CAPÍTULO 1: COISAS ESTRANHAS ACONTECENDO NO ORFANATO JUNMI
Ano de 27,510 do Terceiro Período da Duodécima Segunda Era(27,510 3P12E). Aproximadamente cem anos após a Batalha de Wudi. Planeta de Urudânia.
Era uma noite chuvosa lá fora e o som das gotas de chuva abafava quando colidiam no teto do sótão. O orfanato estava quieto, característico das noites em que as crianças são postas para dormir pelos monitores.
Evadir a noite de sono para engajar em travessuras era proibido pela direção e as crianças sofriam temidos castigos, como as palmadas no bumbum. Ainda sim, existiam alguns aventureiros que gostavam de desobedecer às ordens da senhora Junmi, a diretora do orfanato que governava sua instituição com suas mãos femininas de ferro. As crianças eram particularmente atraídas pela caça ao sobrenatural, principalmente à noite nos banheiros do antigo orfanato, onde dizia-se que havia um espírito maligno que ria da cara de quem tentava fazer cocô no vaso sanitário. Como se alguém rir de sua cagada fosse o problema, na verdade, o real problema era ser pego pelos monitores, órfãos mais maduros que se voluntariaram para serem os “cãezinhos” da guarda de Senhora Junmi, como eram chamados pelos órfãos mais jovens. Os monitores eram considerados traíras pelos órfãos mais jovens por servir aos mandos e desmandos da senhora Junmi, mas, ainda assim, eles emanavam respeito, eram mais velhos, fortes e maduros do que os pirralhinhos que costumavam os peitar. Eram leões ao redor de hienas e, como muitos sabem, é necessário um clã inteiro de hienas para enfrentar um leão sozinho.
O Orfanato Junmi para Crianças Indesejadas tem um arsenal de crianças vindas da última rebelião celestial que o planeta enfrentou, onde os arsenais dos inimigos dos celestiais criaram uma nova geração de órfãos. Passou-se pouco mais de cem anos desde que a Dinastia Liao caiu para o seu arquiinimigo, o Reino de Deus, mas ainda sim, as cicatrizes da guerra ainda são perceptíveis: bilhões de vidas foram perdidas e a capital do Império, Urudânia, foi o planeta mais atingido. As crianças do orfanato são as gerações de crianças que perderam suas famílias nos bombardeios incessantes do Cerco de Urudânia durante a recente rebelião, planeta capital da antiga Dinastia Liao que governava o Sacro Império. Muitas perderam seus pais, tios e avós e agora encontram um lar para chamar de seu nas estruturas grandiosas do orfanato Junmi com a esperança de serem adotadas e finalmente receberem o conforto e carinho que toda criança espera. Mas era uma esperança muitas vezes em vão, pois em um mundo devastado pela guerra, Urudânia, a antiga capital do império tinha muitas necessidades para serem providas, e aqueles que mais precisavam estavam fora dos orfanatos: os adultos que mantiveram a economia de guerra do planeta funcionando.
O sótão improvisado como quarto era empoeirado e malcuidado. Cheios de cacarecos que já não eram mais utilizados pelo orfanato. Baús e caixas de madeira estavam largados nos cantos das paredes. Os baús abertos tinham roupas empoeiradas, as caixas empilhavam entre si até o teto dos sótãos.
Havia um silêncio aconchegante no quarto, que era abafado pela voz de um jovem que contava historinhas para dois meninos especiais.
Mas longe da preocupação dos adultos fora do orfanato, existiam quatro olhinhos inocentes que não conheciam a realidade malsã que permeia o seu próprio planeta.
Eram dois meninos deitados em sua cama num sótão improvisado como quarto, eles olhavam fixamente ao jovem sentado à sua frente, que contava uma história que os deixou entusiasmados. Não eram essas histórias que conhecemos nos livros de histórias de nossas escolas, onde as guerras são ideológicas e complexas, cheias de personagens que parecem divergir nem na prática e nem nas ideias. Não, eram histórias sobre heróis que guerreavam contra as forças do caos e seus deuses para salvar a galáxia da ruína. Heróis, outrora rivais que se uniram pelo bem comum para destruir as hordas do caos.
— “O menino então virou de costas para os anjos voando no campo celeste e desceu as escadas da pirâmide para ir de encontro com o seu destino.” — O jovem narra a história banhado pela luz do candelabro e com uma voz cheia de entusiasmo, assim terminando de ler o livro que estava escrito, “A Saga do Clã Kyogami” em sua capa.
Quando ele terminou de contar a história, o jovem retirou seus olhos do livro, abaixou o tomo e o fechou, fixando seu olhar nos quatro olhinhos rosas que estavam deitados na cama à sua frente. Eram dois meninos gêmeos idênticos com a pele e cabelos brancos como a neve, o que dava a eles uma aparência bela, etérica e angelical, ao mesmo tempo frágil e até desconcertante para os que não estavam acostumados com sua presença. Seus olhos eram rosas e eles fitavam o jovem com um olhar cansado. Eles já estavam com sono depois de mais uma sessão de historinhas contadas pelo jovem. Mas mesmo com o cansaço deles, eles ainda conseguiam estar grudados na história.
— Então… curtiram a historinha? — o jovem perguntou. Os dois meninos levantaram as mãozinhas ao ar sorrindo e dizendo, “Sim, Sim!” em total sincronia.
O jovem sorriu para os gêmeos. Ele achou que a parte do sacrifício minaria a recepção da história aos olhos dos gêmeos por ser uma cena demasiada dantesca, mas parece que não teve efeito negativo algum.
— Okay, okay, meninos. Não gritem. Tem outros querendo dormir nos outros quartos.
— Desculpa… — os dois dizem juntos.
— Tudo bem, eu vou cortar essa porque vocês gostaram da história. Mas antes eu quero saber, quem dos personagens vocês mais gostaram nela?
— Eu primeiro! — diz o gêmeo sorrindo deitado na direita. — Eu gostei do Hito!
— É mesmo, Yugi? — o jovem perguntou sorrindo — E o que você gostou nele?
— Eu gostei que ele é perto da minha idade e do meu irmão Yugiki, e também que ele é um guerreiro e ainda era criança!
— Que bom que gostou! Sabia que o Hito é na verdade nosso ancestral? Ele faz parte do nosso clã, os Kyogami, assim como nós.
— Então quer dizer que nossa família é uma família de heróis?! — Yugi pergunta com um sorriso largo no rosto.
— Sim! Nós somos príncipes Kyogami, temos muiiita história para contar! — o jovem diz.
— Eu sou um príncipe Kyogami! — Yugi diz entusiasmado.
— É, o Hito é bem legal mesmo! — diz o irmão gêmeo de Yugi, Yugiki deitado à esquerda.
— Então você curtiu o Hito também, Yugiki? — pergunta o jovem.
Yugiki dá um sorriso travesso para o jovem. — Não… eu gostei de outro! — ele diz com a voz cantando.
— E quem é? O Imperador? — Perguntou o jovem.
— Não! — Yugiki diz com o rosto de quem não foi compreendido. — Eu gostei dos Xon!
O jovem olhou com atenção para Yugiki e com um leve sorriso. Ele achou que seria ou o Imperador, ou talvez outro personagem “do bem” que ele leu na história. Yugiki escolheu o vilão principal logo de cara. Yugiki é um daqueles meninos que gostam de dar trabalho, então não surpreendeu ao jovem que ele tenha se identificado com o vilão que mais dá trabalho na história.
— E por que você gostou dos Xon, Yugiki? — perguntou o jovem.
— Ah, eles são legais porque eles fazem o que querem e não ligam para ninguém. E também eles são gêmeos como eu e meu maninho, né, Yugi?! — Yugiki pega seu irmão pelo pescoço forçando cafunés com o punho cerrado na coroa de seu irmão. Ambos riem infantilmente.
— Meninos! Sem barulho! — o jovem reprime e os gêmeos pedem desculpas, mais uma vez em uníssono. — Tudo bem… Yugiki, gostar de vilões não é errado, eu mesmo gosto de alguns. Mas é bom a gente curtir um herói de vez em quando, só pra equilibrar as coisas. Qual herói na história você gostou mais?
Yugiki dá um sorriso largo e levado. — Yamantaka!
O jovem sorri.
— Um herói do caos, né?
— Ah, Yugiki! Você só gosta de cara malvado. — diz Yugi ao seu irmão.
— Mentira! — diz Yugiki meio revoltado — Eu também gostei do Imperador e do Hito. Mas… — Yugiki fica pensativo, e o jovem pergunta “Mas o que, Yugiki?” ao menino. — Mas é que sem os vilões não tem graça, né.
O jovem sorri.
— Ah, isso é óbvio! Sem os vilões não tem graça alguma. Mas meninos… não estamos falando de contos de fadas, essa é uma história real com personagens reais.
— Mas temos que nos sacrificar também igual o Imperador? — perguntou Yugi.
— Sim, nossa antiga religião via o sacrifício como um ato honroso que nos eleva à glória dos deuses! — o jovem disse entusiasmado. — Porque os deuses se sacrificaram por nós, nós também temos que nos sacrificar por eles.
— Aaah… eu não gostei disso, não. — diz Yugi com a voz trêmula. — Eu não vou me matar por ninguém, ainda mais pra esses deuses que eu nem conheço!
— É, pra que vou me matar pra esses deuses? — perguntou Yugiki.
— Ah, não! Antigamente quem era sacrificado aos deuses eram nossos inimigos. Esse caso do Imperador Liao foi só uma exceção, meninos! Vocês não precisariam se sacrificar tendo inimigos para isso, entenderam? — o jovem diz com um leve sorriso no rosto.
— Ah, bom, assim, sim! — os gêmeos dizem em uníssono.
— É por isso que nós precisamos cumprir com o nosso dever para com os deuses, meninos, porque os deuses cumprem os seus para conosco. — diz o jovem.
— Mas eu nunca ouvi falar desses deuses que você inventou! — diz Yugiki.
— É, e esse tal de “Saco Império”, aí. Essa Dinastia Iao também não! — diz Yugi.
O jovem ri.
— Meninos, eu não inventei nada. Toda história que li para vocês é real, aconteceu de verdade, aliás, eu peguei esse livro da biblioteca do nosso clã! — o jovem mostra a capa do livro escrito “A Saga do Clã Kyogami”. — É um livro de história como outro qualquer. E é claro que vocês nunca vão ouvir falar dos deuses. Nossa antiga religião e nosso passado não vão ser ensinados a vocês pelos professores. Eles não querem que vocês saibam da verdade porque eles trabalham para os Jugash. São traíras! Eu e vocês, na verdade, somos filhos dos deuses e do Sacro Império Celestial!
— O professor Haldol disse que nós moramos no… — Yugiki responde, mas é interrompido bruscamente pelo jovem.
— Não! Nós não moramos nesse país. Meninos, esse tal de país aí sequer existe! Não confiem em nada do que o professor Haldol ou os professores te dizem. Nós somos urudanianos e estamos morando agora no Sacro Império Celestial governado pela Dinastia Jugash! Infelizmente… — O jovem diz quase que esbravejando. — E não moramos nesse planeta que os professores vivem dizendo também, moramos no planeta de Urudânia, capital da Dinastia Jugash! — o jovem diz de uma maneira bem imperativa.
Os meninos arregalam os olhos, surpresos e um pouco amedrontados. O jovem nunca foi de dar bronca neles assim, mas quando necessário, se torna algo inesperado até para Yugiki que está acostumado a levar bronca dos outros funcionários do orfanato.
— T—tá bom… — Yugi diz, sozinho.
— Lembrem—se, meninos, tudo o que eu digo é a verdade. Sobre nossa antiga religião e sobre nosso país e nosso povo. Só eu e vocês sabemos da verdade sobre tudo, o resto estão vivendo em uma mentira! Então mantenham segredo. — o jovem enfatiza.
— Mas a gente sabe nada dessa religião! — diz Yugi.
— É, a gente vai manter segredo do que? A gente sabe de nada! — completou Yugiki.
— Não se preocupem, meninos. Amanhã eu vou explicar sobre nossa religião para vocês. — o jovem diz sorrindo.
— Ei,ei! — acena Yugiki, totalmente alienado do tópico que o jovem e Yugi estavam discutindo. — Os Xon são malvados? — perguntou Yugiki com olhar curioso e ao mesmo tempo desafiador.
— Os Xon, eles… bem. Eles enxergam tudo como uma brincadeira. Mas as brincadeiras deles são de mau gosto às vezes porque machucam muitas pessoas. Eles são deuses do caos e não ligam pra isso, mas eles também são deuses sábios. Talvez deve ter algum conhecimento na loucura deles! — diz o jovem rindo de leve.
— Eu acho que se os Xon tivessem um papai e mamãe para cuidar deles eles seriam bons invés de malvados. — diz Yugi.
— Eu gosto deles do jeito que são! — diz Yugiki. — Imagina só se a gente tivesse magia do caos, Yugi?! A gente podia fazer o que quiser contra os bullies que enchem nosso saco! A gente podia acabar com eles rapidinho!
— Eu sei lá… eu só quero que eles nos deixem em paz. Não quero machucar eles. — Yugi diz meu choroso.
— É porque você é fraco, né… então deixa os poderes só para mim, mesmo. Você fica atrás de mim enquanto eu te defendo como sempre.
— Ei! Eu sei me virar! — diz Yugi para seu irmão revoltado.
— Claro, claro, esse teu olho roxo aí, diz o contrário. — diz Yugiki quase cantando.
— Chega, meninos! — O jovem se levanta da cadeira do sótão improvisado como quarto. — Bem, a história foi essa por hoje. Amanhã eu vou contar a história da nossa religião para vocês, e dessa vez é coisa séria.
— Sério?! Você pode dizer?! — pergunta Yugiki entusiasmado.
O jovem ri ternamente. — Não, agora não posso, Yugiki. Preciso… fazer algumas coisas antes, ler a sinopse do livro para ver se é adequado contar a vocês.
— O que é “sinospe”? — Yugi pergunta curiosamente. Os gêmeos de sete anos não tem o vocabulário rebuscado que o jovem tinha, fruto de noites dormindo em cima de livros na biblioteca do orfanato.
— É… ele fala uns negócios difíceis às vezes. — diz Yugiki.
O jovem riu.
— É tipo um resumo, um textinho pequeno explicando a história do livro.
O jovem se agacha e dá um beijo na bochecha de Yugiki e depois na de Yugi. Os gêmeos retribuem segurando o rosto do jovem e beijando sua bochecha também, dando risadinhas infantis. E todos dizem boa noite. Yugiki fez um cafuné no cabelo do jovem, ao que ele reclamou da brincadeira que Yugiki fez porque deixou de cabelo desgrenhado.
— Ah, e meninos! Não se esqueçam, não falem nada do que estamos fazendo juntos pra ninguém, tá bom? — O jovem diz e os gêmeos acenam com suas cabecinhas. — Agora, antes de começarmos mais uma história amanhã, eu quero deixar um dever de casa para vocês dois.
— Ah! Já basta os deveres que o professor Haldol deixa! — diz Yugiki chateado cruzando os braços.
O jovem olha para os gêmeos com um sorriso inesperado para eles. Eles não entenderam o porquê o declínio deles fez o jovem ficar feliz.
— Bom, já que vocês não querem, pode deixar que eu faço por vocês! — ele disse.
— O que tu tá tramando? — perguntou Yugiki curioso.
— O que é? — perguntou Yugi.
— Vocês vão saber. É uma historinha que estou fazendo. Não se preocupem, vocês vão saber… — Ele disse com um sorriso. — Ótimo, está na hora de dormir. Agora digam pra mim o juramento de sempre de vocês! — o jovem diz.
Os gêmeos levantam a palma de suas mãos direitas em sinal de juramento — “Nós somos urudanianos e moramos no mundo de Urudânia, no Sacro Império Celestial governado pela Dinastia Jugash. Nossa religião é a religião celestial e nossos deuses os deuses celestiais”. — os gêmeos dizem em total sincronia. Depois de dizer o juramento toda vez que o jovem vai embora, eles gravaram letra por letra do que o jovem ordenara eles a recitar.
O jovem sorri para os gêmeos e caminha até a escadaria do sótão para ir embora, mas Yugi o chama.
— Ei, quem vai ser você nessa nova história mesmo? — o menino perguntou curioso.
— Vocês sabem quem eu vou ser. — O jovem olha para os gêmeos sorrindo calorosamente. — Rudano. — ele diz. — Eu sou Rudano. Mas vocês podem me chamar pelo apelido que vocês sempre me chamam… de Rudi! — Rudano dá um último olhar aos gêmeos e acena com as mãos dando adeus a eles por hoje.
Yugi observa Rudano indo embora e quando ouve o barulho da porta se fechando.
— Rudi é muito legal, né? — perguntou Yugi ao seu gêmeo se embrulhando no cobertor. — Ele até vai criar uma história para a gente brincar juntos!
— É, eu queria mesmo que ele nos colocasse como personagens principais. — diz Yugiki.
— Ele vai sim! Ele mesmo disse, Yugiki.
— É mesmo, Yugi? — Yugiki dá um sorriso travesso pro seu gêmeo. — E quem vai te defender quando alguma coisa querer te machucar, hein? — Yugiki pega seu travesseiro por trás e bate com tudo no rosto de Yugi, mas o reflexo de Yugi o faz levantar seus braços em defesa e Yugiki continua batendo no seu irmão com o travesseiro.
— Ai, ai, Yugiki, para! — Yugi diz dando risadinhas, mas Yugiki persiste em golpear seu gêmeo com suas “travessuras”. — Para, Yugiki! Sério.
Yugiki para como seu gêmeo pediu. — Deixa de ser chato, Yugi, bora brincar! — diz Yugiki.
— Eu não sou chato, só tô com sono. — diz Yugi esfregando os olhinhos com uma de suas mãos.
— Tá, bora dormir, então. Amanhã temos que acordar cedo pra aula do chato do professor Haldol. — diz Yugiki colocando seu travesseiro de volta no lugar e deitando sua cabecinha nele.
— Ei, Yugiki. Já pensou em como vai ser a nova história do Rudi? — pergunta Yugi.
— Sim, já. Espero que seja aquelas histórias sobre guerras e muitas batalhas!
— Sei lá, eu espero que ele conte algo diferente, tipo, alguma história sobre contos de fadas.
— Contos de fadas são para meninas, seu maricas.
— Eu não sou maricas! E isso aí de contos de fadas ser de maricas é nada a ver!
— Nada a ver? Então por que o conto é de fadAs? E não de fadOs?! — Yugiki pergunta com um sorriso malicioso.
— Para de encher meu saco, Yugiki! — diz Yugi.
Yugiki põe a mão no rosto de seu gêmeo e o acaricia.
— Calma, maninho, só tava te zoando. — Yugiki sorri para seu gêmeo e se aproxima de seu rosto. — Hora do beijo! — Ele diz sorrindo e segura o rosto de seu irmão com as duas mãozinhas, faz biquinho com sua boca e dá um selinho na boca de Yugi. — Eu te amo, tá?
— Também te amo! — Yugi sorri para seu irmão e o dá um selinho. Os gêmeos abraçam um ao outro e dormem de conchinha nessa noite friorenta que está fazendo em Urudânia.
Rudano desce as escadas do quarto sótão dos gêmeos com a mente vagando em mil cenários diferentes. Batalhas e guerras em que ele participaria com os gêmeos contra os inimigos mais sórdidos já vistos. Imaginação para este jovem de dezesete anos era o que não faltava. Rudano passara boa parte de sua estadia no orfanato mergulhado em livros na biblioteca. Sempre andava com um livro em sua axila para lá e para cá. O que rendeu a ele o apelido de “tracinha”, o inseto que come páginas de livros. Os livros lidos por Rudano eram de variados conteúdos. Indo de romances a fantasias e livros históricos sobre geopolítica. Seu hábito de leitura intermitente o fez ganhar alguns inimigos entre os bullies no orfanato que enxergava Rudano como um moleque metido a inteligente.
Mas tudo mudou para Rudano quando ele viu os gêmeos pela primeira vez a sete anos atrás, quando ele tinha seus onze anos de idade. Ele sentiu algo diferente nesses meninos com pele e cabelos brancos como a neve e olhos. A aparência angelical, etérea e frágil dos gêmeos atraiu Rudano a eles, intrigado pela peculiaridade dos gêmeos. O que muitas crianças e funcionários viam com repulsa no orfanato, em seu coração, o menino adotou os gêmeos albinos como seus irmãozinhos. E ao pegá—los em seu colo pela primeira vez, Rudano sorriu ternamente para eles. Ele sabia que estes gêmeos eram os seus eleitos. Rudano se tornara o guardião dos meninos, e muitas vezes assumia o papel de cuidador e empregando os cuidados que a fisiologia frágil dos gêmeos exigia, como dar banho para limpar suas peles frágeis e depois vesti—los. A Senhora Junmi prontamente aceitou que Rudano cuidasse dos gêmeos, enxergando no cometimento do menino como um alívio, já que até as outras funcionárias rejeitavam tratar dos meninos por eles darem muito trabalho.
Rudano abriu a porta do sótão e uma luz branca consumiu seu rosto, ao que ele tampou com suas mãos para enxergar melhor. Depois disso, ele fechou a porta e andou pelo corredor adiante do orfanato. O orfanato não estava bem cuidado. Embora ele tivesse uma estrutura grande e majestosa, longo foram os dias que passaram a sua idade de ouro. O orfanato precisava de reformas urgentes para a segurança das crianças. Mas em um mundo devastado por guerras, quem iria doar o dinheiro necessário para reconstruir a instituição? Todos estavam passando por necessidades, não apenas o orfanato. A decadência veio, e Rudano e outras crianças do orfanato estão vivendo nela.
Pelos corredores, Rudano estava ouvindo uma voz chamando pelo seu apelido, “Tracinha! Tracinha!”, a voz o chamava. Mas ele não conseguiu prestar atenção, até que esta voz chama por seu nome.
— Rudano! — a voz diz. E o jovem olha para trás e vê uma moça de cabelos negros e longos olhos verdes penetrantes com um semblante combativo.
— Anna? — Rudano perguntou — O que que tu quer? O que faz aqui?
— Você é surdo? Alô, mundo para Rudano. Eu tava te chamando!
— Aaargh! Lá vem a dona encrenca… — diz Rudano.
Anna se aproxima de Rudano com uma expressão enfurecida. — Não tem graça, Tracinha! Eu estava te procurando por todo o orfanato! Onde é que você tava?!
— Eu estava com os gêmeos, Anna. — Rudano diz. — E caso não tenha percebido, eu sou um monitor assim como você. Eu tenho permissão para andar por aí e caçar pirralhos encrenqueiros de volta para os seus quartos como eu fiz com os gêmeos! — Rudano obviamente mentiu, os gêmeos não escaparam de seu sótão, mas Rudano inventou a mentirinha para justificar sua estadia com os gêmeos.
— Não adianta me enganar, Rudano! Esse teu livro debaixo do seu sovaco te denuncia! — diz Anna. — Rudano desvia o olhar de Anna, não por medo mas de irritação. — Deixa eu ver então! — Anna fisga o livro de Rudano e dá as costas a ele e corre se afastando dando risadinhas.
Rudano segue a moça mais irritado ainda tentando agarrar ela para devolver seu livro.
— Me dá isso, Anna! Não é seu!
Anna ri de deboche.
— “A Saga do Clã Kyogami”? Você não tá lendo esses livros macabros que você escreve cheios de sangue e morte pros gêmeos não, né? Eles são crianças, cara!
— Eu não escrevi nada! E eles não tem problema com sangue. Eles são meninos, não menininhas que se borram por qualquer coisa! — diz Rudano tentando agarrar o livro de Anna.
A moça dá umas gargalhadas.
— Rudano! Seu tonto.
— Me dá isso! — Rudano diz e pega o livro das mãos de Anna com a capa amassada. — Olha a merda que você fez. A capa amassou! — Rudano diz inspecionando o livro irritado.
— Ótimo, poderia jogar na lareira da sala comunal pra poder esquentar as crianças, pelo menos ia prestar pra alguma coisa, né, Tracinha!
Rudano pareceu ter ficado sentido pelo insulto de Anna, mas ele decidiu não abaixar a cabeça.
— Eu prefiro jogar você na lareira, assim o fogo vai durar muito mais que meus livros! — Rudano diz sorrindo de deboche.
— Seu escroto! — Anna diz revoltada.
— Vai fazer o que? Contar pro seus pais, ou pros meus? — perguntou Rudano de deboche.
— Você é muito escroto, Rudano. Isso é coisa séria, cara! — Anna diz.
— Tá bom, tá bom! Mas me diz logo o que você quer de mim, mulher! Além de zuar com meu livro…
— Eu não sou sua “mulher”, não, tá Rudano?! — Anna diz respirando fundo, parecendo querer desabafar algo. — É que, estamos ouvindo choros de criança vindo do antigo orfanato.
Rudano abre seus olhos em surpresa, quase soltando um sorriso, mas depois ele se recompõe e faz um sorriso de deboche.
— Grande coisa, isso faz parte das lendas, não faz? Você não está velha demais pra acreditar em historinhas de fantasmas? — diz Rudano desdenhando da situação.
— Olha quem fala, seu imbecil! E você que fica acreditando nessas histórias idiotas de pagão que você lê!
— As histórias que eu leio… não são idiotas! — Rudano é interrompido por Anna.
— Me poupa dessas suas desculpas, Tracinha! Dessa vez a coisa é séria: nós podemos ouvir os choros de verdade. E se alguma criança estiver mesmo lá? Se sim, não podemos deixar ela passar a noite no antigo orfanato. É perigoso!
— E por que ainda não entraram lá? — perguntou Rudano.
Anna arregalou os olhos de medo, mas depois reverteu sua costumeira postura afrontante contra Rudano. — Por que você acha que eu entraria lá sozinha? Idiota!
— Hmmm… então será que… — Rudano dá um sorriso debochado. — …a dona encrenca tá com medinho de entrar no antigo orfanato?
— Para de brincadeira seu escroto! — Anna esbraveja — Nós temos que procurar por eles porque a Junmi já está no nosso pé e vai ficar no seu também por enfiar essas baboseiras nas cabeças dos gêmeos! — Anna diz apontando para Rudano. O jovem olha para a Anna com seriedade e fica calado.
Não adiantava mais tentar argumentar com Anna que as histórias que Rudano conta para os gêmeos não são uma “baboseira”, e sim a história dos urudanianos, a raça a quem Anna e Rudano fazem parte e em que sua anciã história e religião são relegados ao estado de uma superstição malsã qualquer nos dias de hoje, graças aos esforços do Reino de Deus.
— Okay… vamos então. — Anna concorda e Rudano a segue pelos corredores do orfanato.
E então eles começaram a andar pelos corredores do orfanato. E que estrutura impressionante ele era! Eram seis andares, sendo os dois primeiros reservados salas de aula onde os órfãos estudavam, o resto eram os dormitórios dos internos. O orfanato na verdade possuía dois edifícios principais: o orfanato dos meninos, onde Rudano e Anna estavam localizados ao oeste, e o das meninas ao leste. Ambos separados um do outro por um grande pátio onde os internos faziam seus recreios, brincavam de pique—pega e apoiavam uns aos outros nas suas esperanças de serem adotados, ou não.
Os dois prédios eram separados por uma grade para impedir que os meninos entrem no prédio das meninas e vice—versa. Misturar meninos com meninas sempre foi um problema aos olhos da sociedade urudanianan antes de serem conquistados pelo Reino de Deus e parece que nada mudou depois da conquista. A Senhora Junmi não queria problemas com o governo imperial da dinastia, já bastava os problemas que os órfãos com seus passados traziam. O orfanato, porém, tinha sorte de estar localizado em um lugar remoto da cidade de Tianjing, capital do império, e portanto atraía pouca atenção dos olhares minuciosos dos inquisidores da Dinastia Jugash.
Mas havia também mais ao norte dos dois prédios um prédio remanescente do passado do orfanato, o chamado “antigo orfanato”. Este prédio abandonado era onde o Orfanato Junmi original existia antes de transferir os internos para os novos prédios que foram construídos. As crianças contavam histórias de terror sobre o antigo orfanato, diziam elas que qualquer criança que passasse uma noite inteira no antigo orfanato seria adotada no dia seguinte. Essa era uma lenda que passou de geração em geração de órfãos que passaram pelo orfanato Junmei. Há de se perguntar então porque ninguém até agora tentou provar essa lenda como verdadeira. Bem… acontece que o antigo orfanato era conhecido por ser assombrado por espíritos das crianças que não conseguiram ser adotadas antes dos dezoito anos, a idade limite para continuar residindo no orfanato. Poucos tinham coragem de passar uma noite em um prédio assombrado.
Em contraste com os prédios atuais construídos pela suspeita beneficência do governo do Império, o prédio antigo está abandonado, decrépito e mal cuidado e cercado de mato. A burocracia imperial já havia marcado o antigo prédio para a demolição a anos atrás, mas mesmo com as constantes tentativas da Senhora Junmi de lembrá—los de seu dever, parece que a ordem de demolição se perdeu no labirinto da burocracia imperial da Dinastia Jugash.
De volta aos nossos monitores do orfanato, Rudano e Anna caminham entre os corredores em direção a saída do prédio dos meninos. O orfanato estava silencioso na calada da noite. Ainda era possível ouvir algumas vozes infantis e distantes dos meninos conversando deitados em suas camas nos dormitórios do orfanato e a chuva lá fora, agora caindo gentilmente no chão. Mas ainda tinha alguns meninos que estavam olhando pelas frestas das portas de seus dormitórios, e Rudano os advertiu.
— O que estão fazendo, aí? — perguntou Rudano ao menino.
— Nada… é que ouvimos vocês falarem sobre o antigo orfanato e… o menino chorão. — disse um dos órfãos.
— Nós vamos resolver, não se preocupem. — disse Rudano.
— Agora voltem para suas camas agora, moleques! Não temos tempo. — diz Alice, e os meninos concordaram e fecharam a porta de seu dormitório e foram para suas camas.
— Anna… quem manda aqui no prédio dos meninos sou eu e o Ulrich! Você e a Dido se metam nos problemas do prédio de vocês. — diz Rudano.
— Tá bom! Quem disse que quero mandar nesses meninos tarados? — Anna diz e continua a andar enquanto Rudano corre um pouco para acompanhar a jovem.
— Ei, eles não são tarados! São só meninos sendo meninos… — Rudano diz, afinal, os meninos do orfanato quase não tinham contato com o sexo oposto.
Seus passos eram passos apressados e fazia a madeira do chão rangir. Os jovens andaram pelos corredores do orfanato dos meninos e reprimiam os órfãos que apareciam com seus olhares curiosos despertados pelos seus passos.
A chuva lá fora havia estiado um pouco, o temporal já não trazia mais o cair dos relâmpagos nos céus. Assim era melhor para os monitores andarem até o antigo orfanato. Parecia que a natureza queria facilitar o trabalho dos monitores, parecia que a natureza sabia o que estava por vir.
Os jovens passaram pelo salão principal do orfanato que conectava o prédio a todos os corredores, havia também uma escadaria no centro do salão que levava os órfãos a andares superiores. O salão principal era a parte mais ornamentada do orfanato. O que mais chamava atenção no salão era um busto de bronze da Senhora Junmi no centro do salão, um pouco mais adiante da escadaria. Ela carregava um semblante neutro, mas mesmo assim era demasiado sério para os meninos. Havia uma cópia deste busto no prédio das meninas também, mas o semblante de Senhora Junmi estava levemente alterado para carregar um pequeno sorriso em seu rosto.
Rudano nunca se importou ou teve interesse em visitar o prédio das meninas em contraste de alguns de seus colegas de orfanato, então ele não tinha ideia de que… “talvez” para a Senhora Junmi algumas crianças eram mais iguais que outras. Prova disso que Rudano teve que passar pela dispensa e pegou uma lamparina velha para iluminar seu caminho até o antigo orfanato mas nenhum guarda-chuva para tampar os pingos de água vindo dos céus.
No pátio do orfanato dos meninos, Rudano e Anna se encontram com o resto dos dois monitores, eram eles: Ulrich e Dido. Ulrich era um jovem da idade de Rudano, tinha dezessete anos e carregava em seu semblante uma expressão neutra. É difícil ler Ulrich e dizer o que se passava em sua mente. Seus olhos cinzas eram cansados e seu cabelo preto estava sempre lambido para trás com a ajuda de um gel.
Já Dido, bem… Dido é uma das monitoras do prédio das meninas. Ela é uma jovem séria e de temperamento curto, mas ainda sim ela tem mais controle sobre suas emoções que sua colega Anna. Por algum motivo, esse temperamento sério é quebrado quando Dido vê Rudano com seus olhos azuis, e a jovem mostra um pequeno sorriso para ele. Rudano retribui também com um sorriso.
— Oi, Rudano! — Dido saúda a ele.
— Ah, oi, Dido.
— Bem, todos estamos aqui… vocês estão prontos? — Ulrich pergunta despreocupadamente.
Rudano ergue a lamparina e a acende com um fósforo. A lamparina ilumina os arredores dos jovens órfãos.
— Sim… agora sim! — Rudano diz.
E eles seguem o seu caminho seguindo ao norte, em direção ao antigo orfanato, andando pelo pátio do instituto. A chuva que estava caindo dos céus era pouca para encharcar eles. O que eles estavam mais preocupados era com os arredores do antigo orfanato que estavam tomados por árvores e matagal. Ninguém mais visitava o antigo orfanato, a não ser alguns poucos corajosos que se aventuravam de vez em quando, mas esses sempre tomavam detenção e golpes e castigos em suas bundas para não repetir o incidente de novo.
— A Senhora Junmi está preocupada, mas também quer castigar essa criança por nos fazer ir até lá. — diz Ulrich.
— Como ficaram sabendo do choro? Alguém deve ter chegado perto do antigo orfanato para poder ouvir, né? — perguntou Rudano enquanto os monitores caminhavam.
— Uma menina foi pegar uma bola que foi lançada para longe perto do matagal do orfanato no final da tarde e ouviu. Ela achou que fosse um animal, mas ela chamou eu e a Anna e podemos ouvir direito que era na verdade choro de criança. — disse Dido.
— Pode ser uma criança… ou então só um fantasma! — Rudano diz com um sorriso brincalhão.
— Fantasmas não existem, Tracinha… — diz Anna desmerecendo Rudano.
— Talvez seja um fantasma… — Dido diz em concordância com Rudano.
— Você sempre concorda com tudo o que Rudano diz, Dido. Me poupe! — Anna diz.
— Se for mesmo um fantasma, temos que chamar os sacerdotes para… — Ulrich diz, mas é cortado por Rudano.
— Não! — Rudano diz, quase que gritando. — Não precisamos dos sacerdotes dos Jugash… nós podemos nos virar sem eles, nossa religião sabe expulsar espíritos também.
— Só acho que a gente deve deixar essa nossa religião antiga de lado… — diz Ulrich.
— É, Tracinha! A gente não quer problemas com os inquisidores. — Anna diz.
Rudano sabe dessas coisas da nossa antiga religião, né? Se a gente encontrar um fantasma ao invés de uma criança, nós devemos expulsar ele então, é melhor que arriscarmos uma visita dos inquisidores. — Dido diz, e todos ficam em silêncio. Rudano dá um sorriso agradecido pela compreensão de Dido. Parece que ela era a única que o entendia no orfanato, além dos gêmeos, é claro.
— Você dá muita confiança pro Tracinha, Dido. — diz Anna. — Deve ser porque você gosta dele, né? — Anna pergunta com um sorriso de deboche.
— Não! — Dido diz revoltada e com seu rosto corando. — Eu… não tem nada a ver, você é muito maldosa, Anna!
— Deixe a Dido, Anna. — diz Ulrich. — Temos que focar nossa atenção na nossa tarefa, ou se não a Senhora Junmi vai nos pôr todos de castigo! — ele conclui com um semblante sério. Os castigos do Orfanato Junmi eram infames e muitos dos órfãos faziam o que fosse possível para evitá—los. Isso não significa que as crianças deixavam de fazer travessuras, apenas significa que elas faziam escondido dos olhares atentos dos monitores e também da Senhora Junmi.
Rudano concordou com a Dido.
De qualquer jeito… os jovens continuaram persistindo. Rudano estendeu sua luminária antiga para iluminar o caminho adiante que seria tomado pelo matagal que envolvia os arredores do antigo orfanato. Agora eles podiam ouvir… o choro. Estava longe e abafado, mas era possível dizer que era estridente. A criança estava não só consternada, ela sentia dor. O desespero desta criança causava calafrios neste pequeno grupo de resgate.
— Temos que ser rápidos! — Ulrich disse apressado e franzindo suas sobrancelhas.
— Alguém trouxe alguma coisa pra cortar esse mato? — perguntou Dido.
— Não, vamos ter que atravessar o mato na raça. — diz Rudano. Ele estende a sua outra mão para a jovem. — Mas não sozinho! — ele completa com um sorriso. Dido sorri para o jovem e pega em sua mão. Anna estava com seu típico sorriso de deboche e malícia em seu rosto, enquanto Ulrich apenas seguia adiante sem falar nada.
As mãos dos jovens abriam caminho pelo matagal, afastando folhas e o mato grande e descuidado. Podendo ouvir melhor o choro, eles apressaram os seus passos, não podiam demorar mais um segundo. O que quer que seja que esta criança está passando naquele orfanato abandonado e decrépito não podia continuar. Os jovens estavam com seu coração acelerado, seus rostos franzindo, suas respirações ofegantes, todos menos um, Rudano. Ele estava com um semblante neutro, como se esta situação não estivesse o afetando.
Dido estranhou, Rudano estava calmo demais. Ele até deu a mão a ela para ela se sentir melhor, mas não com uma expressão de querer cumprir o seu dever o quanto antes, mas sim com um sorriso despreocupado que escondia algo mais.
— Rudano? — chamou Dido a atenção dele.
— Que foi? — ele pergunta.
— Você está bem? Estou te achando muito… estranho. — diz Dido.
Rudano dá um leve riso.
— Então nada de anormal no planeta Urudânia! — Ele diz e Dido se cala.
Ela volta a olhar adiante, onde o antigo orfanato os esperava. Agora eles podiam ver o edifício se aproximando a cada passo que davam, o choro ficando cada vez mais nítido aos ouvidos, até que o Ulrich, o abridor de caminhos deste pequeno grupo de resgate afasta os últimos dos matagais, e os jovens dão de cara com o orfanato.
De longe já dava para ver como este prédio era antigo, seguia a escola de arquitetura neocelestial, com pequenas torres nas laterais do prédio e uma grande nave ao que parecia ser a entrada do salão principal. Todos os orfanatos eram construídos por entidades caritativas antes da Dinastia Jugash tomar o controle do império. Os novos prédios construídos agora pelos Jugash seguem a escola de arquitetura dos conquistadores. Uma coisa Rudano devia admitir, os cristãos totalistas eram mais caridosos que os pagãos.
Os jovens olharam o antigo orfanato de cima a baixo, vislumbrando todo o esplendor de sua decadência. As janelas estavam vedadas por placas de madeira parafusadas, protegendo o interior da gentil luz das luas de Urudânia. A pintura das paredes já desbotou faz tempo, e pingos de água caiam das calhas furadas comidas pela ferrugem. Mas havia um detalhe que os intrigava: aquela bela porta dupla ornamentada que servia como a entrada do antigo orfanato estava semi—aberta como se estivesse convidando os órfãos para dentro. Eles podiam ver como a falta de luz isolou o edifício nas trevas. E eles ouviram aquele choro, aquele choro estridente…
— Temos que ir, agora! — Ulrich diz.
— Calma, Ulrich, se ela está chorando quer dizer que ainda está viva. — diz Rudano. Ulrich também estava começando a suspeitar da “normalidade” de Rudano. Anna, aquela que o chamava de “Tracinha” por causa de Rudano sempre estar comendo livros com seus olhos, já sentiu que desde que ela o chamou no orfanato havia algo de errado com Rudano.
— Okay… vamos logo, já está tarde e temos que resolver isso. — Ulrich diz e ele é o primeiro a andar adiante da porta de entrada. Rudano sentiu sua mão ser apertada pela Dido, ele olha para ela e dá um leve sorriso.
Ulrich põe a mão na porta e ela faz um som de madeira roçando no chão. Ele entra no salão do antigo orfanato, seus passos ecoando sob o edifício inteiro. Os outros seguem adiante dele.
— Nossa, esse salão é maior que o nosso! — diz Rudano com sua voz ecoando e sendo abafada pelo choro. Ninguém quis saber do comentário dele.
O salão era de fato maior que o atual Orfanato Junmi. Havia uma escadaria no centro do orfanato que não parecia ser segura. Corredores escuros podiam ser vistos, estava escuro demais e as janelas barricadas não ajudavam nem um pouco. Mas com toda a decadência interior do edifício ainda dava para perceber que antes do atual orfanato que as crianças vivem hoje em dia, o antigo orfanato só deve ter sido abandonado para os Jugash encenarem sua virtude ao povo conquistado. “Olha como os Jugash são bonzinhos e os Liao malvados!”, pensou Rudano.
— Ei! cadê você?! — Anna grita pela criança com a palma das mãos ao redor de sua boca.
O resto dos órfãos fazem o mesmo, gritando pela atenção da criança, clamando uma resposta. Dido solta a mão de Rudano que estava iluminando os passos de seus colegas, mas Rudano permanecia quieto. Os gritos dos jovens ecoavam pelo edifício junto com o choro, até que… o choro que outrora os atormentava parou por uns segundos. E eles pararam de chamar, deixaram o silêncio tomar conta do orfanato, mas este silêncio é quebrado por soluços distantes, mas nem tanto. Agora a criança voltou a chorar de novo, mas era um choro baixo, um soluço infantil pequeno aos ouvidos.
— Esse lerdo não vai nos dizer aonde ele está, não?! Que merda! — diz Anna revoltada.
— Calma, Anna! Não sabemos o que está acontecendo com ele. — Dido diz.
— Não mesmo, mas logo ele vai saber o que vai acontecer com ele quando a Senhora Junmi castigar. Tá ouvindo?! — diz Anna esbravejando.
— Anna, isso é problema dele com a Senhora Junmi, só estamos aqui para resolver isso logo e ir embora! — diz Ulrich.
— É… não dá para gente, “separar e procurar pistas” porque está muito escuro, e como eu sou o único que se lembrou de trazer luz aqui… vocês vão ter que ficar grudadinhos em mim.
— Nem vem, Tracinha! Você fede a livro velho! — diz Anna.
— E eu vou feder a bafo quando ficar perto de você! — diz Rudano.
— Ei, ei! — Ulrich grita para chamar atenção dos dois. — Rudano, então ilumina o caminho pra gente. Vamos ter que seguir o sentido do choro… eu acho que essa criança deve tá no segundo andar desse orfanato.
Rudano concorda com Ulrich, mas antes de seguir adiante ele mostra a língua para Anna que bufa de raiva.
O grupo de resgate segue adiante subindo as escadarias do salão principal com cuidado. Ninguém queria pisar numa madeira podre no chão e cair para o subterrâneo do orfanato. Subindo o segundo andar, o choro se aproximava mais. Ulrich achava que a fonte do choro estava no corredor a oeste deles, já Rudano achava que o choro vinha do leste.
— Então bora resolver isso no pedra, papel, e tesoura! — disse Rudano.
— Tracinha é muito infantil mesmo, tu já até deve ter pelo no saco e fica aí brincando igual menininho — diz Anna.
— Sim, eu tenho mas eu passo a lâmina. Depois eu te mostro quando puder, Anna, mas primeiro temos que terminar nosso resgate! — Rudano sorri de zombaria.
— Eu NÃO quero ver esse teu pinto murcho e pequeno, Rudano!
— Cacete. Chega vocês dois! — disse Ulrich.
Rudano fecha a sua mão esquerda balançando diante de Ulrich que faz o mesmo. Os dois estendem a mão diante do outro e depois mostram seus resultados! Rudano fez papel, Ulrich pedra.
— Acho que venci… — diz Rudano. — Mas vamos procurar no lado que Ulrich quer primeiro!
— Não. — Ulrich diz. — Acho melhor do seu lado primeiro, Rudano.
Em silêncio por um certo tempo, Rudano desembucha.
— Claro… — diz ele.
Seguindo pelo leste dos corredores decrépitos deste edifício abandonado, os soluços do órfão se tornam cada vez mais perceptíveis. A cada porta que eles atravessam, os órfãos dão uma olhada de leve para ver se o órfão se encontra dentro. As salas do segundo andar eram antigos dormitórios, nada de interessante havia dentro além de beliches sem os colchões que os órfãos das antigas dormiam.
O antigo orfanato era uma máquina do tempo, e visitá-lo fez os adolescentes deste grupo de resgate pensar em como seus antigos conterrâneos viviam por aqui… seus desafios e esperanças. O mesmo que estes adolescentes estão passando no momento, desafios, mas às vezes a esperança cai por terra, pois seus dezoito anos estão se aproximando, e com ele, a ameaça de ser expelido do orfanato, entregue as ruas e a incerteza da vida sem uma família.
Os soluços baixinhos agora estavam ao lado de um quarto, eles podiam ouvir como se estivesse ao seu lado agora, era aquele. Rudano pôs sua mão esquerda na porta que rangeu, abrindo—a levemente. Estendendo sua luminária o adolescente iluminou o caminho. Ele balançou sua luminária para os lados, direita e esquerda procurando a fonte dos soluços que estavam neste exato quarto. Seus colegas estavam atrás dele… até que Dido apontou seu dedo para o canto do quarto.
— Olha! Tem algo bem ali! — ela disse meio assustada.
Rudano estendeu sua luminária para o canto do quarto onde Dido apontou, e a luz revelou o perpetrador de todo este dilema: um ursinho de pelúcia sentado cabisbaixo. Mas o ursinho não parecia ser um ursinho qualquer: ele era demasiadamente colorido e com símbolos estranhos em seu corpo. O ursinho continuava a chorar mas agora mais baixinho.
— O que esse bichinho de pelúcia faz aqui? — Dido pergunta.
— É ele que está chorando?! — pergunta Anna atônita.
— Parece que sim… — Ulrich diz.
— Nossa, eu nunca vi um ursinho de pelúcia tão… estranho. — disse Dido.
— Todos! Não se aproximem dele! — diz Rudano.
— Por que, Tracinha? É só um ursinho. — disse Anna.
— Não… não é só um ursinho, é um ursinho suicida. — diz Rudano.
— “Ursinho suicida”? Você tá delirando de novo, Tracinha? Precisa tomar os seus remédios… — diz Anna.
— Não, idiota! Eu já li sobre eles no livro, O Caos é Infantil. Se você se aproxima deles, eles pulam em cima de você fincando suas garras em seus braços ou pernas e depois… eles explodem.
— Explodem?! — diz Dido.
— Sim… eles se matam para matar seus inimigos. — diz Rudano.
— Isso quer dizer… que ele é um boneco do caos, Rudano? Mas como isso veio parar aqui? — pergunta Ulrich suspeito. Rudano fica em silêncio por uns segundos.
— Não faço ideia. Eu também estou tão bolado quanto vocês. — diz Rudano.
Anna dá gargalhadas e deboche.
— Não é possível que vocês estão caindo nessa ladainha do Tracinha, né? Essas coisas não existem!
— Mas se ele estiver certo, Anna? Você já viu um ursinho chorar sozinho? — pergunta Dido.
— Claro que não! Mas com certeza tem alguma coisa nesse urso que o Tracinha botou para fazer ele chorar desse jeito. Vocês dão muita confiança pros delírios do Tracinha. — diz Anna.
— Não é delírio! Olha, vamos só voltar pra Senhora Junmi e dizer a ela que… — Rudano vê Anna se aproximando do ursinho. — Ei! Não se aproxima, porra!
— Eu vou mostrar pra vocês que o Tracinha… — mas antes dela completar, ela vê o ursinho se levantando e andando de forma desengonçada. Ele abre sua boca dando gargalhadas infantis com uma entonação gutural. — O—O QUE?! — Anna grita e se afasta.
O ursinho anda em direção a Anna agora pegando em chamas, Rudano instintivamente sabia o que ele queria. Ele corre até Anna, puxa sua camisa com suas mãos. O ursinho dá um salto em direção a Anna, mas Rudano puxa ela por sua camisa, fazendo a adolescente recuar, perdendo o equilíbrio e caindo no chão de bunda. O salto do ursinho fez ele cair de cara no chão, ele tenta se recompor, mas antes dele conseguir, todo seu corpo se envolve em chamas. Rudano ajuda Anna a se levantar e os dois correm para longe do ursinho junto com os outros adolescentes. Fora do quarto, uma explosão é ouvida causando um pequeno estrondo no quarto onde o ursinho estava. Eles viram, exatamente onde o ursinho explodiu um pequeno buraco no chão de madeira chamuscado de preto com uma fumaça que tampava sua visão do já escuro quarto. Os adolescentes trocam olhares entre si, mas depois todos os olhares se voltam contra Rudano.
— Rudano! O que foi isso?! — Perguntou Dido.
— Eu disse para vocês! Os ursinhos suicidas se matam, eles gostam de se matar! — Rudano diz.
— Seu! — Anna olhando raivosa para Rudano se aproxima dele e o dá um tapão em seu rosto. O som do estalo ecoou pelo corredor e fez o rosto do adolescente virar ao lado. — Você quase me mata nessa merda de pegadinha sua, seu arrombado! — ela diz, mesmo depois do “Tracinha” ter salvo sua vida.
— Sua… vadia puta! — Rudano rangendo os dentes quis revidar e ergue seu punho para socar Anna, mas Ulrich se põe na frente de Anna, cobrindo—a do eventual golpe de Rudano. — Sai da frente, Ulrich! Eu tenho que solar essa vadia!
— Anna não teve culpa! Foi você o responsável por tudo isso, né, Rudano?! — Ulrich diz esbravejando.
— O que?! Você acha que eu ia fazer a gente vir até aqui e perder nosso tempo atoa? Eu não tenho culpa de nada disso!
— Você não me engana, Rudano! Desde que nos encontramos para vir até aqui eu suspeitei que tinha algo esquisito com você! — diz Ulrich.
— Mas esquisito que ele já é? — Anna diz debochando.
— Sim, eu sou esquisito mesmo, seus merdas. Mas eu não sou um assassino!
— Rudano… você não colocou aquele ursinho naquele quarto, né? — perguntou Dido.
— O que?! Tá duvidando de mim agora também, Dido?
— Não… é que… — Dido tenta se justificar, mas Ulrich prontamente a corta.
— Rudano… você está fazendo magia do caos? — perguntou Ulrich.
Rudano arregala os olhos com surpresa por alguns minutos, mas ele volta de novo a si. Rudano enfia a luminária nas mãos de Dido e ela passa a carregá—la. O jovem se aproxima de Ulrich, tentando o intimidar.
— Claro que não! Da onde você acha que eu vou arrumar algum grimório do caos, em plena Dinastia Jugash que está cheio de lacaios do carpinteiro como vocês por aí, seu lerdão?! No cu da sua mãe?!
— QUE?! — Ulrich grita e dá um murro na cara de Rudano que o faz cair pro chão.
— RUDANO! — Dido grita espantada e vai até o socorro de Rudano, mas ele prontamente se ajeita para se levantar e revidar contra Ulrich, mas Dido segura Rudano par ao adolescente não retaliar. — Rudano, não! Deixa pra lá! Por favor.
— Seu filho da puta! Nunca mais fale da minha mãe! Ela não era um maldito pagão como você… — Ulrich diz e dá uma cuspida no chão. Ele pega a luminária das mãos de Dido.
Rudano ri de deboche no chão, se levantando dele e limpando seu nariz ensanguentado.
— Pagão? Melhor que ser um traíra que abandonou os deuses. Você é um impuro, um lixo Ulrich!
Ulrich tentou se aproximar de novo de Rudano para confrontá—lo, mas Dido se põe no meio do caminho, defendendo Rudano.
— Chega! — ela grita. — Não importa o que aconteceu naquele quarto agora. Nós temos que voltar e dizer a Senhora Junmi o que aconteceu!
— Você vai defender esse pagão agora, Dido?! — esbraveja Ulrich.
— Eu não quero mais discussão entre nós! A gente tem que voltar agora! — Dido diz caminhando.
Ao contrário de Anna, que estava com um sorriso estampado no rosto, feliz por ver a cara de Rudano socada, Dido estava com um semblante severo, como se estivesse dando uma bronca em Rudano e Ulrich. Ela não queria brigas entre seus amigos. Tendo perdido sua família nas guerras da Dinastia Jugash, Dido aprendeu a valorizar laços, por mais instáveis que eles pareçam.
Os quatro jovens deste mal sucedido grupo de resgate começam a fazer seu caminho de volta ao novo orfanato, deixando o antigo orfanato de lado, assim como a burocracia labiríntica da Dinastia Jugash os deixou. Mas a volta não foi tão amigável quanto a ida. Dido agora era a detentora da luminária, parece que ela foi a única capaz de pacificar este pequeno grupo que recebeu um chacoalho. Dido era tida como a favorita de Senhora Junmi, favorita porque Dido era semelhante a ela de certa forma. Mas no fundo, talvez o que esta menina queria mesmo era proteger Rudano de Ulrich. Rudano, a traça de livros do grupo tinha os músculos de seu mental bem desenvolvidos, mas seu físico era frágil comparado ao de Ulrich.
Cruzando mais uma vez a porta dupla do orfanato e andando mais adiante, o grupo olha para trás, vislumbrando o antigo edifício do orfanato. Eles deixam a nostalgia que este antigo edifício provocou neles de lado, seguindo seu caminho adiante pelo mato que o envolvia. Passando pelo matagal, os adolescentes andaram pelo pátio do prédio das meninas, onde o escritório de Senhora Junmi estava.
Estar dentro do prédio das meninas era um evento corriqueiro para Ulrich, mas nem tanto para Rudano. O “Tracinha” não gostava de visitar Junmi. Ulrich que era o monitor responsável de entregar os relatórios semanais.
Dentro do prédio dava para ver que ele era um pouco melhor organizado que o dos meninos, afinal, era nesse prédio que os olhares constantes e atenciosos de Senhora Junmi estavam. Um favoritismo exacerbado de Junmi incomodava os meninos, mas não era como se eles pudessem fazer alguma coisa, sendo Junmi a mandachuva do orfanato. Enquanto eles estavam vivendo debaixo do teto da diretora, os internos do orfanato tinham que suportar suas decisões arbitrárias.
Eles andaram até o corredor onde estava o escritório de Senhora Junmi, batendo na porta do escritório. “Entrem”, eles ouviram.
Dentro dele, eles puderam sentir um leve cheiro de canela proveniente dos incensos que Senhora Junmi botava para “limpar o ambiente” de energias “ruins” provenientes dos órfãos e do antigo orfanato. Os órfãos achavam que se isso funcionasse, a Senhora Junmi estaria bem longe do orfanato.
O escritório estava bem organizado, organizado porque Dido, a monitora mais próxima da senhora deste orfanato fazia o que era possível para apaziguar os humores da diretora.
Senhora Junmi estava sentada na mesa, na frente de uma janela que iluminava boa parte do escritório com a luz dos sóis binários de Urudânia.
Os adolescentes viram uma senhora de aproximadamente quarenta e poucos anos sentada em frente a uma mesa de madeira, em frente a uma papelada. Havia duas imagens na mesa, uma de Nossa Senhora e um de Santo Frankoff Mata-Pagãos. Santo Frankoff lutou na última guerra contra o Sacro Império Celestial
Seus olhos fincaram nos adolescentes que se aproximaram da mesa dela.
— Oh, até que enfim! — diz Junmi. — Mas não estou vendo a criança com vocês, o que aconteceu?
— Não tinha criança, senhora, era um alarme falso. — disse Dido.
— Ora, “alarme falso”? O que querem dizer com isso? — perguntou Senhora Junmi perplexa.
— Era um ursinho suicida, senhora. — Rudano foi o primeiro a falar. Ao que Rudano disse, Junmi percebeu seu rosto machucado do tapa e soco de seus colegas.
— “Ursinho suicida”? Vocês não acham que estão muito velhos para esse tipo de coisa? — ela pergunta. — Eu não mandei vocês para o mundo da fantasia! Mas para a realidade.
— Rudano não está mentindo, senhora. Todos nós vimos com nossos próprios olhos. O ursinho explodiu e quase matou Alice! — diz Dido.
— Não só isso, senhora! Eu acho que foi o Tracinha que botou aquele ursinho para me matar!
— É mentira dela, senhora! — Rudano diz revoltado. — Eu não fiz isso! Eu sequer sei como fazer magia, quem dirá magia do caos!
— Rudano está certo, Anna. Magia do Caos é um tipo de magia muito difícil e perigosa. Por mais que Rudano fosse capaz de fazer eu duvido que ele estaria inteiro porque esta magia causa mutações no corpo, além de corromper a alma. — diz Junmi calmamente.
— Mesmo assim… se encontramos um ursinho suicida no antigo orfanato, então isso quer dizer que há um mago do caos por estas redondezas, senhora. — diz Ulrich.
— Sim… — diz Junmi pensativa. — Magia do Caos atrai energias muito ruins… vou ter que queimar incensos e rezar para Santo Frankoff Mata—Pagãos o dia todo agora!
— Seria melhor então chamar os exorcistas, não acha, senhora? — perguntou Ulrich.
— O que? Bem… acho que agora não temos escolha. Vamos ter que chamar os inquisidores. — Junmi disse com olhos arregalados e pensativa. — Eu não quero problemas com essa gente, mas um mago do caos por aqui seria muito pior. Sabe se lá o que essa gente é capaz de fazer.
— Tudo, senhora. — diz Rudano. — Magos do caos podem fazer tudo.
— Sim, sim… eu sei que você sabe muito dessas coisas, Tracinha. — Ela aponta o dedo aos adolescentes. — Mas o que eu quero é que vocês saibam disso: fiquem bem longe desse orfanato, não quero mais ninguém indo até lá, entenderam? — ela diz de uma maneira severa. Ao que os adolescentes disseram nada. O silêncio deles já era a sua concordância perante as ordens de Junmi. — Ótimo, Dido e Anna passe o recado para as meninas, Rudano e Ulrich para os meninos.
— Mas o que vamos dizer? — perguntou Dido. — Digo… como vamos convencer os outros a não irem ao antigo orfanato?
— Ora, não precisam ser criativos. Basta dizer a verdade. Ninguém quer perder um pedaço do seu próprio corpo, não é? Falando nisso… — Junmi se levanta de sua cadeira e anda até Rudano. — Tracinha… quem foi que te fez isso no seu rosto? Não estão escondendo algo de mim não é?
— Foi a Anna e Ulrich. — diz Rudano. — Eles me acusaram de ser um mago do caos e eu tive que me defender, senhora!
— Entendo… vocês todos! Eu não quero briga entre vocês. Mais uma vez e todos os envolvidos irão para detenção. Estou bem certa? — “Sim…” eles dizem. — Eu preciso de vocês unidos, principalmente agora que chamarei os inquisidores, sabe como é essa gente, eles desconfiam de tudo. Falando nisso, Tracinha. — Ela se volta a Rudano de novo. — Não fale nada sobre essas coisas que você sabe para os inquisidores, entendeu?
— Sim, senhora… — ele diz.
— Pois bem, todos vocês podem ir. Preciso falar com Rudano a sós. — ela diz e andando de volta até sua cadeira, ela senta e começa a folhear uma papelada na sua frente, parece que era uma ficha de Rudano. Os adolescentes ficam curiosos, mas nada podem fazer diante de uma ordem de Junmi. Eles saem do quarto um por um até deixarem Junmi e Rudano a sós. — Rudano, você já encontrou algum emprego?
— Não, senhora. — Rudano diz.
— Rudano, você já tem dezessete anos. Todos seus colegas da sua idade já trabalham. Você também deveria.
— Todos as vagas que vi são tão longe daqui. Eu só queria algo perto, sabe?
— Não existe, você sabe que nosso orfanato é longe de tudo. Qualquer vaga é longe. Mas ainda sim… com dinheiro você compra sua bicicleta e pode ir trabalhar com ela.
Era uma ideia interessante, mas a verdade era que Rudano não queria trabalhar, ele não gostava. Toda vez que ele trabalhou os seus colegas achavam ele muito lento para o trabalho. Rudano vivia no “mundo da lua”, sempre com a mente focada em fantasias, era difícil algo tão mundano e irrelevante quanto ser empregado de mercado ter espaço em sua mente ao lado de suas fantasias. Este comportamento fez de Rudano ser demitido três vezes dos seus últimos empregos. Para Rudano, ele merecia viver uma vida melhor, uma vida cheia de aventuras, ser empregado de mercado não saciava a sua sede por uma vida de glória.
— Eu sei, eu vou dar um jeito, senhora. — ele diz.
— Eu sugiro você voltar ao seu último chefe no mercado e implorar por uma vaga a ele.
— Eu vou tentar…
— Eu acho bom, pelo seu bem, Rudano. Você sabe como funciona, se ninguém te adotar até os dezoito… vou ter que te expelir do orfanato, essas são as regras. — Rudano fica quieto e cabisbaixo mas com um olhar sério. — Você sabe que não posso manter vocês debaixo da minha saia pelo resto de suas vidas, vocês precisam enfrentar o mundo, viver no mundo das fantasias não adiantará nada, Tracinha.
“Enfrentar o mundo”. Enfrentar um mundo que Rudano tanto detestava apenas fazia o jovem recuar ainda mais em suas fantasias, mas para Rudano as exigências do mundo não coincidiam com seus planos, não… era o mundo que deveria se ajustar a Rudano, não o contrário. O que esses empregos entregavam a Rudano? Uma vida de gado. Enfrentar o mundo como um empregado de mercado não era o que ele queria. Um empregado de mercado não deixa marcas neste mundo, eles não são importantes, eles são descartáveis. Rudano queria mais, muito mais. Ele já leu sobre as antigas dinastias que governaram o Sacro Império Celestial e como muitos dos imperadores eram tratados e adorados como verdadeiros deuses. Seus servos sempre falavam com os imperadores evitando olhar para eles como sinal de respeito e reverência. Tudo para eles era garantido, sua comida, suas roupas, até seu banho e necessidades fisiológicas, tudo era tratado pelos seus servos. E agora, quem está vivendo esta vida é a Imperatriz Jugash, aquela que está no caminho de Rudano. O jovem também já leu sobre a saga do seu clã, como sua família uma vez já foi importante e viveu emocionantes aventuras pela galáxia de Ultima Fascis. Talvez Rudano não era avesso ao trabalho, talvez ele era avesso a ser apenas uma mera peça descartável e sem protagonismo na engrenagem decadente da sociedade.
— Eu vou me virar. — Rudano diz depois de erguer sua cabeça. — Eu sempre me viro.
— É assim que gosto de ver minhas crianças, de cabeça erguida. — Junmi diz com um leve sorriso. — Bem, já está tarde. Vá para seu quarto. E não se esqueça, Tracinha, eu não posso te obrigar a ter um emprego, mas a vida vai.
— Sim, senhora. — Rudano diz e vai embora do escritório de Junmi, deixando ela sozinha com as papeladas.
Fora do escritório de Junmi estava a Dido esperando por Rudano de braços cruzados, mas depois que ela viu o jovem na sua frente ela ficou mais relaxada e abriu um sorriso
— O que ela quis, Rudano? — Dido pergunta.
— Emprego, aquela baboseira de sempre.
— E você não vai trabalhar?
— Isso é problema meu, não enche, Dido. — Rudano diz.
— Eu só estou preocupada, Rudano, só isso.
— Eu sei, mas você nem a Junmi são a minha mãe. Então vê se me deixa! — Rudano diz e dá as costas a Dido indo em direção ao corredor para ir embora do prédio das meninas. Rudano não viu o rosto de decepção de Dido.
O LIVRO…
Rudano estava em seu quarto. Era um quarto bem pequeno, mas era espaçoso o bastante para caber um colchão de solteiro largado no chão. Havia um basculante que oferecia a luz da lua, mas nada demais. Nada demais o quarto era, mas para um órfão que nunca teve privacidade por uma boa parte de sua vida, aquele pequeno quarto era um luxo. Aos monitores era oferecido um quarto à parte para incentivar sua boa conduta. Os monitores não apenas precisavam manter a disciplina no prédio dos meninos, mas também precisavam ser um modelo que inspirava os outros órfãos a se comportarem e se conformarem. Se conformar em ser bons cidadãos e servos da Dinastia Jugash e do Reino de Deus.
Rudano estava sentado no colchão largado no chão. Havia um cobertor e um travesseiro, mas ainda não era hora de dormir. Não, enquanto ele não desse uma olhada no livro, aquele livro… Rudano pega debaixo do colchão um livro. Ele tinha uma capa colorida e um símbolo de uma espiral vermelha com uma cruz estranha. Não havia título nem nada escrito na capa, apenas aquele estranho símbolo vermelho.
— Então é isso… — Rudano sussura, não querendo atrair atenção dos “outros”.
Rudano começa a folhear as páginas do livro, sentindo dele emanar uma energia sinistra. O livro tinha um cheiro velho e suas páginas amareladas, suas letras já estavam desbotando e era difícil de ler. Parece que ele já havia passado por muitas mãos. Foram poucos aqueles que conseguiram o manipular por muito tempo.
O jovem continuava a ler o livro. Mas ele não consegue manter o foco. Algo estranho estava ocorrendo em sua mente. Ela divagava entre dezenas de coisas diferentes, e essas coisas não eram leves: poder, força, guerra, destruição, sacrifício… caos. Ele tentava continuar lendo o conteúdo mas cada vez mais esses pensamentos invadiam sua mente. E a sua tela mental? Cenas macabras apareciam em sua mente. Cenas de sacrifícios acima de uma pirâmide, cenas de lutas e guerras, cenas de planetas inteiros sendo consumidos pela guerra. Gritos estridentes, mas ao mesmo tempo infantis ecoavam em sua mente. Gritos de guerra e dor. Era como se o livro estivesse o testando. “Você é digno de me manusear? Tem o poder necessário para aprender de mim? Sim… conhecimento e poder te aguardam, mas você deve se provar digno”, ecoou a voz em sua mente.
Não… era demais. Eram cenas demais ocorrendo ao mesmo tempo em sua mente, imprevisíveis, psicóticas, caóticas… Rudano fechou o livro rapidamente e lançou ele na parede. O livro conquistou Rudano. Apenas um livro. Ele foi vencido não só por aqueles impuros, mas também… por um mero livro. Ou será que era um mero livro de fato?
— Livro amaldiçoado do caralho… — Rudano diz.
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