro acima dos dois quadro abaixo de um crucifixo espiral, o símbolo principal da Igreja Totalista, a igreja que dominava o Reino de Deus.

O retrato da Imperatriz era de uma mulher vestindo as roupas imperiais da Dinastia Jugash que tampava até seu pescoço.

Já o retrato do Papa esbanjava uma impressão distante de autoridade e até de onisciência. Ele vestia uma máscara branca cobrindo totalmente o seu rosto e com um crucifixo espiral em cima de sua testa. Lendas dizem que ninguém até agora conhece a verdadeira face do Papa Pedro II, nem mesmo os cortesãos que moram com ele no Vaticano avistaram o seu verdadeiro rosto que permanece até hoje desconhecido após cerca de milênios de anos de papado.

O Papa é misteriosamente imortal. Ninguém sabe a razão de sua imortalidade. O Papa nunca tocou neste assunto e nunca fez questão de se justificar, e todos que o acusaram de ser um bruxo ou algo do tipo sofreram os piores castigos antes de serem mortos por apostasia, portanto, ninguém mais teve a coragem de questionar a longevidade imortal do Papa. Alguns dizem que é uma benção, afinal, tal servo de Deus com um papado tão bem-sucedido e com tantas vitórias adquiridas em nome da cristandade deveria ser imortal para que seu papado continue a perdurar pela eternidade.

O professor Haldol se levanta de sua cadeira e caminha até o centro do quadro. Olhos atentos para a turma que o olhava de volta com aquele olhar de entrega que os alunos fazem. Ele pede para que a turma feche os olhos e faça sinal de oração e toda a classe começa a rezar um pai nosso e três aves marias. Os gêmeos, por admoestação de Rudano não rezam nenhuma reza que não seja da religião deles, apenas fingem que rezam e quando são obrigados a recitar as palavras eles cospem no chão quando não são vistos.

— Bom dia, classe. — Ele diz. A turma se levanta de suas cadeiras e dizem em uníssono, “Bom dia, querido professor!” e depois se sentam de volta em seus assentos. — Vamos começar primeiro com nossa aula de História. Vou passar o conteúdo no quadro. Quero que todos vocês copiem. Vou dar vinte minutos para vocês copiarem e depois eu explico o tema. — Haldol se vira para o quadro e começa a escrever. “Guerras Solares e celestialismo”, ele escreve no quadro com o giz.

Os gêmeos ficaram intrigados. O professor ia falar sobre a história dos urudanianos, a raça que os gêmeos e inclusive todo o orfanato faz parte. Com certeza esta aula estaria recheada de propagandas do Reino de Deus sobre o povo que eles conquistaram. Mas é claro que os gêmeos não eram tão ingênuos assim. Eles foram lecionados antes de tudo por Rudano, que os alertou a nunca confiar nos impuros.

O professor começou a escrever no quadro e ao mesmo tempo os cadernos foram abertos nas mesas para copiar o conteúdo.

Yugiki nem se deu ao trabalho de abrir seu caderno para copiar. Ele sabia que aquilo tudo que o professor Haldol ensinaria seria nada mais do que mentiras sobre seu povo e seus deuses orquestradas pela Dinastia Jugash para solidificar o seu poder e controle sobre a população. Bem… essa explicação toda não passou com palavras tão complexas na mente infantil de Yugiki, “Que saco! Não vou copiar essas baboseira dos Jugash”, ele pensou.

Enquanto seu maninho copiava tudo que professor Haldol estava regurgitando com seu giz de cera no quadro, Yugiki viu seu irmão copiando tudo de maneira diligente. Olhando ora para o quadro ora para o caderno com olhar bem atencioso. “Que idiota! Rudano mandou não dá a mínima pra coisa de impuro!”, Yugiki pensou. Até que ele sentiu algo golpeando levemente sua cabeça. Ele ficou surpreso, e depois olhando para o chão da sala, ele viu uma bolinha de papel. Yugiki olhou para o fundão da sala, onde ficam os bagunceiros, ele viu Rapha junto com sua turba rindo da cara dele. “Idiota!”, Yugiki sussurrou. Ele viu Faber apontando para a bolinha e fazendo movimentos de abertura. Yugiki logo entendeu e abriu a bolinha. Tinha coisas escritas no papel, por sorte, Yugiki e seu gêmeo já sabiam ler, graças aos esforços de Rudano de ensinar os irmãos a ler o quanto antes. Rudano sabia que informação é o ativo mais importante em qualquer guerra. E como Rudano e os gêmeos declararam guerra, mesmo que silenciosa contra a Dinastia Jugash, Rudano sabia que fazer os gêmeos filtrar informações através da leitura era muito importante.

“Vamos pegar vocês no recreio!”, a carta disse com uma escrita bem rebuscada. Era um contraste interessante, aquele que escreveu é um bruto mas sua escrita emanava a elegância e beleza vinda de um poeta. Independente de tudo, a carta não agradou a Yugiki que olhou de volta para os garotos que estavam rindo dele no fundão da sala. A risada desses desordeiros atraiu a atenção do professor Haldol, que no mesmo instante virou sua cabeça para a raiz do problema: o fundão da sala.

— Faber, Guilherme, Almofado e Rapha! — O professor Haldol era mal de se lembrar de nomes, mas essa turma ele já havia decorado os seus nomes a muito tempo. — Eu só vou repetir o nome de vocês uma vez. Mais uma, eu vou castigar vocês na detenção! — Os olhos dos malfeitores usuais da classe de Haldol arregalam.

— P-pode deixar, fessor! — Não vai rolar mais nada. — diz Rapha, aquele que jogou a bolinha em Yugiki.

Yugiki sorriu satisfeito com a ameaça do professor. Ele voltou seus olhos ao seu irmão que ainda estava a copiar o conteúdo do quadro diligentemente da mesma maneira que ele tinha visto da última vez. A bolinha que Rapha tacou na sua cuca deu uma ideia ao menino que prontamente escreveu algumas coisas em seu caderno e após finalizar rasgou a folha e fez uma bolinha com ela. Yugiki pegou a bolinha embrulhada e tacou ela na cabeça de seu gêmeo. Yugi ficou confuso e seu rosto franzido procura pelo perpetrador que tacou a bolinha nele e seus olhos se encontram com os do seu irmão que faz um movimento de desembrulhar e aponta para a bolinha nas mãos de Yugi que entendeu que ele tinha que ler, “Não copie as coisas dos impuros, maninho!”, estava escrito no papel. Yugi franziu para seu irmão e embrulhou o papel de volta ao formato de bolinha e tacou ele no cestinho de lixo e voltou a copiar o conteúdo do quadro. Yugiki olhou para seu irmão sem entender e apoiou seu rosto na palma de sua mão e com a outra mão ficou dedilhando na sua mesa.

O professor Haldol havia terminado de transcrever o conteúdo de seu livro no quadro. Faltavam alguns minutos para o prazo de vinte minutos dado pelo professor terminar. O restante da aula seguiu—se em silêncio com alguns ocasionais ruídos do grafite colidindo nos papéis dos meninos que copiavam o conteúdo.

— Pois bem! — professor Haldol disse fechando um livro que ele estava lendo enquanto a classe copiava. — Quem ainda não copiou tudo vou dar mais um tempo depois que eu terminar a explicação. Quero que prestem atenção agora em mim e no que eu vou dizer porque esta aula é muito importante e nem tudo está no livro de vocês que não é atualizado faz um tempo.

O professor dá uma breve pausa e resume.

— Vamos falar hoje sobre as Guerras Solares, a Dinastia Liao e a sua antiga religião que governaram Urudânia e o Sacro Império Celestial, chamada pelo nosso glorioso Reino de Deus de… “celestialismo”. Para entender todo o conflito anterior e o atual que estamos passando, vamos ver primeiro o que são as Guerras Solares… alguém tem alguma ideia do que seja?

E o professor não conseguiu nenhuma resposta.

— Bom, as Guerras Solares são o conflito entre deuses diferentes pela reivindicação do Mandato Estelar. Pretendentes ao mandato e seus exércitos guerreiam entre si nas Guerras Solares para se tornar o único Deus Sol… aquele que nutre a vida de todas as estrelas do nosso universo prevenindo assim o seu colapso total e a Escuridão Eterna. Gammadion, um deus pagão da guerra e do sol foi o último Deus Sol e foi adorado através de múltiplas dinastias urudanianas por milênios após ser destruído na Batalha de Xindi pelo glorioso exército de nosso Deus… o que acontece após um Deus Sol ser destruído? Alguém sabe?

— O deus que destruiu ele vira Deus Sol, professor? — Um menino pergunta após levantar sua mão.

— Não, Guagua. Não funciona assim. Os pagãos acreditam que, após o Deus Sol ser destruído, as estrelas do universo conseguem viver por apenas seiscentos e sessenta e seis anos até que outro deus consiga reivindicar ser o soberano do Mandato Estelar e continuar nutrindo-as com vida para não haver o colapso universal. Não basta apenas destruir o Deus Sol… é necessário reivindicar o Mandato Estelar. E, para ser elegível a esse mandato, um pretendente precisa acumular o máximo de sacrifícios possível em seu nome como Deus Sol. Sem isso, o Mandato Estelar continua vacante, e as Guerras Solares não terminam…

Um aluno levanta a mão para cima.

— E professor, o que acontece se esses anos acabarem antes de algum deus conseguir ser o Deus Sol?

O professor respira fundo. Ele sabia que esse era um tópico sensível para ser discutido, mas era necessário.

— Bem, Anqin… os pagãos acreditam que, com o passar dos séculos, a luz das estrelas que nos dão a vida irão lentamente desbotando até que as estrelas se apaguem por completo. Não haverá mais luz no universo, apenas trevas. Essa é a Escuridão Eterna que trará o colapso do universo e de toda vida.

A classe inteira arregala os olhos e muitos ficam estarrecidos. O professor falou sério e não estava brincando, sim, o professor Haldol jamais brinca de fato. Ele é um chato e jamais poderia estar brincando com isso. O universo inteiro colapsaria caso nenhum deus conseguisse assumir o Mandato Estelar, e o mero fato de todo o universo cair em trevas é amedrontador. Imagine as criaturas horríveis que começariam a espreitar nas trevas. Isso não podia acontecer, e muitos dos meninos na classe sabiam disso!

— Então é por isso que a luz dos nossos sóis são fracas, professor?

— Não! Nada a ver, Guagua. A luz dos sóis não está fraca. Isso é superstição pagã! Não há necessidade de pânico. O universo não vai colapsar em tantos anos. O universo jaz no maligno porque ele está repleto de pagãos! Mas o santíssimo Reino de Deus está convertendo todos os iníquos a verdadeira religião. Só assim… o universo será salvo de toda sua natureza pecaminosa!

A classe inteira parece ter se aliviado um pouco com a elevação de moral do professor, embora nem tanto.

— Mas professor, por que os outros deuses inimigos não dão o restante dos pilares para Nosso Deus? Eles preferem ver o universo todo ir de arrasta por picuinha com a gente?! — Um dos alunos se levantou e fez essa pergunta de maneira revoltada.

Professor Haldol entendeu a revolta dele.

— Como eu disse, Gunmin… o universo não vai colapsar. Isso é uma mentira pagã. Mas voltando a sua pergunta… nós não precisamos conquistar os pilares porque nós sabemos que eles são meras superstições pagãs. Nós ainda temos muitos inimigos, e infelizmente, depois da morte de Gammadion ainda restam alguns pobres infelizes em algumas partes da galáxia de Ultima Fascis que ainda acreditam nos antigos deuses celestiais e não são servos de toda majestade de Deus. — Yugiki franziu seu rosto com raiva. Ele sabia que ele era um desses “pobres infelizes”. — Mas não se preocupem, todos os servos dos falsos deuses pagãos serão eliminados.

— É MENTIRA! — Yugiki, se levanta olhando para o professor Haldol borbulhando de raiva. Seus dentes rangiam e suas mãos estavam tremendo. — Quem serão eliminados… serão TODOS VOCÊS, impuro! — ele termina de gritar.

A sala toda estava em silêncio mortal olhando para Yugiki com atenção. Yugi olhava para seu gêmeo estarrecido com olhos arregalados, “Yugiki, não!”, Yugi pensou e pôs as duas mãos ao lado de sua cabeça em desespero.

— “Impuros?” — o professor Haldol perguntou friamente se aproximando de Yugiki que rangia os dentes de raiva para Haldol. — Quem te ensinou esse termo, moleque?

A pergunta pegou Yugiki de surpresa. Parece que agora o menino havia tomado um pouco de senso e isso fez ele se lembrar do juramento que ele e seu gêmeo fazia a Rudano, de nunca demonstrar ser um pagão, um fiel aos antigos deuses para não pôr ninguém em risco.

— Eu te perguntei, responda! — Haldol pega Yugiki pela sua camisa e puxa o menino para si. Yugiki agora parecia ter entendido a gravidade da situação que ele gerou, mas ele não sabia sair dela sozinho, nem sabia se agora já era possível.

— E—eu… eu… aprendi com a mamãe… — Yugiki mente. Ele não queria dizer que era Rudano que o ensinava sobre os antigos deuses, a verdade é que os gêmeos sequer conhecem sua mãe ou pai.

— Sua mãe? Não temos nenhum registro dela. Ela devia ser uma bruxa.

— Ela não foi uma bruxa, seu merda! — Yugiki diz.

— Se vocês estão aqui é sinal que ela já está morta ou algo assim, espero que tenha sido queimada e seu espírito levado ao inferno. — Haldol diz com um leve sorriso de deboche no rosto. — De qualquer modo, seu comentário atrevido merece castigo, Yugiki… Yugi! — Haldol chama por Yugi que estava observando a situação de seu assento e dá um leve suspiro quando foi chamado a sua atenção. — Venha aqui. — “Essa não…”, Yugi pensou, parece que ele já sabia o que aconteceria.

O menino se levantou de sua cadeira, olhar tristonho e ombros encolhidos. Yugi caminhou até a presença do professor Haldol. — Sim, senhor professor? — Yugi pergunta fracamente, com a voz tremendo.

— “Rir e chorar juntos” se lembra, Yugi? O seu irmão aqui escolheu o choro, e você terá que chorar junto com ele.

— Não, professor! Por favor… ele só tava irritado, ele não quis dizer isso!

— Sem mais, Yugi! Você sabe quais são as consequências de desafiar às autoridades do orfanato.

Yugi se ajoelha diante do professor e segura a alça de sua calça com lágrimas escorrendo de seus olhos. — Não, por favor, querido professor! Nos perdoe! — ele diz com sua voz tremendo de choro.

— NÃO! — ele grita balançando sua perna para Yugi sair dela. — Eu não vou ser desafiado por um moleque atrevido de sete anos! O castigo de vocês dois servirá para todos aqui, respeitar a autoridade acima de tudo é uma das maiores virtudes de nossa religião e vocês pagãozinhos precisam compreender…

Yugi solta a alça da calça do professor fracamente com seu rostinho molhado e cabisbaixo.

Yugiki ao contrário de seu irmão não estava chorando e não suplicou por clemência nenhuma vez. O pestinha estava com um olhar neutro observando o seu irmão ajoelhado no chão. Havia dentro dele um senso de reprovação. Olhar seu gêmeo ajoelhado e submisso à vontade do professor impuro o fez sentir desprezo por Yugiki que soluçava baixinho e cabisbaixo no chão.

— Vamos. Vão para o centro do quadro, olhando para a parede e de costas viradas para classe, agora! — Haldol diz.

Yugi é o primeiro a obedecer. O menino se levanta e faz o que o professor mandou, olhando cabisbaixo para a parede. Enquanto que Yugiki olhou para o professor com a mesma expressão neutra que seu irmão e o professor retribuiu seu olhar com seu rosto franzido. Yugiki obedeceu o professor, não por um sentimento legítimo de obediência ou submissão, mas por causa que obedecer era o que restou para esse menino. Yugiki se juntou ao lado de seu gêmeo e ele olhou para Yugi. O menino estava chorando ainda, Yugi, ao contrário de seu gêmeo, era um menino muito sensível.

— P—por que você fez aquilo?! — Yugi perguntou ao seu gêmeo baixinho com sua voz tremendo de choro.

— Desculpa… — Yugiki diz baixinho, arrependido de ter arrastado mais uma vez os dois a encrenca.

Professor Haldol vai até sua mesa e pega um pequeno remo de madeira com furos redondos. Não era tão grosso, mas quando os gêmeos viram esse dispositivo de disciplina dava para perceber que ia doer de qualquer jeito.

— Agora abaixem suas calças e cuecas até o calcanhar, gêmeos. — Haldol diz.

Os gêmeos olham com olhos arregalados para o professor. Arregalados mais ainda pela requisição que ele fez. Ele estava pedindo para os gêmeos se despirem e revelassem seus bumbuns na frente de toda a classe. Não bastando esta humilhação, estava claro que os gêmeos teriam seus bumbuns espancados na frente de todos aqueles impuros! Mas eles não podiam fazer nada para impedir isso… eles eram meros meninos de sete anos de idade. Eram apenas crianças. E Yugiki assinou a sentença de ambos.

Com relutância, Yugi foi o primeiro a obedecer. O menino desabotoa o cinto de sua calça e deixa ela cair no chão, depois o menino coloca seus dois dedos aos lados de sua cueca e abaixa ela para se unir com sua calça. Yugi revela sua bundinha branca como a neve para todos na sala que caem em gargalhada.

— Silêncio… — professor Haldol diz, mas sua ordem não teve sucesso, e a classe de meninos continuava a gargalhar, alguns até apontando o dedo para Yugi que se encolhia cabisbaixo olhando para a parede, chorando com soluços baixinhos. — SILÊNCIO! — Haldol grita, e dessa vez a classe cede a sua ordem e fica em silêncio.

— Não quero ouvir mais um pio! Um “ai”! A não ser que vocês queiram ter o mesmo destino que eles. — A classe não responde ao professor, permanecendo em quieta. — Muito bem… Yugiki, você é o próximo.

O menino continuava com uma expressão neutra, mas revirou os seus olhos quando ouviu a ordem de Haldol. Ele fez o mesmo que seu irmão, mas de maneira apressada e desajeitada, como se quisesse que aquilo acabasse logo, como se não estivesse se importando de ser castigado.

— Okay… eu quero que todos vocês testemunhem esse castigo nas abominações. Servirá de lição não apenas aos pagãozinhos mas também a todos vocês que ousarem ter pensamentos hereges. Serão quinze remadas no traseiro de cada um de vocês gêmeos… preparem—se!

O professor levanta o remo de madeira em sua mão e acerta bem na nádega esquerda do bumbum de Yugi que solta um grito de dor e soluços de choro. O menino se contorceu e mal conseguiu se recuperar dela e já recebeu outra remada. Haldol estava contando os golpes. Ele era preciso e gostava de equilibrar a dor aplicada pelo castigo. Eram quinze palmadas de remo. Cinco em cada lado da nádega e cinco no meio do bumbum.

Já era o segundo golpe e a nádega esquerda de Yugi já estava com um vermelho que contrastava fortemente com sua pele branca como a neve. O pobre menino continuou recebendo golpes de Haldol que contava cada um enquanto Yugi se contorcia de dor e gritava e soluçava infantilmente. Depois de esculachar o lado esquerdo do bumbum de Yugi, Haldol partiu para o direito e continuou o ritual de humilhação de Yugi. Seu gêmeo, Yugiki estava de olhos fechados, olhando para o chão e rangendo seus dentes de raiva pela impotência que ele sentia de não poder proteger o seu gêmeo daquele maldito impuro que estava o torturando e humilhando—o. A classe observava com atenção o castigo. Alguns meninos sorriam levemente e seguravam os risos, outros apenas observavam atentamente, escondendo qualquer emoção que poderia significar apoio ao ato ou empatia para com Yugi.

A fatídica contagem chegou a décima contagem, finalmente Haldol espancaria as nádegas de Yugi por inteiro. O menino estava tremendo de dor e se apoiando na parede com as mãos. Yugi estava de olhos fechados chorando sem parar. Yugiki observava seu gêmeo com coração partido e com os olhos lacrimejando. Ele sentia um misto de arrependimento e raiva.

Haldol havia levantado o remo mais uma vez, mas ele foi parado por Yugiki que chamou sua atenção. — Senhor! — Yugiki gritou. — Por favor… dê o resto dos cinco em mim, por favor!

Haldol olha impressionado por Yugiki. — Está querendo receber o restante no lugar de seu irmão, Yugiki?

— S—sim… por favor… — Yugiki diz com a voz trêmula.

— Muito bem. Até que vocês pagãos não são isentos de honra. — Haldol diz.

Ele começa a punir agora Yugiki que recebe um golpe na sua nádega esquerda. Ele range os dentes para segurar o grito de dor e fecha os olhos. Haldol continua, levanta o remo e dá outra remada, era o segundo. O menino se contorce de dor, sentindo o impacto reverberar por todo o seu corpinho. Haldol continua, levanta o remo e dá outro golpe, levanta e dá outro golpe e outro, e outro… Yugiki estava tentando segurar o seu choro, mas o menino não era forte o bastante. Ele não tinha poder o bastante… Yugiki desabou. Ele abriu sua boca e soltou um ganido e começou a chorar e soluçar. Seu choro se juntou ao de seu gêmeo. Finalmente, Haldol conseguiu o que ele queria, a lei do “Rir e chorar” juntos foi aplicada com sucesso, porém, o castigo de Yugiki ainda não terminou. Ainda faltava o restante das palmadas do meio de seu bumbum mais as palmadas que ele vai receber por seu gêmeo.

E o Yugiki recebeu a primeira palmada. Seu bumbum estava ardendo em chamas e latejando de dor. Yugi estava passando a mão em seu bumbum, acariciando para ver se a dor latejante aliviava mas sem sucesso. Yugiki continou recebendo as palmadas e gritando de dor e chorando em soluços. Toda determinação que o menino tinha foi quebrada. Ele queria parecer forte, mas a dor latejante a humilhação era maior. Levanta remo, bate. Contorce, soluços. Levanta remo, bate. Contorce, soluços… parecia não ter fim. Os sons dos estalos do impacto ecoavam pela sala. Até que… finalmente não houve mais golpes. Haldol havia concluído o castigo. A classe pode observar tudo: o bumbum de Yugi e de Yugiki estavam marcados de um vermelho rubro que tampava toda sua pele. Yugiki era o pior, e podia—se ver que seu bumbum estava inchado por ter recebido mais golpes que seu gêmeo.

— Okay, agora andem até o canto da sala e olhos na parede até o fim da aula porque ainda não terminei. Não se sentem. Vocês vão me agradecer. — Haldol diz.

Yugi e Yugiki sobem de volta suas calças e andam até o canto da sala soluçando baixinho. Haldol guarda o seu remo de madeira na mesa e volta ao centro da sala.

— Muito bem… aonde nós estávamos? Argh… — ele espreme seus olhos com os dedos de uma de suas mãos.

— Estávamos nas Guerras Solares, professor. — um dos alunos diz.

— Ah, sim. Guerras Solares, bem. Já falamos sobre isso. Vamos falar sobre a Dinastia Liao. Abram o livro de vocês na página…

Yugi e Yugiki estavam no cantinho olhando para a parede cabisbaixos até que Yugiki olha para o seu gêmeo.

— V—você tá bem? — Yugiki pergunta baixinho.

— P—por que você fez aquilo?! — Yugi perguntou revoltado.

— E—eu fiquei com raiva. Me desculpa…

— Não… você faz isso toda hora! — Yugi sussura. — Eu tô cansado de ser castigado por causa de você! Você só nos encrenca…

— Foi sem querer…

— E—eu… não queria ser seu irmão! — ele diz quase gritando.

— Vocês, calem a boca! — professor Haldol diz. Nenhum dos gêmeos estavam prestando atenção na lição do professor, a dor em seus bumbuns sugava toda atenção dos gêmeos.

Os olhos de Yugiki arregalam e se enchem de mais lágrimas. Ele não acreditou que seu irmão disse aquilo. Desta vez Yugiki foi longe, ele desafiou uma autoridade da escola, é diferente quando você se mete em encrenca com outros internos do orfanato ou os bullies que tanto os atormentam. Mas Yugiki nunca refletiu que talvez a parte da fonte dos problemas dos gêmeos… podia ser ele mesmo e seu pavio curto.

As palavras de Yugi magoam o coração de Yugiki. Os dois gêmeos são inseparáveis e agora esse relacionamento estava correndo risco de se fraturar por causa da afronta de Yugiki. Mas a perspectiva de Yugiki era diferente. Ele só estava defendendo a honra de seus deuses e de seus heróis. Ele olhou cabisbaixo para a parede e concluiu que o culpado disto tudo eram os impuros que conspiravam para o separar de seu gêmeo.

Na mente de Yugi corria vários pensamentos. Não apenas sobre seu irmão, mas sobre sua condição e sua pessoa que ele ainda mal conhecia. Yugi não sabia de suas origens, o porquê ele se parecer um fantasma e o porquê de as pessoas se afastarem dele. Mas agora com o castigo perpetrado por Haldol. As palavras do professor penetraram o seu coraçãozinho: ele sofreu o castigo por ser um pagãozinho assim como seu irmão. A dor ardente queimando em seu bumbum latejava relembrando o menino de que ele era um pagão e parecia que por isso ele não era digno de respeito e dignidade.

A aula do professor Haldol continuou enquanto os meninos ficaram olhando para a parede. Ocasionalmente Yugiki olhava para seu gêmeo, mas Yugi evitava olhar de volta, mantendo um semblante consternado e magoado em seu rosto. O professor Haldol terminou de falar sobre a Dinastia Liao. Os gêmeos prestaram pouca atenção no resto da lição proferida por Haldol, a dor em seus bumbuns latejava demais para eles darem atenção ao conteúdo.

E assim, a classe de história do dia passou e quando terminou, o professor Haldol enviou os gêmeos para a sala de detenção, onde os gêmeos passaram o resto do dia escrevendo em seus cadernos, “Não devo desrespeitar os professores, devo ser um menino obediente” repetidas vezes. Ainda era um castigo melhor do que ser torturado e humilhado na frente de toda uma classe. Pelo menos passar o dia na detenção fez os gêmeos escaparem da atenção de seus bullies, por agora.

E eles contariam tudo o que aconteceu para Rudano. Oh, se eles contariam.

BUNDINHAS ARDIDAS

Os gêmeos estavam esperando por Rudano em seus quartos. O sótão estava um pouco escuro. Apenas a luz da lua cheia de Urudânia iluminava o quarto. Os gêmeos não sabiam acender a luz dos candelabros.

Nenhum dos dois olhava para o outro, ainda magoados pelas palavras e pelo castigo; por Yugiki os levar ao castigo e por Yugi dizer não querer ser mais irmão de seu gêmeo. Os dois estavam deitados de barriga para cima para evitar roçar o bumbum ardido na cama. Eles balançavam as perninhas ao ar enquanto seus pensamentos passavam por Rudano, querendo que o jovem chegasse logo, e quando eles menos esperam, eles ouvem a porta do quarto abrir e passos de subida de escada. Rudano aparece com um sorriso no rosto.

Os gêmeos se levantam olhando para Rudano com um semblante triste. Ele percebeu que algo estava errado.

— O que aconteceu, meninos?

— RUDIIIII! — Yugi grita dengoso e corre para cima de Rudano. O menino abraça o jovem pressionando o rosto molhado em sua barriga.

Yugiki também se levanta, mas ele não corre até Rudano, ele estava apenas com seus olhos lacrimejando, olhando consternado para a cena. O menino anda até Rudano e o abraça.

— O que houve, Yugi?! — Rudano pergunta.

— Rudi… o professor Haldol nos bateu! — Yugi diz choramingando.

— ELE FEZ O QUE?! — Rudano pergunta com os olhos arregalados de revolta.

— Ele bateu na nossa bunda com uma madeira! — Yugiki diz.

— Ainda tá doendo muito, Rudi! — Yugi diz chorando.

— Aquele impuro filho da pu… ah! — Rudano segura seu palavrão. — Mas meninos, por que ele fez isso?!

— FOI O YUGIKI DE NOVO, RUDI! — Yugi aponta para Yugiki. — Ele só nos mete em encrenca! — Yugi grita revoltado.

— E—eu só defendi os deuses! Ele tava xingando a gente e os deuses, Rudi!

— Yugiki, você não deve sair por aí provocando os impuros! Não falei que eles são violentos com a gente?! — Rudano diz.

— Desculpa… — Yugiki diz soluçando baixinho e cabisbaixo.

— Rudi… o professor Haldol disse que vamos ir pra evangelização, o que é isso? — perguntou Yugi curioso.

— Evangelização?! Mas que merda! Isso não é bom…

— Que que isso, Rudi? — Yugi pergunta curioso.

— É basicamente a catequese. Se lembram de que eu falei para vocês nunca rezar para o deus dos cristãos do jeito que te ensinaram quando vocês eram mais menininhos? Então… eles vão te dar essas classes para “evangelizar” vocês, para vocês se tornarem… cristãos.

— Ah! — Yugiki grita espantado, ele não queria abandonar os deuses nem os heróis. — Eu não quero ser um impuro idiota, Rudi!

— Ah, droga! Agora nem eu sei o que fazer… — Rudano diz pensando em uma saída para os gêmeos.

Yugi desfaz o abraço e se afasta de Rudano. — E—eu… eu não quero ser mais um pagão. — Yugi diz mansamente.

— O que?! — Yugiki olha espantado para seu gêmeo, já não bastasse ele dizer que não queria mais ser o irmão dele.

— Yugi, como assim? Por que? Você não acredita mais nos deuses? — perguntou Rudano.

— Eu só quero ser normal! Eu tô cansado das pessoas me odiarem por eu ser uma abominação! Agora elas vão me odiar por ser pagão! Eu tô cansado disso… — Yugi diz choramingando.

— E você acha que abandonar os deuses vai melhorar? Seu traíra! — Yugiki diz cruzando seus braços.

— Yugiki, não chame seu irmão assim! — Rudano diz.

— O que os deuses fizeram por mim?! Eles nem me protegeram do professor! Esses deuses são inúteis…

Rudano ficou em silêncio. Bem dentro de si, ele também achava os deuses pagãos inúteis, os detestava por serem fracos e perderem a guerra contra o Reino de Deus. É verdade, os deuses os abandonaram. Mas era bom os gêmeos continuar crendo neles. Era bom, ele pensava.

— Tá vendo, Rudi! Ele tá virando um impuro!

— Yugiki, seu irmão jamais poderá se tornar impuro… e Yugi… — Rudano vira para ele e põe sua mão em seu rosto molhado de lágrimas. Yugi olha para ele atento. — Você não é uma abominação, você é um menino lindo, sua beleza é única! Ninguém no universo é igual a você e Yugiki. A beleza de vocês é uma luz, e como estamos ao redor das trevas, elas tentam apagar as suas chamas. Mas não deixe essa gente te chamar de abominação, você… é meu príncipe, meu anjinho. — Ele diz sorrindo e acariciando o rostinho de Yugi gentilmente.

Os olhos de Yugi se enchem de lágrimas e o menino abraça Rudano forte. Yugi embrulha seu rosto em Rudano e chora soluçando.

— R—Rudano… — ele diz choramingando.

Rudano estende a mão para Yugiki, convidando ele para se juntar a seu irmão. Mas Yugiki cruza os braços e faz bico, rejeitando o convite de Rudano.

— Não! Não quero… — ele diz.

— Por que, Yugiki? Você também é um anjinho sabia? — Rudano diz sorrindo.

O rosto de Yugiki fica vermelho por um tempo, mas depois ele olha sério. — Porque ele disse que não quer ser mais meu irmão! — Yugiki diz meio choroso.

— Yugi, isso é verdade?

— É que eu to cansado dele nos encrencar, Rudano!

— Ah, é?! E eu to cansado de te proteger de tudo e de todos nessa porcaria de orfanato! Sua garotinha…

— Que?! — Yugi diz.

— É isso mesmo! — Yugiki diz com um sorriso no rosto — Você é uma garotinha que vive correndo pra ficar debaixo da saia do Rudano!

— Eu não sou uma garotinha! Você que é mau… — Yugi diz choramingando, Rudano pode sentir que o menino estava apertando suas mãos em sua camisa.

— Nah, nah, nah, nah, nah, nah! Garotinha!

— Chega, vocês dois! — Rudano diz e os dois param de falar. — Vocês são irmãos e só tem a vocês dois e a mim. Não podemos brigar desse jeito!

— Eu não quero mais ficar com ele, ele é um idiota, Rudano!

— E você é um maricas… — Yugiki diz.

— Pare! — Rudano diz e dá um suspiro. — Nunca mais chame seu irmão de maricas, Yugiki!

Yugiki bufa de raiva. Era óbvio que os gêmeos estavam magoados um com o outro. Ele fica confuso e não sabe o que fazer para reunir os gêmeos mais uma vez.

— Vamos deixar tudo para lá, vamos? — ele pergunta. Mas os gêmeos fazem cara de bico e desviam o olhar um do outro. — Ah, cara… isso vai ser difícil.

— Rudi… meu bumbum ainda tá doendo muito! — Yugi diz choramingando.

— Ah, sim. Meninos me mostrem o que aquele professor fez.

Os gêmeos obedecem e arreiam suas calças e cuecas, revelando o bumbum marcado de vermelho. Estava contrastando tanto entre a pele branca, parecia que alguém adesivou uma grande marca vermelha que tampava os bumbuns deles. Rudano cerrou os punhos e bufou de raiva. Ele pensou em confrontar Professor Haldol e devolver a lição que ele deu contra os gêmeos dez vezes pior, mas em uma súbita mudança racional ele pensou que não seria uma boa ideia. Isso resultaria na expulsão de Rudano e exporia os gêmeos a mais vulnerabilidade. Ele se sentiu mais uma vez impotente. Rudano respirou fundo, apertando seus punhos.

— Eu vou pegar um pouco de gelo na cozinha. Não vai sarar na hora mas deve aliviar um pouco. — Rudano diz. — Esperem aqui, e não façam bagunça! — Rudano caminha até a porta do sótão e desce as escadarias. Os gêmeos puderam ouvir a porta batendo.

— Isso é tudo culpa sua! — Yugi diz.

— Não, a culpa toda é sua por ser maricas!

— Para de me chamar de maricas! — Yugi grita. — E—eu sou um menino… — ele diz chorando baixinho.

— Se tu é menino, então mostra que tu é! — Yugiki diz.

— Hã? E—eu não preciso!

Yugiki se aproxima de seu gêmeo com rosto franzido e dá um puxão em Yugi que o faz o menino se afastar para trás.

— Mostra!

Yugi olha para seu gêmeo com olhos lacrimejando arregalados de espanto.

— Yugiki?! — o menino ficou perplexo.

Yugiki se aproxima mais uma vez e dessa vez dá um puxão mais forte em Yugi. O puxão fez o menino se afastar mais ainda para trás, mas ele não conseguiu manter o equilíbrio e caiu de bumbum no chão. O menino solta um ganido de dor seguido de choros e soluços.

— Yugi, e—eu… — Yugiki diz com olhos arregalados, ainda estarrecido pelo que ele fez.

Mas quem estava mais consternado era Yugi que chorava sentado no chão. O impacto de seu bumbum no chão apenas fez a dor estalante piorar, mas também magoou mais a confiança que o menino tinha em seu gêmeo, que outrora agia como seu protetor e guardião, agora assumiu um pouco do papel de algoz que os bullies tinham.

Yugiki se aproxima de seu gêmeo caído no chão e estende a mão a ele, Yugi dá um tabefe em sua mão, recusando sua ajuda. Yugi se apoia no chão e se levanta. Ele olha para o seu gêmeo triste e com olhos marejados. Ele esfregava o seu bumbum ardido com as mãos nas esperanças de aliviar a dor.

— Por que você fez isso?! — Yugi perguntou revoltado.

— E—eu não queria! Eu juro!

— Então por que me empurrou seu idiota?! — Yugi grita. — Eu vou contar tudo pro Rudano!

— Não! Yugi, a gente precisa ficar junto!

— Depois do que tu fez? Eu prefiro ficar sozinho… — Yugi diz.

— Por favor, Yugi, me perdoa! Não conta pro Rudi… — Yugiki diz agarrando a gola da camisa de Yugi, mas o menino desfaz o agarro e Yugiki solta sua mão.

— Não me toca! — Yugi diz. O menino olha para ele cabisbaixo, ainda passando a mão em seu bumbum.

— Desculpa… — Yugiki diz. — Mas você não vai contar pro Rudano, né?

— Tá… eu não conto.

— Você me perdoa? — Yugiki pergunta.

— Tá, tá bom. — Yugi diz ríspido.

Yugiki sorri.

— Ah! Obrigado, maninho. — Yugiki se aproxima para dar um abraço em Yugi, mas o menino se afasta, meio que instintivamente. — Que foi? Eu só quero te abraçar.

— E—eu tô cansado, quero deitar. — Yugi diz mansamente e evitando Yugiki e ele anda até a cama e deita de barriga e fica balançando as perninhas no ar, esperando por Rudano.

Ambos ficaram em silêncio. Yugiki sentiu que o “perdão” de seu gêmeo não era genuíno, já que ele estava o evitando.

Após Rudano retornar com o gelo, ele ordenou os gêmeos a deitar de barriga na cama e tirar suas calças e cueca. O jovem então aplicou cubos de gelo em cima do bumbum rubro dos gêmeos que ardia em dor.

— Isso deve aliviar um pouco. — Ele diz.

— A gente vai se curar disso, Rudi? — Yugi diz.

— Vão sim, Yugi. Mas vai demorar.

— Ah… quanto tempo? — Yugi pergunta com a voz trêmula.

— Acho que vai demorar mais de uma semana, ele judiou bem o bumbum de vocês.

— Então a gente vai ficar sem sentar por mais de uma semana?! — perguntou Yugiki.

— Mais ou menos, olha… não tem muito o que fazer além de esperar sarar, meninos. Eu vou trazer gelo pra aliviar a dor enquanto isso. — Os meninos gemem desapontados, mas Rudano logo muda o assunto. — Meninos, eu sei que hoje foi difícil, mas eu preciso saber o que o Haldol passou para vocês nessa aula de história.

Os meninos começam a explicar o conteúdo da matéria que eles se lembraram. Eles falaram sobre como Haldol explicou as Guerras Solares e como o universo inteiro pode colapsar caso um novo deus sol não assuma o Mandato Estelar. Yugi falou com olhos arregalados e em tom amedrontado. Yugiki olhava com um brilho em seus olhos, parecia que o menino estava maravilhado com a ideia.

— Droga! Ele já contou o que eu queria contar a vocês.

— É verdade que o universo inteiro vai ser destruído se ninguém conseguir esse negócio, Rudi? — perguntou Yugi.

— É a natureza do universo, Yugi… ela é frágil e depende de um Deus Sol manter a estabilidade universal.

— O que vai acontecer, Rudi? — Yugiki diz balançando as perninhas no ar.

— As estrelas só têm energia o bastante para sobreviver sozinhas por seiscentos e sessenta e seis anos, caso nenhum deus assuma o trono até lá, as estrelas apagam de vez e a Eterna Escuridão vai acontecer. Então… se isso acontecer o universo inteiro vai de arrasta.

— Legal! — Yugiki diz sorrindo.

— Legal o que, Yugiki?! Tá doido… — Yugi diz.

A resposta de Yugiki intrigou Rudano que olhou bem para o menino.

— Rudi, a gente precisa impedir isso! — Yugi diz.

— Bem, como vocês já sabem só há uma maneira de evitar isso: alguém precisa vencer as Guerras Solares e assumir o Mandato Estelar… mas seja o que for, ninguém pode assumir esse mandato de maneira nenhuma!

— Mas Rudi! Tu prefere que o universo inteiro seja destruído do que ele ser salvo pelo nosso inimigo?

— O universo não pode ser “salvo”, Yugi… ele já está condenado desde seu nascimento. O que o Deus Sol faz é só prolongar o colapso de nosso universo. Mas guerras acontecem e deuses caem… é um ciclo vicioso… e sim, eu prefiro ver o universo inteiro ser destruído do que ver meus inimigos triunfando sobre nós!

— Mas por que as coisas têm que ser assim, Rudi?! Por que o universo é fraco desse jeito?

— Pelo jeito aquele impuro não contou a vocês sobre quem é aquele que criou o universo. Não me impressiona, não é uma lenda dos impuros…

— É… o Haldol não disse nada sobre isso, não. — diz Yugiki.

— Prestem atenção então. Esse é o mito da criação celestial, e nós sabemos como as coisas funcionam melhor que os impuros. Bem… — Rudano começa a explicar sobre o mito da criação celestial.

Rudano acendeu a luz do candelabro que estava no criado-mudo e pegou ele pela sua haste, iluminando o seu rosto com as chamas das velas. Ele estava preparado para contar outra historinha aos gêmeos.

URUDANAON E O MITO DA CRIAÇÃO

Antes de o universo existir, havia apenas o caos primordial. As deusas irmãs Arudananan e Dowagian, filhas da deusa Nanan, caminhavam sobre as águas do abismo. Até que sua mãe, Nanan, encontrou um fragmento de concha em espiral no fundo do abismo e fez um pingente de colar com a concha. Então, Nanan engravidou de um menino a quem daria o nome de Urudanaon. Após a gestação, Nanan deu à luz Urudanaon por concepção imaculada.

Furiosa porque sua mãe havia dado à luz um menino e não uma menina, Arudananan lutou contra sua mãe e a derrotou. Arudananan pegou os restos do bebê Urudanaon, desmembrou—o e espalhou as partes pelos quatro cantos do abismo, e com o pênis dele criou um universo próprio, no qual reinava sobre uma ordem baseada na dominação do matriarcado.

Dowagian, consternada com a morte de seu irmão, iniciou então uma jornada para recuperar as partes desmembradas de Urudanaon, a fim de vingar-se de Arudananan. Após quatro milênios de busca, Dowagian conseguiu recuperar os membros de Urudanaon e reconectá-los ao corpo, restaurando-o à vida.

Nanan entregou a Urudanaon a lendária Lâmina da Purificação, e Dowagian lhe deu o Escudo-Espelho, guiando o jovem para enfrentar Arudananan no topo do Santuário da Luz Universal. Após a batalha no cume da pirâmide, Urudanaon matou Arudananan, decapitando-a e desmembrando seu corpo, assim como ela havia feito com ele. O jovem então lançou os restos de Arudananan pelos degraus da Grande Pirâmide, onde se amontoaram na base. Urudanaon tomou o coração de Arudananan e o ofereceu à sua mãe como uma relíquia em memória de sua filha. Até hoje, os corpos dos “servos sacrificiais” (nome que os urudanianos dão às suas vítimas rituais) são jogados dos degraus das pirâmides após terem seus corações extraídos. E em seguida, eles são levados para serem desmembrados sobre a “Queda de Arudananan”, uma mesa de pedra redonda que representa o corpo desmembrado de Arudananan. Todo esse processo ritualístico de extração do coração, lançamento do corpo e desmembramento realizado pelos sacerdotes celestes no topo das pirâmides de seus deuses reproduz o triunfo de Urudanaon sobre sua irmã mais velha e a vitória do universo patriarcal que destronou o universo matriarcal criado por Arudananan.

Com a morte de Arudananan, o universo que ela havia criado foi destruído. Urudanaon então ordenou a Dowagian que sacrificasse o próprio corpo para criar um novo universo. Ela obedeceu e, no leito sacrificial no topo da Grande Pirâmide Universal, Dowagian extraiu o coração de Urudanaon e o ofereceu para dar origem às almas. Cada parte de seu corpo tornou-se um aspecto diferente do universo: seus membros tornaram—se as castas dos urudanianaos em sua sociedade rigidamente estratificada; seu torso, a parte que conecta os membros, tornou-se os mundos habitados pelos urudanianos; e seu sangue tornou-se os mares e as águas desses mundos. A cabeça de Urudanaon, porém, transformou-se nas estrelas que iluminam esses mundos. As partes do corpo de Urudanaon são chamadas de “Corpo Cósmico” e englobam tudo o que existe no universo.

Urudanaon, o deus criador e pai de todos os deuses, é chamado de “Nosso Senhor o Fragmentado”, pois os devotos acreditam ser parte dele, assim como tudo o que existe no universo. Urudanaon é considerado um “deus fragmentado” por ter sido desmembrado, e sacrifícios são realizados nas grandes pirâmides de toda a galáxia de Ultima Fascis para fortalecer esse corpo instável e manter a estabilidade do Corpo Cósmico de Urudanaon, impedindo assim que o universo entre em colapso.

Urudanaon e seu corpo são mais uma vez restaurados por sua irmã Dowagian. Os dois então se casam, e Dowagian dá à luz a próxima geração de deuses celestiais.

Rudano terminou de explicar para os gêmeos o mito da criação que eles receberam com um estranho déjà-vu. Parece que alguma coisa nessa história os fez lembrar de algo que eles nem sabiam.

— Então Urudanaon tá morto? Por que tem que ficar alimentando ele toda hora com sacrifícios então? — Yugiki diz.

— Não, Nosso Senhor Fragmentado não está morto. Tudo que é matéria e espírito faz parte dele, assim como eu e vocês, as rochas e as estrelas também… ele precisa de sacrifícios para manter tudo funcionando e estável, caso contrário, bem, vocês já sabem.

— Você fala coisa difícil às vezes, Rudi. — Yugi diz.

— Vocês são meninos inteligentes, não acho que seja tão difícil de entender, de qualquer jeito. Preciso explicar a vocês sobre as Guerras Solares para esclarecer qualquer engano daquele impuro arrombado do Haldol fez. — Rudano começa a explicar sobre as Guerras Solares.

A natureza da estabilidade cósmica é algo muito frágil. O universo é um fragmento do corpo de Urudanaon, que é um corpo remendado, necessitando de sacrifícios constantes para o fortalecer e afastar o colapso universal.

A parte mais frágil do universo de Urudanaon são os corpos astrais, os sóis e as estrelas que tendem a colapsar primeiro caso o corpo cósmico de Urudanaon venha a enfraquecer. Para evitar o colapso iminente de todo o universo, Urudanaon separou uma de suas funções a um de seus filhos deuses.

Urudanaon teve centenas de consortes e milhares de filhos deuses e diferentes panteões, mas apenas um desses filhos seria dado a responsabilidade de manter as estrelas brilhando, e assim prevenir o colapso do corpo cósmico de Urudanaon e de todo o universo.

Assim, Urudanaon criou o título “Deus Sol” a quem ele concede a um de seus filhos após cada ciclo universal de criação e destruição. Como é impossível ser o corpo cósmico e o Deus Sol ao mesmo tempo, os deuses e outros participantes batalham entre si para ser o novo arconte do cosmo como o Deus Sol. Esta guerra é conhecida como as Guerras Solares, onde os deuses e outros pretendentes guerreiam entre si para ser o novo Deus Sol. O pretendente vitorioso garante ao corpo cósmico de Urudanaon que dá vida ao universo, assim se tornando o Deus Supremo e começando um novo ciclo. A tarefa das raças conquistadas é oferecer aos deuses sacrifícios de sangue para manter ambas as estrelas e o corpo cósmico de Urudanaon estáveis. Portanto, podemos dizer que Urudanaon e seu corpo cósmico são o castelo e os deuses os reis que reinam através do título de Deus Sol.

— Mas não se enganem com as mentiras dos impuros… o deus cristão não quer assumir o Mandato Estelar, ele quer na verdade destruir todos os deuses e todo o universo para que assim ele possa criar um novo onde apenas ele dita as regras!

— O que nós vamos fazer, Rudi?! — Yugi pergunta espantado.

— Nós vamos destruir os cristãos e o deus deles, e todos que nos desafiarem, simples assim… — Rudano diz.

— Ah, droga… eu não gosto que as coisas sejam assim! — Yugi diz.

— Nós não podemos mudar a natureza do universo, Yugi, ele precisa ser sustentado com a meta-essência da vida. Já estamos no duodécimo universo, vivemos na Duodécima Era que era sustentado por Gammadion. Seis universos diferentes foram criados e destruídos por outros deuses, assim é o ciclo da vida. Mas nós podemos criar um universo só nosso! Basta nós trabalharmos juntos para isso! Assim a gente pode fazer as coisas do nosso jeito!

— Nós? Mas como Rudi? — perguntou Yugi.

— Creio que não te contaram também… mas qualquer um na verdade pode se tornar o Deus Sol, inclusive nós.

— Então quer dizer que somos deuses? — Yugiki pergunta sorrindo.

— O que é um deus, Yugiki? É aquele que possui poder de criação e a estabilidade da criação depende da existência dele. Deuses são nada mais do que usinas de poder ambulante… mas para sermos deuses pretendentes ao Mandato Estelar precisamos apenas ter poder o suficiente para isso, não precisamos que a criação dependa de nossa existência… ainda.

— Ah, Rudi! Você não respondeu o Yugiki eu quero saber do que ele perguntou também!

— Sim, Yugi. Nós podemos nos tornar deuses. — Rudano diz sorrindo.

— Mas como, Rudi? A gente é humano. — diz Yugiki.

— Como eu disse… nós precisamos de poder, nos tornar poderosos. Só assim poderemos desafiar os outros deuses nas Guerras Solares.

— Tu já sabe como, Rudi? — Yugi pergunta.

Rudano fica em silêncio, parece que há um conflito dentro de seu coração que ele não queria revelar aos gêmeos.

— Eu… bem, sim, eu tenho um plano, mais ou menos.

— Se eu fosse um deus eu ia querer ter poder de voar! — diz Yugi sorrindo e balançando as perninhas.

— Então como a gente faz?! Eu quero me tornar um deus e fazer o que quiser! — Yugiki diz com entusiasmo.

— Não podemos fazer qualquer coisa, Yugiki. Temos que fazer o que é bom para nós e para nossos aliados. — diz Rudano.

— Ah, se eu fosse um deus eu com certeza não ficaria com tédio. Odeio ficar com tédio… — Yugiki diz pensativo.

Rudano olha para Yugiki com um olhar pensativo.

— Nós temos aliados, Rudi? — pergunta Yugi.

— Sim, devemos ter. Mas não sei onde eles podem estar, poucas vezes sai do orfanato, além de perigoso se revelar pagão por aí.

— Por que os cristãos nos odeiam tanto, Rudi? — Yugi pergunta.

— Eles odeiam todos que não fazem parte da panelinha deles. Justificam esse ódio com sentimento de dever. Acreditam que estão em uma guerra do bem contra o mal… e nós somos aqueles que fazem parte do mal que eles combatem.

— Eu também odeio esses impuros. — disse Yugiki.

— Sim, Yugiki. O sentimento é recíproco. Eles são uma ameaça ao nosso… estilo de vida.

— Ei, Rudi, você ainda não disse seu plano pra gente virar deuses.

— Eu vou contar quando eu bolar ele melhor, ainda preciso de tempo. — Rudano diz. — Enfim, meninos, acho que já chega de explicações. Por hoje vocês já sabem que nossa existência está marcada pelas Guerras Solares e… isso tudo só vai acabar quando nós vencermos. — Rudano diz sorrindo.

A ORAÇÃO DE YUGI

Rudano coloca ambos os gêmeos para deitar em sua cama. Eles deitam de lado para evitar seus bumbuns rocem no colchão surrado do sótão do quarto. Yugi pega sua chupeta que estava no criado mudo ao lado e a põe na boca. O menino sempre gostava de dormir com a chupeta pois o ajudava a se acalmar.

— Okay, meninos. Vocês devem começar a classe de evangelização amanhã. Seja o que te disserem… eu quero que vocês façam o de sempre: finjam que estão assimilando, mintam mesmo. estilo “entrar por um ouvido e sair pelo outro…” entenderam?

— Sim, Rudano… — os dois dizem em uníssono.

— E você, Yugiki, entendeu bem dessa vez?

— Hã… sim, por que, Rudano?

— Não vai inventar de fazer birra no meio da sala se algum professor ofender aos deuses, né?

— Não… eu prometo, Rudi.

— Okay… vocês comeram alguma coisa depois que te liberaram da detenção? — Os gêmeos balançam a cabeça, indicando que não. — Eu trouxe a mamadeira de vocês, está cheia. — Rudano apresenta duas mamadeiras cheias de um líquido vermelho. Era sangue. — Vermelhinho fresquinho pra vocês! — Rudano sorri e passa a mamadeira de sangue para os gêmeos.

Rudano gostava de chamar o sangue em que os meninos bebiam de “vermelhinho” para atenuar o momento em que os meninos eram obrigados a tomar o líquido visceral. Mas às vezes soava um tanto quanto macabro.

— Eu odeio isso, Rudi. — Yugi diz pegando a mamadeira.

— É… eu queria comer algo diferente. Que nem as outras crianças. — Yugiki diz.

— Eu também queria que vocês fossem… normais, meninos, assim como as outras crianças. Mas…

— Por que a gente é assim, Rudi? Eu só queria ser normal… — Yugi diz com a voz trêmula.

Rudano olha entristecido. Ele parecia saber o motivo, mas evitava falar a verdade. — Eu já falei. O corpo de vocês é incapaz de produzir sangue sozinho. É por isso que vocês são assim. Precisam de sangue para sobreviver.

— É por isso que temos esses dentes pontiagudos? — Yugiki diz mostrando os dentes dele. Era uma arcada dentária cheia de dentes de leite pontiagudos, parecidos com os de um tubarão. — Eles são para matar, né?

— Hã… sim, mas vocês não precisam. Eu dou sangue de galinha para vocês. Vocês podem sobreviver com isso.

— Esse sangue é nojento… — Yugiki diz mamando a mamadeira de sangue. Ele tira da boca, fazendo um som de “pop” dela. — Eu queria um sangue melhor… tipo de gente, será que é mais gostoso?

— Eu queria era não precisar tomar essa porcaria… — Yugi diz.

— Yugiki, sangue de gente é proibido. — Rudano diz franzindo o rosto. — Você tem que tomar, Yugi. Se não, você vai se sentir fraco e pode até desmaiar sem isso. Ou pior…

— Morrer? — Yugi pergunta, com seus olhos rosados brilhando.

— Sim… vocês não são vampiros só porque precisam de sangue. Vocês nasceram com essa deficiência, esse albinismo severo que faz suas peles e cabelos serem puros como a neve e… essa necessidade de consumir sangue.

— A mamãe era que nem a gente também, Rudano? — Yugi pergunta.

— Não… Kiyoko era uma menina normal. Ela não era igual a vocês…

— Ei, Rudi… a mamãe era uma bruxa? — Yugiki perguntou.

Rudano sorri para ele, claramente não se importando com o termo. — Bem, ela era uma maga, bruxa, feiticeira… tanto faz. Ela era muito poderosa, mesmo sendo tão jovem. É por isso que tinham medo ela… nossa família é descendente de exímios magos. Nós nascemos com talento para isso.

— Então quer dizer que podemos lançar magia? — Yugiki perguntou empolgado. Sua boca estava vermelha de sangue.

— Sim, mas não! — Rudano diz franzindo seu rosto. — Fazer magia por aqui é perigoso. Não queremos atrair atenção indesejada dos inquisidores do carpinteiro! Já basta sermos pagãos, não vamos querer que eles pensem que somos “bruxos” também!

— Ah! Que saco, Rudi. Não é justo… — Yugiki diz.

— Sim… eu queria poder lançar uma magia para eu voar. — Yugi diz.

— A vida não é justa mesmo, Yugiki… é por isso que… precisamos estar juntos para podermos ser mais poderosos que qualquer injustiça. — Rudano diz sorrindo.

— Mas eu quero viver uma vida melhor, onde as pessoas não me tratam mal. — Yugi diz.

— Nós temos que achar nossa gente, Yugi. Quando encontramos nossa gente, nós percebemos que não há nada de errado conosco. São esses tipos de relacionamentos que podem nos fazer voar para bem longe de todos os problemas também.

Yugi sorri. Ele estava com a mamadeira em suas mãos, mas não estava bebendo.

— Yugi, você precisa beber o seu vermelhinho.

— Eu não quero beber o vermelhinho, Rudi! Isso tem um gosto péssimo.

— Eu sei… mas é isso que vai te fazer ficar fortinho. Beba seu vermelhinho, Yugi.

— Aaah! Que nojento… — Yugi franziu seu rosto. Ele pôs o bico da mamadeira em sua boca e começou a mamar o “vermelhinho” com o rosto enojado.

— Assim é melhor. Eu quero ver amanhã essas mamadeiras vazias, tomem tudo.

— Tá bom, Rudi. os gêmeos dizem em uníssono.

— Bem, então é isso. Me dêem um beijinho de boa noite. — Rudano diz sorrindo e ele aproxima seu rosto dos gêmeos e os dois beijam sua bochecha e boca. — Esses são meus meninos! Boa noite e bons sonhos. — Rudano diz e caminha até a saída do sótão, deixando os gêmeos sozinhos.

Nos corredores do orfanato, andando sozinho e pensativo, Rudano refletiu no castigo de Yugi e Yugiki. Não foi apenas endereçado aos gêmeos, mas a ele também e a todos aqueles que tentarem desafiar a supremacia dos cristãos totalistas. Pagãos como ele não tinham chance de desafiá-los, não ainda.

Rudano estava envolto de raiva e ao mesmo tempo de tristeza. Ele não conseguiu proteger os gêmeos mais uma vez. Mas ele também se perguntava, o porquê de tanta crueldade para com os meninos. Ele sabia que Haldol estava ciente da verdade sobre os os gêmeos Kyogami, mas forças superiores, como a senhora Junmi impedem os outros de a espalharem.

Porém… independente das suas origens veladas, os gêmeos Kyogami são da raça de Urudânia. Assim como supostamente Haldol é. Mas não… aquele povo que existiu a mais de cem anos atrás e que lutou contra o os deuses do caos Xon não existe mais. Agora, o povo urudaniano nem sequer é mais chamado de “celestial”, já que celestial é apenas tudo que vem do deus desses cristãos totalistas.

Parece que para Haldol e os outros, não importa o quão os gêmeos Kyogami se esforcem para ser crianças normais. Eles sempre estarão condenados pelas suas origens nebulosas.

Lutar por um povo que celebra sua própria derrota e seus conquistadores é uma perda de tempo, pensou Rudano. Seria necessário uma grande purificação para liberar a nação celestial de todo ranço pútrido e pernicioso dos impuros. Mas como fazer isso? Rudano era apenas um jovem isolado no meio de um orfanato cercado de sujeitos que o odiava. Como conseguir aliados para derrubar um império subserviente às forças cristãs totalistas?

O mundo lá fora do orfanato não seria igualmente gentil para com Rudano e os gêmeos, na verdade, seria pior. Seu povo o queria morto por ser pagão, e também por outros motivos… os pagãos e seu modo de viver são representantes de uma era que já foi superada.

Parece que derrubar a Dinastia Jugash e lutar contra o Reino de Deus era apenas um sonho distante que não se concretizaria, nada mais que um delírio da cabeça desse jovem.

Rudano cerrou seus punhos e dentes. Ele se sentiu impotente, patético, fraco… e nada poderia ser feito. A não ser que… Rudano escolhesse outro caminho.

A verdade é que, Rudano não se sentia em casa entre os cristãos e nem mesmo entre os pagãos, tudo porque Rudano tinha um jeito “especial” de amar que os impuros não entendiam, e por causa dos gêmeos serem especiais, Rudano encontrou neles seu refúgio para este amor especial. Mas ele sabia que amor não era o bastante, não mesmo… ele precisava de poder, poder para continuar podendo amar sem ser desafiado pelas hordas de impuros que o ameaçava. Ele precisava reunir forças com o amor que destrói.

Rudano encontrou em seu coração a triste percepção: os pagãos também são impuros e também o abominavam.

Dentro de seu quarto, mais uma vez Rudano estava. Ele sentou-se em seu colchão no chão, cansado de um dia de monitor e extremamente afetado pelo castigo dos gêmeos. Já era de noite e a luz do luar banhava gentilmente no basculante do seu quarto.

Rudano mais uma vez pega o livro. Aquele livro. O livro que estava escondido debaixo de seu colchão e que suspirava palavras incompreensíveis a ele.

Sua pegada no livro era firme para evitar o medo que ele estava sentindo de tremer sua mão. Rudano abre o livro lentamente e ele sente mais uma vez as energias voláteis dançando ao redor do livro: cenas de guerra e destruição, gritos psicóticos e de dor. Tudo mais uma vez invadiu a mente de Rudano. O livro estava o testando mais uma vez para ver se ele era digno de lê-lo. Rudano resiste as investidas do livro com fervor. Seus olhos estavam grudados nas palavras desbotadas, nas imagens bizarras que estavam impressas no livro. Quanto mais ele lia, mas os gritos ficavam distantes, e as vozes agora sussurravam calmamente. Rudano parece ter ganhado permissão de ler o livro, pelo menos o primeiro capítulo. Ele não sabia se a sua mente conseguiria resistir aos próximos capítulos, aos próximos testes. Mas ele precisava a todo custo domar este grimório. Era a sua única saída desta prisão miserável que era chamada de vida… era seu passaporte para uma vida de glória.

Enquanto isso, no quarto dos gêmeos, eles já haviam terminado de tomar seus “vermelhinhos” , as mamadeiras cheias de sangue de galinha que dava sustância e reponha o sangue deles, muito contra a vontade de ambos, claro.

— Isso é muito nojentooooo! — Yugi diz gritando e com a boca vermelha de sangue.

— É, bem que Rudano poderia nos dar um sangue diferente, tipo, sangue de porco ou boi, ou até sangue de gente! — Yugiki diz sorrindo com um rosto travesso.

— Nem vem, Yugiki! Eu não vou tomar sangue de gente, Rudi disse que é canibalismo.

— E daí? E se a gente não tiver mais sangue de galinha ou de outros animais? Como é que a gente fica?

— Ah… não sei. Só sei que a gente não pode virar canibal, né. É errado! — Yugi diz.

Yugiki olha sério para a mamadeira de sangue vazia em sua mão, balançando ela lentamente e vislumbrando o resto do líquido dançando no recipiente.

— Sabe que às vezes eu nem me sinto humano…

— O que você tá dizendo?

— Sei lá… é esquisito. A gente ser branquelo, ter dentes pontiagudos e beber sangue. Você não acha que tem algo de errado com a gente além dessas coisas que a gente tem?

— Rudi disse que somos anjinhos!

— Rudano é nosso primo e cuida da gente, é claro que ele vai dizer essas coisas, bobão.

— Você acha que ele tá mentindo?

— Eu só acho que ele não conta tudo pra gente.

— Rudi nunca mentiria, nunca!

— Eu não tô dizendo que ele tá mentindo, lerdo! Tô dizendo que tem alguma coisa que ele não tá nos dizendo.

— Ah… agora entendi.

— Duh!

— Ah! Deixa pra lá. Eu tenho que… fazer uma coisa.

Yugi diz e se põe de joelhos no colchão da cama. O menino reúne a palma de suas mãos ao centro do seu peito, fazendo uma posição de prece.

— O que você vai fazer? — Yugiki perguntou curioso.

— Eu… vou rezar para deus.

— Pra quem?!

— Para deus! O deus dos cristãos.

— Pra que, Yugi?! — Yugiki perguntou franzindo seu rosto.

— Eu vou pedir para ele curar logo os nossos bumbuns! Ainda tá doendo…

— Não! Você não pode rezar pra esse cara!

— Por que?

— Porque ele é nosso inimigo! Nós somos pagãos, esqueceu?

— E daí?! Não se lembra que nos disseram uma vez que o deus dos cristãos responde a qualquer um que tiver um coração arrependido?

— Nós não temos nada do que nos arrepender, Yugi!

— Você não, mas eu sim! Eu me arrependo de ser um pagão! Se eu ser cristão e deixar de ser um pecador eu vou ser salvo e meu bumbum vai melhorar!

— Seu idiota! Traíra…

— Eu não sou traíra!

— Mas é idiota! — Yugi diz bufando de raiva. — Ah, é? Então reza pra esse teu deus idiota! Eu vou contar tudo pro Rudi, você vai ver!

— Rudi vai entender, ele nos ama!

— O que Rudi mais odeia são os impuros. Ele vai ficar com raiva de você, você vai ver! — Yugiki diz. Ele vira as costas para Yugi e deita de lado na cama para evitar que seu bumbum ardido tocar no colchão.

— Hmpf! — Yugi disse.

O menino continua rezando. Ele começou por um Pai Nosso e uma Ave Maria e depois orou pedindo para que sua bundinha sarasse. Ele orou da maneira que seu pequeno coração mandava, já que ele não sabia orar. Mas talvez sua inexperiência seja a evidência de sua inocência, e por isso, sua oração seja mais forte do que de alguém que saiba orar.

— Hã… papai do céu? Deus… eu venho aqui me arrepender de ser um pagão e… eu peço que cure o meu bumbum e o de Yugiki, por favor. Amém. — Yugi disse e voltou a se deitar na cama. Yugiki tinha tampado seu ouvido com as duas mãos para evitar ouvir a oração de Yugi.

— Ei, Yugiki, vamos dar o beijo de boa noite.

— Não! Não quero… — Yugiki disse.

— Por que? A gente sempre dá um selinho!

— Porque… você é um idiota.

— Eu não sou!

— Você vai ficar sem selinho essa noite. Pra você aprender! — Yugiki diz, tampando seu rosto com o edredom.

— Tá bom, e—eu não queria mesmo! — Yugi diz com a voz tremendo.

De certa forma, Yugiki estava se sentindo meio aliviado. Ele sabia que dos gêmeos, Yugi era o favorito de Rudano, quem sabe assim Yugiki agora seja o dono das atenções de Rudano, agora que Yugi estava fazendo algo que Rudano reprovava. Yugi vira de lado da cama e suga sua chupeta com força, respirando fundo. O menino deixa lágrimas silenciosas cair de seu rostinho enquanto tenta cair no sono.

Próximo Capítulo...